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Segunda-feira, Fevereiro 6, 2023

Especulação em tempos de guerra

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

Próximo do final de 2022 e contrariando a onda mediática, surgiu discretamente a notícia oficial de um acordo para coordenar os esforços de investimento com vista à reconstrução da Ucrânia depois da guerra. Fechado entre o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e Larry Fink, o todo-poderoso CEO da BlackRock, este acordo segue-se a um outro para assessorar o governo ucraniano sobre como estruturar os fundos de reconstrução do país.

Os acordos preliminares firmados entre a BlackRock e a Ucrânia integram um memorando de entendimento assinado pelo Ministério da Economia ucraniano e pela BlackRock Financial Markets Advisory, em 10 de Novembro de 2022, estipulando que esta aconselharia o governo ucraniano, mais especificamente o Ministério da Economia, na criação de um roteiro de investimento para a reconstrução da economia do país.

Lançadas as bases para uma crescente cooperação do governo ucraniano com a BlackRock estará seguramente em curso todo o habitual processo para atrair investimentos públicos e privados para a Ucrânia e garantido um boom imobiliário, ou não seja a BlackRock uma das principais grandes empresas de investimento causadoras de distorção nos mercados imobiliários, por via da injecção de enormes quantidades de capital fortemente geradores da inflação dos preços.

O modus operandi das grandes gestoras de activos (e a BlackRock é tão somente a maior delas, com uma carteira da ordem dos 8 biliões de dólares, e o principal shadow banking mundial) é directamente responsável dois efeitos económicos imediatos dos aumentos de preços: em primeiro lugar, os custos mais altos de habitação beneficiam as propriedades onde esta já investiu fortemente  e depois o segundo efeito é que os preços artificialmente altos garantem apenas aos ricos ou às firmas de investimento com grandes quantidades de capital à sua disposição a posição de únicos jogadores no mercado.

O que estas notícias significam na prática é a quase garantia que a BlackRock está a ser principescamente paga pelo governo ucraniano para o aconselhar sobre um programa de reconstrução que beneficiará amplamente o consultor, e o financiador de última instância desta medonha pirâmide de embustes, quando a economia ucraniana está em frangalhos e a guerra é um empreendimento dispendioso, são os contribuintes da Europa e dos EUA  cujos governos já terão fornecido dezenas de milhares de milhões de dólares em apoio orçamental directo para evitar deficits e a falência total do governo da Ucrânia, e ainda prometem manter aquele apoio “enquanto for necessário”.

Neste cenário de catástrofe, como noutros, a BlackRock e outras congéneres gestoras de fundos são pagas pelos contribuintes dos países ocidentais doadores, por intermédio dos governos locais, para elaborarem planos que assegurem a rentabilidade dos seus investimentos futuros, tantas vezes realizados com os lucros gerados na predação dos mercados internos (e das populações) dos próprios doadores.

Não se estranhe pois, que graças a esta teia de interesses e aparentes contradições e com acordos da natureza dos descritos, as elites financeira e política do Ocidente revelem pouco (ou nenhum) interesse na paz!

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