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Quarta-feira, Outubro 5, 2022

Entender o Bilderberg (a chave para o Poder Global)

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

Após dois anos de interregno (Covid-19 oblige), o mês de Junho voltou a registar o encontro anual do Grupo Bilderberg.

Trate-se, ou não, de um processo conspirativo (e o secretismo de que se têm envolvido não ajuda minimamente a dissipar as dúvidas) este reduzido e selecto grupo de indivíduos no topo das hierarquias económicas, políticas e militares constituiu uma elite que dispõe de todos os meios de acesso ao poder, meios que estão muito além do alcance das pessoas comuns, pelo que não será abusivo assumir que ao longo do tempo têm procurado assegurar a sua posição de poder através da manutenção e aprofundamento da sua própria coincidência de interesses partilhados. Em contraponto a esta realidade e podendo estarmos agora a assistir a uma revolta das novas elites contra a democracia, como em tempos afirmou Arjun Appadurai, a verdade é que a ascensão de novos autocratas, como Donald Trump, Narendra Modi, Recep Tayyip Erdogan, Vladimir Putin, Jair Bolsonaro, Boris Johnson, Viktor Orban e muitos outros, tem sido conduzida em nome de um povo eleitoralmente instrumentalizado para limitar a democracia e com o apreciável sucesso de disfarçar o capitalismo de desastre, resultante de um clientelismo e um neoliberalismo predatório que continua a conduzir-nos de crise em crise. Julgando-se aperreados pelo modelo de democracia liberal – porque no fundo odeiam a liberdade, a igualdade e a fraternidade, dos outros; porque contestam limites e contrapesos políticos, que consideram restrições ilegítimas à sua liberdade de agir sem restrições, recusam regulamentações de qualquer tipo, especialmente dos privilégios corporativos, que vêem como uma conspiração contra o capitalismo que só reconhecem na medida que os favoreça directamente – orientam o processo de instrumentalização contra as tradicionais elites liberais, as da comunicação social, as seculares e cosmopolitas, as elites económicas mais antigas, os intelectuais, os artistas e os académicos; contra todos aqueles que acusam de terem traído as verdadeiras elites e conquistado o poder de forma ilegítima – sejam eles os negros nos EUA, muçulmanos e secularistas na Índia, esquerdistas e pessoas LGBT no Brasil, dissidentes, ONGs e jornalistas na Rússia, religiosos, minorias culturais e económicas na Turquia, ou imigrantes, trabalhadores e sindicalistas no Reino Unido – tudo afinal que possa representar alguma forma de oposição ao seu populismo boçal e redundante.

A par de organizações como o Fórum Económico Mundial, a Comissão Trilateral e o Conselho Atlântico, o Grupo Bilderberg serve como rede de conhecimento das elites transnacionais, onde indivíduos com interesses compartilhados (neste caso os globalistas) podem trabalhar para promover a sua própria agenda, pois desde que a era da globalização elevou o poder político e económico acima dos limites dos estados-nação, que também estas transcenderam aqueles limites.

Pensar que instituições como o Grupo Bilderberg possam ser inconsequentes é subestimar o papel que desempenham na construção de um consenso ideológico global entre as elites, consenso que cada um dos participantes leva depois de volta para o seu país, assim permitindo que as elites interajam e adquiram uma educação compartilhada sobre como pensar o mundo em termos globalizados e, apesar do seu carácter não oficial, no sentido de que não é legalmente constituída, as ideias que veicula são posteriormente endossadas por agências oficiais como o FMI, a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico) e até pelos governos ocidentais.

Esta posição de charneira é especialmente verdadeira para sua orientação económica neoliberal, pois a existência de uma classe dominante global, como é tantas vezes identificada por analistas e estudiosos, obriga a alargar a análise política além das instituições oficiais das nações e esquecer qualquer coisa semelhante ao Bilderberg, é esconder a realidade e os meios ao dispor dos poderosos nos tempos modernos.

Oriundos de todo o mundo ocidental, os participantes nas reuniões do Grupo Bilderberg representam a globalização, nas suas esferas política, económica, militar, tecnológica e ideológica, reunindo num fórum onde não existe espaço para qualquer representação de interesses ou posições ideológicas alternativas à globalização, mesmo quando aparentemente acolhem políticos de partidos opostos, o que em última análise coloca em questão a existência de reais diferenças entre esses partidos e levanta a dúvida de saber se eles estão mais efectivamente preocupados com os problemas dos seus eleitores ou com os das grandes empresas transnacionais.

Perceber que o cerne do poder político, económico e militar já não reside no interior dos estados ajuda a explicar a vaga de descontentamento político que varre o planeta e até a compreender como o Grupo Bilderberg não pode continuar a ser visto e noticiado como uma “teoria da conspiração”; esta forma simplista e ingénua tem contribuído para o disfarçar do seu verdadeiro papel de núcleo de uma rede de conhecimento de elite, enquanto o secretismo de que se tem rodeado e a apatia e o laxismo da classe política deixam supor o pior. Se os políticos não recuperarem o papel formal e real como líderes nacionais e locais, responsáveis pelas necessidades e desejos dos seus eleitores em oposição aos das grandes empresas transnacionais, a crise global da democracia não deixará de se aprofundar.

 

Parte I  – Entender o Bilderberg (a reunião)

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