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Quinta-feira, Maio 30, 2024

Filme indiano mostra como o jornalismo pode fazer toda diferença

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

O filme Indiferença (no original, Bhakshak), dirigido por Pulkit, em cartaz na Netflix, mostra toda a diferença que o trabalho de uma jornalista pode fazer na vida de meninas órfãs, maltratadas e abusadas sexualmente num orfanato. Importante porque, para o jornalismo servir ao seu propósito, é necessária uma boa dose de coragem, abnegação e senso de humanidade.

Como a repórter Vaishali Singh (Bhumi Pednekar) diz no filme, o Facebook, representando as redes sociais, desumaniza as pessoas, tira todo o sentimento de solidariedade e de indignação e naturaliza a violência, o ódio e a discriminação.

Baseada em fatos reais, a obra retrata os acontecimentos de um abrigo em Muzaffarpur, Bihar, na Índia, onde as meninas eram surradas, estupradas e até assassinadas, com a complacência do poder local e da polícia. Qualquer semelhança com o Brasil será mera coincidência?

A jornalista de um pequeno canal de YouTube recebe a denúncia da existência de um relatório sobre as violências nesse abrigo, ignorado pelas autoridades que deveriam investigar e punir os responsáveis.

Sem se preocupar com audiência, com likes e sem medo de enfrentar esses bandidos, a jornalista iniciou uma investigação e foi descobrindo os horrores vividos por essas crianças e adolescentes e o sentimento de impunidade dos algozes, que chegaram a ameaçá-la e até a zombar do seu trabalho investigativo.

Indiferença leva a profundas reflexões sobre a falta de sensibilidade vivida neste século 21, com ideologias de extrema-direita dominando cenários, zombando da vida, de sentimentos, das mulheres e de todos os vulneráveis, sem que o Estado assuma a responsabilidade de impedir horrores desse tipo.

E não é somente na Índia e nem em abrigos de crianças órfãs que essas coisas acontecem. Basta ver os altos índices de violência contra crianças e adolescentes, inclusive no Brasil, dentro dos chamados lares e em todos os lugares.

Isso ocorre porque a mídia corporativa difunde preconceitos e não divulga amplamente o Estatuto da Criança e do Adolescente real, e difunde ideias deturpadas sobre impunidade de pessoas com menos de 18 anos e deixa sem combate o ódio aos mais pobres.

Basta ver como a imprensa esportiva trata jogadores muito jovens, meninos de 16, 17, 18 e até de 20 e poucos anos. A imprensa os trata como meninos que, por estarem em formação, como todo adolescente, não têm a mesma condição que os atletas adultos e quando um menino se destaca é sempre apontado que é muito jovem.

Mas quando um menino de menos de 18 anos comete um delito, por menor que seja, a mídia, na sua visão, não esconde a sua vontade de ver esse “monstro” na cadeia, preso como qualquer adulto. Os mais exacerbados defendem a redução da maioridade penal apenas com o argumento da vingança e da punição.

É dessa indiferença que o filme indiano trata com muita habilidade, com uma direção dinâmica e um roteiro atraente. E mostra como a sociedade necessita de jornalistas que não sejam indiferentes à violência com que são tratadas as crianças e os adolescentes em muitos países.


Texto em português do Brasil

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