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Segunda-feira, Julho 4, 2022

“Esperamos […] manter Novo Banco na esfera pública”

Em entrevista em exclusivo ao TORNADO, Pedro Filipe Soares aponta as lutas que se seguem e desvenda como decorre a convivência com os outros partidos da maioria. A reestruturação da dívida é o próximo grande “cavalo de batalha” dos bloquistas.

 

Jornal Tornado  – A sociedade portuguesa, após seis meses de Governo, vive hoje melhor?

Pedro Filipe Soares – Sim, e vemos isso no contacto com as pessoas. Queríamos um aumento das pensões muito maior do que o que houve, mas, mesmo assim, as pessoas consideraram positivo o que houve, porque, nos últimos quatro anos, só houve cortes ou estagnação. Nós acabámos com os cortes e conseguimos, nas pensões mais reduzidas, um aumento. As pensões de 300 e 400 euros estiveram congeladas desde 2010. Por pouco que seja, na prática, as pessoas percebem que estamos a lutar por elas. O mesmo se passa em relação aos salários.

Fizemos isso directamente na administração pública, porque acabámos com os cortes, mas fizemos isso também para toda a gente. A reposição de feriados é uma forma de valorização de salários. Mas queremos fazer mais ainda, repor os 25 dias de férias e com isso valorizar o salário. Queremos também aumentar o salário mínimo nacional que, infelizmente, atinge muitas pessoas.

Temos o compromisso que, até 2019, chega, pelo menos, aos 600 euros. Lutaremos para que seja mais, não só o Bloco, como as entidades do activismo social e sindical, para fazermos essa pressão, quer junto do Governo, quer junto das associações patronais, para podermos ter uma evolução positiva do salário mínimo. Estes exemplos mostram que há uma melhoria da vida das pessoas, mas ainda há muito por fazer.

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JT – Quais serão as próximas grandes lutas do Bloco?

PFS – Indiscutivelmente, a questão da banca, porque é essencial para determinar se vamos estar novamente a retirar dinheiro ao Serviço Nacional de Saúde ou à Escola Pública para tapar outro buraco de um banco. Essa é uma matéria importante e nós vamos lutar para que não sejam mais as pessoas a pagar os buracos dos bancos e garantir que a banca está, de facto, ao serviço da economia e que crie emprego. A prioridade essencial é criar emprego.

Temos de ter uma economia que responda a esta matéria porque ter mais de 10 por cento de desemprego oficial é inaceitável. Uma outra prioridade é a valorização dos Serviços Públicos e dos Direitos das pessoas. Um Serviço Nacional de Saúde com mais qualidade é um serviço que dá mais direitos às pessoas, porque lhes garante saúde, um direito previsto na Constituição, para o qual descontam. Uma Escola Pública de qualidade, uma Segurança Social que garanta que as pensões são valorizadas nas carreiras contributivas que existem, particularmente nas pensões mais baixas, são tudo prioridades exigentes que temos pela frente.

A par disso, a questão dos Direitos. Houve uma destruição dos direitos laborais nos últimos quatro anos e é preciso reverter o que foi danificado. A contratação colectiva tem de ser valorizada, o combate à precariedade tem de ser aumentado, assim como a luta pelos 25 dias de férias, que são garantias de maior estabilidade na vida das pessoas. Isto são pinceladas do quadro que temos pela frente, mas depende muito da questão da renegociação da dívida, para conseguirmos ter investimento público capaz de dinamizar a economia.

 

JT – Esses dossiers prometem criar alguma discussão entre os partidos da maioria parlamentar. O que o Bloco espera que aconteça?

PFS – Temos a consciência de que nem todos temos as mesmas soluções em cima da mesa. O BE tem a defesa do controlo público da banca, o PCP aproxima-se muito disso, mas o PS não tem essa visão. Concretamente, isto tem muito a ver com a forma como se gere a Caixa Geral de Depósitos (CGD) e, nessa matéria, há uma posição idêntica dos três partidos e também dos Verdes, que diz que a CGD não pode ser privatizada. Isso é importante porque a CGD é um dos grandes bancos portugueses e, estando do lado do Estado, esse controlo público tem uma efectividade positiva.

Há um debate sobre o Novo Banco e a nossa posição é que este banco não deve ser vendido e o Governo não assume ainda essa posição. Falamos de uma matéria que é fundamental para o nosso país, porque é um sector que nos tem sugado milhares de milhões de euros para os braços dos privados e o que temos feito é lavar o lixo tóxico que lá está e depois devolver aos bancos privados novamente. Isso não é aceitável do nosso ponto de vista.

Não aceitamos que o Estado seja uma máquina de reciclagem de lixo tóxico dos bancos privados, em que pagamos do nosso bolso para tapar os buracos e depois devolvemos aos privados para agirem da mesma forma. Ciclicamente, estaremos a ir dar com os mesmos problemas. Por isso, o Novo Banco tem um valor simbólico e de repercussão directa junto da economia portuguesa. Se tivermos, de um lado, o Novo Banco, e do outro, a CGD, ambos debaixo de uma gestão pública, temos quase metade da banca portuguesa com uma gestão democratizada e dependente dos interesses dos cidadãos e cidadãs. Isso é fundamental para que possamos dar sequência a uma outra visão para a banca, que actualmente não existe, mesmo sendo a CGD pública, porque o que este banco faz, muitas vezes, é repetir aquilo que os privados fazem. E isso nós não queremos.

