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Terça-feira, Julho 16, 2024

Economia, a Religião sem almas…

Paulo Vieira de Castro
Paulo Vieira de Castrohttp://www.paulovieiradecastro.pt
Autor na área do bem-estar nos negócios, práticas educativas e terapêuticas. Diretor do departamento de bem-estar nas organizações do I-ACT - Institute of Applied Consciousness Technologies (USA).

Paulo Vieira de CastroAntónio Maria tem formação em empreendedorismo com apenas 15 anos. Como lhe poderia eu explicar os riscos de viver na sociedade de consumo? Ainda que metaforicamente, bastará referir, por exemplo, a questão da alimentação, esclarecendo  que é diferente ter fome ou  ter vontade de comer. Ter fome é uma necessidade legítima, a vontade de comer é um desejo. Eu necessito  comer apenas o suficiente.  Por isso, se estou gordo é, por norma, porque desejo comer de mais, dificilmente será porque tenho (muita) fome. Passar do mundo das necessidades legítimas para o mundo dos desejos transformou-nos em seres totalmente insatisfeitos.

A sociedade do consumo trouxe-nos a depressão, a falta de foco, a vida sem função. Como no mundo dos desejos tudo é uma ilusão damos agora importância ao que não tem valor na essência. E, isto não se passa só com os alimentos, acontece com tudo o que é resultado de um certo “empreendedorismo”.

Costumo explicar o confronto entre o mundo dos desejos (conceptual) e o mundo nas necessidades (funcional) partindo de experiências vividas por mim próprio.

 

Consumo logo existo!

Um exemplo que dou frequentemente tem a ver com a roupa interior feminina. Este é um exercício que costumo fazer nas minhas aulas e conferências.  Escolho entre os presentes dois voluntários, um para ser director de produção e outro para ser director de marketing de uma qualquer marca de roupa interior feminina. Este é um tema que anima qualquer sessão…

Começando pelo director de produção, pergunto: O que é que a sua empresa faz? Por norma, a resposta será “fabrica roupa interior, lingerie”, não anda muito longe disto. Produz sutiãs, bodies, slips… Por outro lado, quando pergunto ao responsável pelo marketing o que é que aquela empresa faz, ele responde: vende erotismo, realiza sonhos, aumenta a auto-estima dos seus clientes, mantém a relação entre muitos casais, substitui medicamentos com a vantagem de não ter danos colaterais, etc.

Conclusão, neste caso concreto, passamos da produção de bens com uma função higiénica, de conforto e segurança (slips, sutiãs, bodies,etc) para serviços, ou seja, para uma mera relação psicológica com as coisas. Perde importância a função dos produtos para passarmos a um mundo onde tudo são, agora, conceitos ilusórios, uma mera experiência psicológica, como o erotismo, os sonhos, a autoestima, o desejo, etc.

Continuando no mundo da lingerie, concluo com outro apontamento que é, também ele, real. Passeando num centro comercial, reparei que numa montra de sutiãs existia um enorme lettering que afirmava: “vendemos os melhores decotes do mundo…”. Este é, definitivamente, um mundo sem função, pensei…

 

Consumo e transcendência

economiaO consumo transformou-se no corolário de uma espécie de religião, isto, em grande parte, pela tentativa de mercantilização do que não pode ser comprado ou vendido. E,  por que é que isso acontece? Talvez , porque estamos a pensar em vez de reparar. E, mentir é pensar muito e reparar pouco, costumo dizer.

Certo é que pensar nos remete para a experiência consciente mas isso é só uma parte da nossa existência. A escolas deverão alertar as nossas crianças, os nossos jovens, para isso mesmo, deixando de ensinar – exclusivamente – a interpretar a realidade. Note-se que só o reparar nos devolve à atenção, ao foco no essencial. Ou seja, às coisas simples e funcionais.

Por isso, só quando estamos orientados para uma visão mais ampla, transcendente, espiritual, transpessoal, comprometida, humanitária, ecológica, quando estamos sensibilizados para os direitos de todos os seres sencientes  e da Natureza, deixamos de ser espectadores do que é viver meramente na ilusão proposta pela sociedade de consumo, passando a ver a vida como ela é, regressando, então, à existência com utilidade prática. De outro modo passaremos pela vida como por um quarto de hotel…

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