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Sábado, Fevereiro 24, 2024

Há um ano, no meio do furacão golpista…

Tereza Cruvinel, em Brasília
Tereza Cruvinel, em Brasília
Jornalista, actualmente colunista do Jornal do Brasil. Foi colunista política do Brasil 247 e comentarista política da RedeTV. Ex-presidente da TV Brasil, ex-colunista de O Globo e Correio Braziliense.

No dia 9 de janeiro de 2023 relatei em artigo publicado aqui, no Brasil 247, as horas que passei no dia anterior, dentro do furacão golpista que atentou contra nossa democracia. Por imprudência ou compulsão jornalística, corri para a Esplanada dos Ministérios ao saber do que estava acontecendo, fui agredida algumas vezes por grupos exaltados e em algum momento temi pelo pior, quando ameaçaram me dar “uma aula de jornalismo” atrás do Ministério da Defesa, um estacionamento mal iluminado.

Agora que a tentativa de golpe completa um ano, pensei em republicar aquele artigo (Golpe adentro, quase linchada…), que saiu também em um jornal do Chile e em outro da Argentina. As lembranças individuais ajudam a formar a memória coletiva. Constatei, porém, que de algumas coisas só tomei conhecimento depois e que algumas, nem registrei. Por isso optei por atualizá-lo, deixando disponível o link do original.

Como relatei naquele dia, corri para a Esplanada e comecei a abordar os grupos de verde e amarelo, perguntando o óbvio: por que estavam ali, por quem e como foram chamados, qual era o objetivo? Eles não respondiam. Ou me empurravam ou seguiam andando. Fiz duas ou três entradas ao vivo na TV 247, que estava acompanhando os acontecimentos como podia. Entre a Catedral, por onde acessei a Esplanada, e o Itamaraty, não vi um só policial.

Naquele momento, já depois das 15 horas, muitos grupos de ativistas estavam subindo da Praça dos Três Poderes, escapando do reforço policial que havia chegado. Lula, em Araraquara, já havia assinado digitalmente o decreto de intervenção. Ricardo Cappelli fora nomeado interventor na segurança pública do DF e já estava no comando da reação do governo.

Descendo a Esplanada, meu objetivo era chegar ao Congresso e à Praça dos Três Poderes, onde tudo estava acontecendo. E no caminho eu ia cruzando com os grupos de verde-e-amarelo já em fuga. De alguns ouvia que petistas infiltrados é que estavam “quebrando tudo lá embaixo” para culpá-los.

Eu estava ao vivo, falando em “movimento golpista” quando um grupo me cercou e me tomou o celular. Os internautas viram quando isso aconteceu. Eu tinha gravado alguns vídeos e eles me obrigaram a apagá-los. Eram agressivos, vociferavam dizendo que eu trabalhava para a polícia. Um deles mandou que eu apagasse os vídeos também na lixeira do celular, mas eu não sabia como acessar a lixeira. “Uma jornalista que não conhece a lixeira do celular? Você é uma petista a serviço da policia”. Tomou-me novamente o aparelho, apagou os vídeos na lixeira. Implorando, consegui reaver o aparelho.

Depois daquela primeira abordagem seguiram-se outras, inclusive a pior delas, em que pensei que seria linchada. Eu só vim a entender por que sempre me cercavam dois dias depois, quando alguém com acesso a grupos bolsonaristas me enviou a imagem abaixo. Eles haviam me fotografado e espalhado, nos grupos deles, a foto com a mensagem advertindo: eu era uma esquerdista que estava “fotografando os patriotas” para serem identificados.

Era fácil me reconhecer com aquele vestido preto de bolinhas brancas. Eu não sabia disso, mas comecei a evitar os grupos.

Finalmente cheguei à rampa de descida, entre o Itamaraty e o Congresso, e já havia lá uma forte barreira policial. Antes, como os vídeos depois mostraram, naquele local a PM liberou a passagem para que eles descessem ensandecidos rumo ao Supremo. Gritei que era jornalista e queria passar para trabalhar, mas um policial me apontou um fuzil dizendo “pare, senão atiro”. Gelei, lembrando os tempos do movimento estudantil na ditadura. Joguei a bolsa no chão, levantei os braços e ele, sempre apontando o fuzil, me disse para pegar a bolsa e me afastar andando de costas. Obedeci, é claro.

