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Sexta-feira, Dezembro 2, 2022

Eclipse: Que a escuridão ilumine

Nélson Abreu, em Los Angeles
Nélson Abreu, em Los Angeles
Engenheiro electrotécnico e educador sobre ciência e consciência. Descendente de Goa, nasceu em Portugal, e reside em Los Angeles.

É verdade que o eclipse poderá causar até a perda de energia solar equivalente a 9 centrais nucleares (9 mil MW) para as redes eléctricas norte-americanas. Mas os milhares de pessoas que vão viajar até Oregon, no norte dos EUA, têm muita sorte. Muitos planetas não têm luas e entre aqueles que as possuem, normalmente não têm a combinação certa de órbita, tamanho e distância para obter um eclipse total. As chances de estar vivo na Terra num momento em que se pode ver um eclipse solar completo bem definido é ainda mais raro. Os corpos celestes existem por biliões de anos, no entanto, as condições para um eclipse completo nem sempre existiram e não existirão por muito tempo (em termos cósmicos).

O tamanho do Sol não mudou de forma apreciável, mas a Lua afasta-se da Terra pouco a pouco (3,8 cm por ano). Em 600 milhões de anos, a Terra parecerá pequena de mais para os nossos descendentes poderem vivenciar eclipses solares totais – se a humanidade conseguir sobreviver na Terra por tanto tempo.

O eclipse solar é uma oportunidade para mais pessoas adoptarem uma perspectiva mais cósmica, que poderá tornar-se na nossa salvação como espécie. Nós já vivemos no espaço, mas a nossa perspectiva e sentidos limitados nos traem, levando-nos a pensar que somos somente o nosso género, etnia ou nacionalidade num pedaço de terra. No entanto, as experiências de vislumbre (Em Inglês: awe) resultam de uma expansão da consciência e um senso de conexão com a natureza, com o cosmos, ou com os demais. Os astronautas descrevem esse sentimento quando contemplam a Terra a partir do espaço. As pessoas que têm experiências fora do corpo ou de quase-morte também descrevem essa perspectiva integrativa e mais cósmica.

Tendemos a identificar-nos muito com o nosso corpo individual e não o suficiente com o nosso planeta que sustenta a vida. No entanto, o educador de ciência Neil deGrasse Tyson argumenta que os movimentos ecológicos e humanitários (e o interesse pela ciência e engenharia) beneficiaram das primeiras imagens da Terra no espaço que entraram na consciência global. As pessoas que têm experiências de união com a natureza ou o cosmos tendem a adoptar vidas mais ecológicas, altruístas e orientadas por propósitos mais amplos. Poderia haver um momento melhor para um eclipse total do Sol? A humanidade certamente pode beneficiar desta perspectiva mais planetária ou cósmica.

Vale a pena celebrar o que melhore as hipóteses de mais pessoas se unirem para enfrentar as ameaças existenciais colectivas, como armas nucleares, mudanças climáticas, conflitos regionais e o desmoronamento da confiança nas instituições da civilização. São sintomas de paradigmas ultrapassados que necessitam de reciclagem. Fica aqui o desejo que a escuridão illumine.

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