Diário
Director

Independente
João de Sousa

Quarta-feira, Janeiro 26, 2022

Frase de Lima Barreto poderia definir filme sobre show de Emicida

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

O documentário “AmarElo – É Tudo pra Ontem” (2020), de Fred Ouro Preto, estreia na plataforma de entretenimento Netflix. O filme retrata os bastidores do espetáculo do disco “AmarElo” (2019), de Emicida, no Teatro Municipal de São Paulo, no ano passado.

O filme mostra todos os aspectos do show do rapper paulistano no Teatro Municipal de São Paulo, inaugurado em 1911, mas que poucas vezes teve a presença de artistas negros e populares em seu importante palco. O espetáculo traz as músicas do disco, com participações de Fernanda Montenegro, Majur, Zeca Pagodinho, Pabllo Vittar e MC Tha e vai além ao contar a história de importantes personagens negras da história do Brasil.





O filme expõe na tela a visão do artista sobre parte da história do país, destacando a ausência nos livros de história de grandes personalidades negras. Conta a trajetória da filósofa e ativista Lélia Gonzalez (1935-1994) e do ator, político e ativista Abdias Nascimento (1914-2011). Ambos fundamentais no combate ao racismo no país.

Se já não bastasse a qualidade das músicas desse disco, fica patente a vontade de transgredir o “lugar do negro” ressaltado por Lélia, para caracterizar o racismo estrutural existente na sociedade brasileira. Também abrange a criação do Teatro Experimental do Negro, por Abdias, com o objetivo de mostrar a cara preta nos espetáculos. De onde surgiu Ruth de Souza (1921-2019), a primeira atriz negra a estrear uma telenovela.

Além da trajetória dos importantes ativistas pelo reconhecimento da herança africana na cultura e na formação do Brasil, o documentário ressalta também a importância da Semana de Arte Moderna de 1922 – prestes a completar 100 anos – no debate de criação de uma arte voltada para dentro do país,  com destaque para o escritor Mário de Andrade (1893-1945). A frase do escritor paulista “os curiosos terão o prazer em descobrir minhas conclusões, confrontando obra e dados. Para quem me rejeita trabalho perdido explicar o que antes de ler, já não aceitou”, abre o documentário.

Não faltou mencionar a manifestação em frente ao Teatro Municipal da capital paulista do Movimento Negro Unificado, em 1978, por causa da exclusão de quatro meninos do time infantil de vôlei do Clube de Regatas Tietê, além da tortura e morte de Robison Silveira da Luz, acusado de roubar frutas numa feira, no 44º Distrito Policial de Guaianazes, zona leste de São Paulo. Como se vê as vítimas do racismo vêm de longe na história do país. Poderia atualizar mencionando a Coalizão Negra por Direitos, formada neste ano para unir todos os movimentos antirracistas do país.

“Não sou o primeiro artista negro, não sou o primeiro representante de um movimento popular a subir naquele palco. Mas conseguimos criar um contexto onde levamos para lá um número imenso de pessoas que passam ao redor do Teatro todos os dias, mas não se perguntam: ‘por que a gente nunca entrou nesse teatro?’ Porque nunca nos convidaram a pertencer a ele”, diz Emicida em uma entrevista ao jornal digital El País Brasil.

 

Assista Trailer oficial de AmarElo – É Tudo pra Ontem

O filme faz um paralelo entre o movimento hip hop e sua vertente musical o rap e os sambistas, perseguidos e marginalizados por retratarem a vida da classe trabalhadora, majoritariamente habitando as periferias das grandes cidades, mesmo o samba tendo sido utilizado como ferramenta para criar uma identidade nacional. Também fala sobre a tentativa de grandes artistas em mesclar o rap com o samba, ambos de matriz africana e de origem periférica.

Com dinamismo, os 89 minutos do filme passam rápido e fica a vontade de ver mais. Mais das músicas desse disco guardado para a história da música popular brasileira e mais da história das negras e negros longe dos livros didáticos, como o citado Luiz Gama (1830-1882), conhecido como o “advogado dos escravos”, tamanha a sua luta para libertar inúmeros seres humanos escravizados. Morreu sem ver o fim do escravismo, mas deixou sua marca na luta da classe trabalhadora da época – os escravizados – pelo fim do regime e por liberdade.

Luta sentida ainda hoje porque os escravizados foram marginalizados do mundo do trabalho após a Abolição, em 1888. Foram expulsos para longe dos grandes centros, numa tentativa de branqueamento da sociedade.

Como disse o escritor Lima Barreto (1881-1922) “é duro não ser branco no Brasil. A capacidade mental dos negros é discutida a priori e a dos brancos a posteriori”. O que traz à memória o fato acontecido pelos Oito Batutas – grupo citado no documentário –, de Pixinguinha e Donga, em 1928, após voltarem de uma temporada de sucesso em Paris, França, os artistas foram convidados por Assis Chateaubriand para serem homenageados no hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. Ao chegarem para a homenagem foram barrados na entrada e forçados a entrar pela porta dos fundos.


Texto em português do Brasil


Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a Newsletter do Jornal Tornado. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

 

Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a nossa Newsletter. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

- Publicidade -

Outros artigos

- Publicidade -

Últimas notícias

Mais lidos

- Publicidade -