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Terça-feira, Janeiro 18, 2022

Entrevista exclusiva: Luís Urbano, o homem do Som e da Fúria

Luis URbano2

“Estar na competição em Berlim é meio caminho para o sucesso”

O produtor de O Som e a Fúria comenta em exclusivo ao TORNADO a selecção na competição de Berlim com Cartas da Guerra, antecipa as surpresas que ainda poderão estar por vir e avalia com confiança o futuro do cinema em Portugal.

 

 

O Festival de Berlim deste ano promete muito, também pela forte presença portuguesa. O que prova a vitalidade do nosso cinema, mas também a forte comunicação da vossa casa de produção. Sentiram por parte do festival abertura ao nosso cinema?

Do que já se sabe, Berlim seleccionou para a competição oficial 3 filmes Portugueses (Cartas da Guerra, do Ivo Ferreira, nas longas-metragens, e duas curtas, da Leonor Telles e do Gabriel Abrantes). Isto é um sinal muitíssimo forte da vitalidade do cinema português e da sua capacidade de se internacionalizar. Quanto à minha produtora O Som e a Fúria trata-se da continuidade do trabalho que temos vindo a fazer ao longo dos últimos anos de apostar seriamente num cinema português de qualidade, de afirmar os nossos autores e as suas propostas artísticas no panorama internacional e de contribuir de forma profícua para a afirmação da cultura e língua portuguesas. O Festival de Berlim – tal como o Festival de Cannes e o Festival de Veneza – não olha particularmente para quotas de nacionalidade dos filmes. Está é, como os outros, muito atento ao que se faz em Portugal e, concretamente, ao que nós, O Som e a Fúria, andamos a fazer em cinema. Por isso, reservam-nos um lugar de destaque quando se trata de avaliar os filmes que lhe são propostos. Isso deixa-nos, como é óbvio, contentes e orgulhosos do nosso trabalho.

 

 

Cartas de Guerra vai estar em competição para o Urso de Ouro, repetindo a façanha de Tabu há alguns anos. Surpreendeu-o a selecção?

Desde o início do ciclo de produção de Cartas da Guerra que definimos Berlim como prioridade e, por isso, acomodamos o calendário de produção para poder chegar a início de Novembro com algo sólido e consistente para lhes mostrar. Agora, quando mandas um filme para Berlim, pode sempre acontecer que não o queiram de todo (o mais provável), ou o queiram para uma das secções paralelas, tipo Panorama, ou o queiram para a principal montra, o clube estrito dos happy ones, a selecção oficial. Quando o filme começou a ganhar forma na montagem, apercebi-me, eu, o Ivo e o Sandro Aguilar (meu sócio e montador do filme) que era possível o filme surpreender. No caso, também só valia a pena o enorme esforço de terminar o filme para Berlim se fosse para a competição. Este filme é uma grande produção com um orçamento completamente ridículo (920 mil euros). Quando partimos para a rodagem em Angola, apenas tínhamos o apoio do ICA e da RTP (720 mil euros). Por isso, só foi possível fazer o filme com enorme esforço, crença e sacrifício de todas as pessoas que nele trabalharam e assumindo grandes riscos financeiros. No final, estar na corrida aos Ursos de Berlim, dá a todos os que trabalharam no filme e acreditaram nele uma indescritível satisfação. Quanto aos riscos financeiros, diminuíram bastante com a entrada de parceiros internacionais nesta recta final.

 

Acredita que ainda poderá ser acrescentada com algum outro filme luso?

Acredito que a O Som e a Fúria ainda poderá ter mais dois filmes em Berlim: O Rio Corgo, do Sérgio da Costa & Maya Kosa, uma co-produção com a produtora Suíça Close Up Films, da Joelle Bertosa; e o Eldorado XXI, da Salomé Lamas, uma co-produção com a Francesa Shellac Sud do Thomas Ordonneau, nosso parceiro em Tabu e As Mil e Uma Noites. Aguardemos pelos próximos dias.

 

 

Acha que esta é uma montra que acaba por abrir novos mercados ao cinema português? Assim aconteceu com Miguel Gomes, com Tabu e As Mil e Uma Noites.

Absolutamente. Posso garantir que Cartas da Guerra, tal como sucedeu com o Tabu, sairá de Berlim com bastantes vendas para o mundo inteiro. Berlim como mercado de cinema abre o ano e é das mais valiosas montras para a produção recente. Estar com um filme na competição e ter um sales agent credível é meio caminho para o sucesso. No nosso caso, trabalhamos com a melhor estrutura de vendas internacionais de cinema independente: The Match Factory.

 

Que outros projectos poderemos esperar para breve de O Som e a Fúria, para além do John From?

O John From irá estrear nas salas portuguesas a 24 de Março, e em França e no Brasil em Abril. Temos outros filmes para estrear em 2016, como a co-produção que fizemos com a Zentropa e a Busca Vida (Brasil), Olmo e a Gaivota, das realizadoras, a brasileira Petra Costa e a dinamarquesa Lea Glob. Este filme estreou em Locarno o ano passado e promete surpreender, e muito, o público português.

 

Parece ganha a aposta num cinema de qualidade e de vínculo autoral marca da vossa produtora. Acredita que passará a existir um maior apoio ao cinema português do estado com o novo Ministério da Cultura?

Saúdo o regresso do Ministério da Cultura. Parece-me uma excelente reposição. No entanto, ando nesta vida há uns anos e sei qual o papel que tem sido reservado à Cultura nos últimos anos (em crise é dos primeiros a cair). Vamos ver o que acontece nos próximos meses. O que sabemos é que temos uma Lei e todo um quadro regulamentar que nos dá alguma perspectiva. No entanto, temos que ter estabilidade no processo, uma avaliação do que não funciona no quadro regulamentar da Lei do Cinema e uma RTP forte e que aposte no Cinema e audiovisual de produção independente. O facto de a RTP estar na tutela da Cultura parece-me algo instrumentalmente positivo. A ver vamos…

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