E foi então que vi uma multidão de verde-e-amarelo, bem compacta, subindo em direção à rodoviária, escoltada por policiais. Mais tarde eu saberia que já era o Capelli conduzindo os que foram flagrados na depredação rumo ao acampamento do QG do Exército. Lá houve aquela altercação entre Capelli e o general Henrique Dutra, chefe do Comando Militar do Planalto, que não concordava com a prisão dos golpistas.

Saberíamos depois que Dutra ligou para o general Gonçalves Dias, ainda chefe do GSI, que passou o telefone a Lula. “General, são todos criminosos e têm de ser presos!”, disse o presidente. O general respondeu: “Concordo plenamente com o senhor, mas essa é uma operação complexa, que precisa de planejamento. Até agora só lamentamos danos materiais mas, se entrarmos sem planejamento, vai morrer gente”. Lula concordou: “Isso seria uma tragédia, general. Cerque todo mundo. Não deixe ninguém sair e prenda todo mundo amanhã”. Dizem que muitos escaparam na madrugada.

Voltando às minhas peripécias na Esplanada: fui em direção ao comboio verde-e-amarelo ver o que era aquilo mas, no meio do gramado, um grupo de ativistas me fechou num círculo e começaram os xingamentos. Reexaminaram o celular mas não havia mais vídeos. Alguns me davam chutes nas panturrilhas. Eu tentava explicar que só estava tentando trabalhar, mas eles estavam muito irritados, e um deles fez a ameaça. “Vamos dar uma aula de jornalismo para ela lá atrás do Ministério da Defesa”. Estávamos em frente ao prédio da pasta. Atrás o que existe é um estacionamento mal iluminado. A noite estava caindo.

Nessa hora é que fui socorrida por uma mulher do grupo, dizendo que eu era mesmo jornalista, que ela me conhecia do Congresso, era até minha vizinha. Deixassem que ela me levaria até meu carro e faria com que eu fosse embora. Alguns discordaram, outros abriram o círculo, ela me pegou pelo braço e fomos saindo.

Ela quis saber onde estava meu carro, informei que atrás da Catedral. No caminho perguntei se ela era mesmo minha vizinha e ela esclareceu. Não, dissera aquilo para facilitar as coisas. Era funcionária do Congresso e me conhecia de lá. Mas eu devia ir logo embora antes que algo me acontecesse. Chegando ao carro, agradeci a ela, perguntei o nome mas já me esqueci.

Nessa altura Leonardo Attuch me mandava seguidas mensagens dizendo para eu sair dali, e resolvi sair mesmo. Rojões explodiam na Praça dos Três Poderes e tudo indicava que a insurreição havia sido controlada.

No dia seguinte o ministro Paulo Pimenta, mandou me chamar para uma reunião lá na Secom. Na sala já encontrei outros colegas que também haviam sido agredidos. O levantamento dava conta de 14. Alguns haviam passado coisas até piores que eu.

Um repórter do jornal O Tempo contou que estava no Senado e teve duas armas apontadas contra a cabeça. Pediu socorro à PM, que nada fez. Quem o ajudou a escapar foi um técnico da EBC. Uma fotógrafa do portal Metrópoles foi derrubada e espancada por cerca de dez homens. Um repórter da Band teve o celular destruído porque filmava os atos. Uma correspondente do The Washington Post foi agredida com chutes e teve o material roubado. Os relatos eram todos nessa linha.

A pedido do ministro, a Polícia Civil abriu um inquérito sobre ataques a jornalistas, que incluiu o roubo de todo o equipamento do fotógrafo do presidente, Ricardo Stuckert. Ele havia deixado o material no Palácio.

Prestei depoimento, como os outros. Recentemente fui chamada a ir lá assinar um termo mas não creio que tenham identificados os agressores de jornalistas.

Estes foram fatos menores diante de tudo o que aconteceu, mas contribuem para a crônica do 8 de janeiro. Tenho certeza de que todos os que estiveram ali, no meio do furacão golpista, nunca viram tanta fúria e ódio.

Há muitas coisas que ainda não sabemos sobre aquele dia, mas ainda saberemos. Todos terão que responder pelo que fizeram: não apenas os vândalos ensandecidos mas também aqueles que os comandaram ou inspiraram. Foi longa a gestação do 8 de janeiro.

É bom que Lula e os chefes dos outros poderes estejam planejando o ato de repulsa do próximo dia 8. É bom que os comandantes militares estejam lá, como dizem que estarão. Será melhor ainda se tivermos também manifestações populares, e não apenas o ato institucional. Seria bom que o 8 de janeiro fosse oficialmente definido como “dia da derrota da intentona golpista”.


Texto original em português do Brasil

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