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Quarta-feira, Maio 25, 2022

Há 30 anos, a música popular brasileira perdia seu maluco mais beleza

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

Em pouco mais de duas horas, o documentário O Início, o Fim e o Meio (2012), de Walter Carvalho, mostra as várias faces da metamorfose ambulante de uma obra singular, que não perde a atualidade mesmo 30 anos após a morte do maluco mais beleza e genial da música popular brasileira. Foi num dia 21 de agosto, há três décadas, que perdemos Raul Seixas (1945-1989).

“Controlando a minha maluquez
misturada com minha lucidez
Vou ficar, ficar com certeza
maluco beleza”

Canta o artista baiano em uma de suas composições mais conhecidas. Raul ganhou corações e mentes de uma juventude ávida de sair de rótulos, dos quais ele próprio fugia como o diabo foge da cruz.

Sucumbiu ao alcoolismo em 21 de agosto de 1989, aos 44 anos, mas sua legião de fãs não para de crescer, mesmo com o ostracismo a que a mídia comercial relegou sua obra. Carvalho capta todo esse clima ao mostrar a vitória do artista contra o establishment, a censura e o preconceito. Vitória, porque sua obra sobrevive nos corações e mentes de todos os “malucos belezas” espalhados por todo o território nacional. Todas as pessoas que acreditam na arte e na cultura como uma das formas de se contrapor ao sistema capitalista e opressor.

Assista ao documentário O Início, o Fim e o Meio

Tanto que o cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro fez a música Toca Raul. Como ele próprio conta, sempre em seus shows alguém da plateia gritava a frase.

“Mal eu subo no palco
Um mala um maluco já grita de lá
–Toca Raul!
A vontade que me dá é de mandar
O cara tomar naquele lugar
Mas aí eu paro penso e reflito como é poderoso esse Raulzito
Puxa vida, esse cara é mesmo um mito”

Canta Baleiro.

O título do documentário remete à canção Gita, onde Raul e Paulo Coelho diz que Gita é “o início, o fim e o meio”. E vai além:

“Eu sou a mosca da sopa
E o dente do tubarão
Eu sou os olhos do cego
E a cegueira da visão”.

Essa questão de enxergar o mundo de uma outra forma também está presente em Como Vovó já Dizia. Por causa da censura, Raul escreveu:

“Quem não tem colírio, usa óculos escuros
Quem não tem filé, como pão e osso duro
Quem não tem visão, bate a cara contra o muro”.

Genial.

A poesia original, porém, diz:

“Quem não tem colírio, usa óculos escuros
Quem não tem papel dá o recado pelo muro
Quem não tem presente se conforma com o futuro”.

Ainda mais genialmente explícito. Ácido puro.

Não menos ácida, Ouro de Tolo arrebenta com a hipocrisia. Desanca com o sistema que nos leva a querer se dar bem, muitas vezes a qualquer custo, sem se importar com a vida das pessoas. Tremendamente atual.

“É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal”.

Não contente, dá um chute no descaso de parte de uma elite carcomida com sua obra.

“E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social”.

Bolsonaro certamente vetaria.

Raul Seixas

Morreu há 30 anos, em 21 de agosto de 1989, trilhou um caminho próprio, não se enquadrou e brilhou com sua arte despojada e popular

 

Mas Raul não se conforma e ataca o conformismo e a mesmice.

“Eu é que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar”.

Para anunciar no O Trem das 7, canta ele:

“Ói, ói o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem
Ói, ói o trem, vem trazendo de longe as cinzas do velho éon
Ói, já é vem, fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem
Ói, é o trem, não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem
Quem vai chorar, quem vai sorrir?
Quem vai ficar, quem vai partir?”.

Que o trem do Raul Seixas chegue lotado do desejo de transbordar em sentimento para construir o novo sobre as cinzas do retrocesso que vivenciamos em pleno século 21. Vamos todos ficar malucos belezas e levar a mensagem de construção do mundo novo, solidário e justo.

E sempre tem a chance de recomeçar com em Tente Outra Vez.

“Não diga que a canção está perdida
Tenha fé em Deus, tenha fé na vida”, porque “nada acabou” e “não pense que sua cabeça aguenta se você parar”

… Nada mais atual.

Trinta anos sem a metamorfose ambulante do maluco beleza da MPB justificam a efeméride. Principalmente porque Raul Seixas é o cara da contestação, que trilhou um caminho próprio, não se enquadrou e brilhou com sua arte despojada e popular.


Texto em português do Brasil


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