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Terça-feira, Outubro 4, 2022

Filmes dialogam sobre as violências de gênero no mundo contemporâneo

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

Não se trata de multiculturalismo ou de uma questão puramente de identidade. Trata-se, isto sim, de como a vida pode ser vivida de um modo diferente com respeito e dignidade.

“A Noite do Fogo” (2021), de Tatiana Huezo; “Silenciadas” (2020), de Pablo Aguero; “Valentina” (2021), de Cássio Pereira dos Santos e “Ataque dos cães” (2021), de Jane Campion, têm em comum o tema sobre o necessário debate acerca das questões de gênero e as suas consequências no mundo contemporâneo. As obras ratificam os malefícios sociais e emocionais causados pela opressão patriarcal sobre a cabeça de todo mundo.

A difusão do preconceito, do ódio e da violência, muito comum no século 21, impede muitas pessoas de se realizarem em toda a sua plenitude, principalmente as mais vulneráveis por romperem com padrões convencionais de vida, determinados pelo sistema patriarcal vigente há séculos.

Por isso, é tão essencial transgredir a ordem vigente, como diz Belchior (1946-2017), “sempre desobedecer, nunca reverenciar”, para transformar o mundo num lugar bom de se viver. E não se trata de multiculturalismo ou de uma questão puramente de identidade. Trata-se, isto sim, de como a vida pode ser vivida de um modo diferente com respeito e dignidade.

Em “A Noite do Fogo”, a resiliência das mulheres estão perfeitamente coadunadas com a luta de classes. E da forma mais perversa elas sofrem as consequências da resistência aos desmandos machistas. Mesmo assim, resistem, já conquistando a Menção Especial no Un Certain Regard Award do Festival de Cannes.

Resistem ao medo constante de verem suas meninas raptadas por traficantes para serem escravas sexuais. Resistem à ausência de seus companheiros que foram trabalhar em locais distantes. Resistem ao agrotóxico espalhado pelo ar em todos os lugares, ao trabalho insalubre nas plantações de papoulas e às dificuldades com a falta do Estado e de políticas públicas em favor de suas vidas.

Já “Silenciadas”, baseado no livro “A Feiticeira”, de Jules Michelet, reflete sobre uma verdadeira caça às bruxas, no século 17, na Europa. Essa caça às bruxas de uma certa forma permanece nos dias atuais.

Toda mulher que ousa ser livre e determinada acaba meio que levando o nome de “bruxa”, por não viver dentro das convenções patriarcais. Na Idade Média, as chamadas “bruxas” eram condenadas e queimadas vivas. Acusavam-nas de endiabrar os homens com seus corpos e muitas vezes com suas posturas altivas. Isso num tempo em que não era permitido às mulheres estudar, nem trabalhar fora do meio doméstico, e tinham de se submeter aos seus maridos, pais, irmãos.

No filme, as meninas acusadas de bruxaria pela Inquisição encontram a morte como resistência, como no filme Thelma & Louise (1991), de Ridley Scott, no qual as protagonistas preferem se atirar num precipício a retornar à vida mesquinha que tinham antes de se arvorarem à liberdade pelo mundo. É a morte como reverência à vida futura.

“Ataque dos cães” é um filme tecnicamente perfeito, tanto que Jane Campion ganhou o Oscar de melhor direção de 2022. Também roteiro adaptado do livro homônimo de Thomas Savage, o filme se passa na década de 1920, numa comunidade rural, e debate a hipocrisia de uma sociedade dominada por homens brancos e ricos.

Pelo que se vê, ser mulher não era fácil em décadas passadas e continua não sendo. O que mudou foi a sua luta pelo empoderamento e, então, conseguir se impor num mundo ainda predominantemente machista.

Ser LGBTfóbico reflete um pouco esse medo que o machismo tem do feminismo emancipacionista e libertador. E essa crise de identidade do homem dificulta-lhe inclusive a sua própria dimensão de vida.

Nesse filme, predomina a misoginia pela falta de coragem do personagem ser quem deseja ser. Nota-se a necessidade de debate e informação para que todas as pessoas possam viver como melhor lhes aprouver. E issso não significa o individualismo predominante no capitalismo.

“Valentina” é ainda mais explícito ao abordar o drama vivido por uma adolescente trans para conseguir fazer com que prevaleça o seu nome social na escola. Ao mudar com sua mãe para uma cidade pequena do interior de Minas Gerais, passa a sofrer perseguição ao descobrirem a sua transsexualidade.

Senhoras e senhores conservadores tentam impedir que a menina seja matriculada nessa escola. Ao mesmo tempo, ela sofre agressões para impedir que seja quem é. O questionamento é feito à hipocrisia de uma sociedade que determina que a sexualidade das pessoas deva ser mantida no âmbito privado. No público deve seguir os padrões preestabelecidos.

Navegar é preciso, mas viver também. Essas obras nos ajudam a refletir sobre qual mundo queremos legar para as futuras gerações. O da liberdade, da igualdade, do respeito, do conhecimento, da vida, da paz e do amor ou o contrário disso tudo?


Texto em português do Brasil

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