Tendo estes dois bancos do lado do Estado, podemos ter uma boa influência na economia para um melhor critério na concessão do crédito e, com isso, poder potenciar a criação de emprego, ter programas melhor orientados por sector para que possamos ajudar os sectores que criam mais emprego e redistribuem mais a riqueza e que nos permitem defender da globalização actualmente existente.

A banca deve estar ao serviço da economia e, no contexto em que temos mais de 10 por cento de desemprego, tem de estar ao serviço da criação de emprego com qualidade e com direitos. Esperamos que fazer o caminho em conjunto com o PS dê a possibilidade de manter o Novo Banco dentro da esfera pública. É um processo em curso e estamos com toda a energia para que tenha um bom desfecho.

 

JT – Como tem sido a relação com PS e PCP e como classifica a actuação da oposição perante o novo cenário político?

PFS – Penso que PSD e CDS têm dificuldade em criar uma agenda mobilizadora e positiva. Têm uma agenda pela negativa, muito vinda da austeridade dos últimos quatro anos. Se olharmos para a votação do último orçamento de estado, PSD e CDS votaram contra o fim dos cortes na administração pública, contra o aumento das pensões, contra a redução das taxas moderadoras e tudo aquilo que foi positivo para as pessoas e que achamos essencial para mostrar que existe uma alternativa política real e que há um novo momento político.

Quem está contra essa retoma de rendimentos, dificilmente consegue ter uma agenda positiva e essa é a dificuldade de PSD e CDS. Parece que estão à espera que algo corra mal para poderem vir dizer que sempre tinham avisado de que iria correr mal. Ao invés, deviam ajudar para que possa correr bem a melhoria da vida das pessoas, porque é para isso que os partidos servem. O norte da política é para haver uma melhor redistribuição da riqueza, melhores salários directos e indirectos, melhores serviços públicos, mais solidariedade entre as pessoas. A política é para servir as pessoas e não, como vimos no passado, se servirem das pessoas.

PSD e CDS, que cortaram salários ao mesmo tempo que mantinham as PPPs com lucros fabulosos, que atacaram as pensões, ao mesmo tempo que na banca deixaram que tudo ficasse como estava, fizeram escolhas diferentes. Quem faz estas escolhas não está ao lado das pessoas. Enquanto oposição, não têm um projecto político para o país, e como tal não são mobilizadores das pessoas.

Do lado da maioria, como em tudo, há momentos bons e momentos não tão agradáveis. É um processo de aprendizagem também, onde estamos todos a aprender novas formas de trabalho. Mas, a verdade é que, no concreto, estamos a conseguir cumprir aquilo que era expectável pelas pessoas. Estamos a devolver rendimentos, estamos a garantir uma melhoria da qualidade de vida das pessoas e a garantir que os serviços públicos não fiquem piores do que estavam. Estamos também a garantir que a Constituição não é mais atacada. Isto significa que é muito mais exigente a democracia nos dias que correm do que era no passado.

 

JT – Sente que o partido está mais dinâmico depois das eleições?

PFS – Temos a noção clara de que as eleições e particularmente o novo momento político, com a maioria constituída no Parlamento e com o novo Governo, nos tem dado uma margem de manobra diferente do ponto de vista político e isso é reconhecido junto das pessoas. O Bloco começa por isso a ter maior proximidade e influência, uma vez que tem mais apoio popular.

Sentimos isso, mas é algo que não nasce apenas e só das eleições legislativas e do momento posterior. O trabalho das concelhias é importantíssimo. O distrito de Lisboa é o distrito onde o Bloco está mais enraizado. Quando já há trabalho feito, uma mudança política ajuda a cimentar esse trabalho e a ganhar um impacto maior na vida das pessoas. Vamos tentar que o momento se prolongue no tempo.

 

JT – O que falta ainda melhorar no trabalho do Bloco a nível nacional e local?

PFS – O Bloco é um partido muito jovem, com apenas 17 anos, e precisa ainda de ganhar lastro e mais aderentes e capacidade. Só confrontando ideias internamente, é possível melhorar as ideias como um todo. Já temos isso em muitas concelhias. É mais simples para nós fazer isso nos grandes centros urbanos do que quando vamos para o interior do país ou quando estamos em zonas menos populosas. Como temos uma estrutura mais reduzida do que outros partidos, sentimos essa dificuldade agudizada.

O Bloco tem, no entanto, uma especificidade, que é não substituir a organização à política. Se fosse numa lógica apenas e só de organização, o Bloco, porventura seria o partido com mais dificuldades de actividade política. No entanto, o que verificamos é que partidos com maior estrutura organizativa tiveram menor expressão eleitoral nas últimas eleições. Temos a consciência de que a organização é necessária e importante, mas só é útil se ajudar a fomentar a evolução política do partido. O nosso segundo desafio é garantir que, politicamente, estamos à altura do momento que as pessoas sentem, do que elas esperam e que anseiam que um partido como o Bloco lhes possa responder.

O contexto em que o Bloco está, numa maioria parlamentar, é algo diferente do que o partido alguma vez teve durante toda a sua vida anterior. Temos a capacidade de influenciar mais, o que é positivo, é uma responsabilidade adicional e estamos também, com toda a humildade, de peito aberto para esse desafio, com a consciência de que seremos avaliados pelas pessoas, esperemos que de forma positiva.

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