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Sexta-feira, Dezembro 9, 2022

O Haiti não é aqui. O Congo é aqui.

Alex Saratt, Rio Grande do Sul
Alex Saratt, Rio Grande do Sul
Professor das redes públicas municipal e estadual em Taquara (RS), 1° vice-presidente estadual do Cpers, Secretário de Comunicação da CTB RS e Secretário Adjunto da CNTE

Houve um tempo em que ouvíamos, cabisbaixos e graves, a canção de Gilberto Gil e Caetano Veloso como signo funesto de nossa chaga espiritual. Haviam executado 111 apenados – quase todos pretos, quase todos pardos e outros quase brancos – e não foram raras as manifestações de satisfação e regozijo pela mortandade, pelo assassínio.

Talvez resquícios ainda frescos e latentes da “longa noite que durou 21 anos”, o fato era que o fascismo e os bordões de “direitos humanos para humanos direitos” e de que “bandido bom é bandido morto” habitavam corações e mentes envenenados pela ideologia que impede a sensibilidade e o senso.

Mais do que isso: a ideia de que pretos, pobres, favelados são um “retrato falado” – expressão pura de um racismo que desafiava e debochava da prescrição constitucional que o tipificava como crime – era mostra inconteste do enraizamento do preconceito, discriminação e exclusão racial na nossa sociedade.

De lá pra cá, muita coisa mudou, nada mudou. A sentença encerra não só uma contradição, mas também o histórico de lutas para que enfrentássemos e superássemos, não sem esforço, a trágica e malfadada herança escravocrata e racista que reduzia a humanidade africana a coisa, peça, objeto.

E não foram poucas as lutas. Nem poucos foram os conflitos e polêmicas. A afirmação da identidade particular e geral, a das ancestralidade negras e africanas e a da contemporânea brasilidade, exigiu debate, argumento, mobilização, políticas, leis. Reparação histórica, ações afirmativas, promoção de igualdade étnico-racial, foram a tônica de um país que ainda se recusava a olhar nos espelhos – o retrovisor e o reflexivo.

Inúmeras foram as situações em que a africanidade, a negritude e o espaço social igualitário se defrontaram com o racismo. E também foi numerosa e polvorosa a reação contrária: desde velhos chavões sem lastro na realidade – “os próprios pretos são racistas entre eles” – até as novidades “sociológicas” que apontavam para um “racismo reverso”, ignorando que o racismo é um sistema e uma estrutura de dominação, opressão, exploração, exclusão e violência histórica, cultural, econômica, política e jurídica.

O fato é que a ascensão do fascismo (desde antes do Golpe) e o repique do neoliberalismo trouxeram à tona (ou colocaram à frente) como discurso, narrativa e prática hegemônicas toda sorte de excrescência política e ideológica e é nesse cenário que se inscrevem os sucessivos e crescentes crimes de natureza racista.

O assassinato vil e covarde do trabalhador imigrante refugiado encarna num só turno o racismo, a xenofobia, o neoliberalismo e o bolsonarismo e a certeza de que a sociedade reagirá de forma fria e a Justiça garantirá a impunidade.

Möise Kabagambe escapou de muitas mortes, mas infeliz e desafortunadamente a morte o encontrou num país que lhe parecia porto seguro e lugar livre dos males que a herança colonialista e intervenção imperialista legou à sua terra. A putrefação moral e civilizatória, chave-mestra do racismo, capitalismo e fascismo, não perdoou sua existência e resistência.

A cor da pele, a exigência de seu justo direito como trabalhador e a idolatria ao ódio e a violência, fizeram mais uma vítima. Se nos Estados Unidos a luta social proclama que “Black Lives Matters”, aqui na pátria tupiniquim ainda ecoa a voz melancólica e desesperada da heroína Elza Soares que gritava “a carne mais barata do mercado é a carne negra”.

E como no passado recente, mentalmente cantamos em letras rubro-negras, uma versão da tragédia cotidiana atualizada: “o Haiti não é aqui, o Congo é aqui”. Justiça para Möise Kabagambe.


Texto em português do Brasil

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