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Terça-feira, Novembro 30, 2021

Guerra fria

José Cipriano Catarino
Professor (aposentado) de Português. Licenciado em Estudos Portugueses e Franceses pela Faculdade de Letras de Lisboa. Mestre em Linguística pela mesma faculdade.

Agosto de 1981. Universidade de Montpellier. Nós, bolseiros, tínhamos chegado dos quatro cantos do mundo. Os russos, então soviéticos, não falavam com ninguém — estavam proibidos, ou receavam o controleiro, o único que interagia com a universidade. Os polacos, por um mês fora da cortina de ferro, extravasavam a alegria como crianças em loja de brinquedos.

O controleiro russo tenta conversar com eles. Viram-lhe as costas com desprezo: França é terreno neutro, on en a assez, ils nous emmerdent en Pologne. Acrescentavam, para nossa surpresa: Mas os russos são nossos irmãos! E riam muito da nossa surpresa: A família, ao contrário dos amigos, não se escolhe!

E havia os chineses, inchados com as sua revolução. Todas as manhãs batiam à porta do professor responsável: se os norte-americanos já tinham chegado.

Pois um dia chegaram. E os chineses, na dianteira o minúsculo controleiro, batem à porta do americano para cumprir a missão por que ansiavam, para que se haviam meticulosamente preparado: punho erguido, cantam para o surpreendido gigante barbudo, de calções e em tronco nu, o hino chinês Abaixo o imperialismo yankee!

Esperariam, talvez, reatar ali, no quente Sul de França, os conflitos do Sudoeste da Ásia. Mas o americano, sem compreender a declaração de guerra, tomou a provocação por simpática recepção, agradeceu, e retirou-se para dentro do quarto.

Suponho que no regresso à China terão sido recebidos como heróis, eles que, mais uma vez, e nos antípodas, provaram que o imperialismo americano é um tigre de papel!


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