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João de Sousa

Terça-feira, Maio 24, 2022

Filhos de várias pátrias

A Holanda é o país da tolerância, não é? Pelo menos, foi o que aprendemos e ensinámos aos mais novos.

Toda a gente sabe historietas do Bairro da Luz Vermelha onde as prostitutas estão nas montras, dos coffeshops onde se fuma droga e de Amsterdam ser o paraíso dos gays. É verdade que uns anos de socialismo deram estas e outras liberdades à Holanda. A fama ninguém lhe tira, mas as liberdades tornaram-se inválidas, talvez de velhice.

Dizem os nativos que se notou uma mudança para a direita nos fim dos anos 80 e durante os anos 90 o país ficou  roxo, dizem aqui: o governo era uma mistura de vermelhos, socialistas, com azuis, de conservadores. Mas a direita foi tendo mais preponderância até se chegar à catastrófica situação actual com a direita conservadora em primeiro lugar (VVD) e a extrema-direita em segundo lugar (PVV).  Dos partidos de esquerda só resta um  (GroenLinks) e mesmo o sociais democratas são muito mais de direita do que eram há 20 anos.

Em Portugal aconteceu o mesmo ao partidos, sim: viraram todos à direita. Ai não? Releiam discursos parlamentares dos anos 80, por exemplo, onde se falava da nossa marcha para o Socialismo. Resumindo, a situação aqui é catastrófica mas aguenta-se (como diria o anarca constipado) porque felizmente o loiro radical (Geert Wilders) não arranja partido nenhum que queira casar, quero dizer governar com ele.

E nós com isso? Nós nada… mas um dia destes quase nos caía o queixo de espanto. Então não é que um casal de bons rapazes foi espancado só porque andavam os dois de mão dada? Na Holanda? É. Na Holanda, na cidade de Arnhem, quando atravessavam a ponte – aquela ponte onde se deu o massacre na Segunda Guerra Mundial. Milhares de aliados, sobretudo britânicos, na ponte,  morreram a tentar impedir o avanço dos Nazis, para garantir a liberdade e a democracia, durante a Batalha de Arnhem (está nos filmes).

O local voltou a ser notícia por causa dos rapazes espancados com barras de ferro. Dois dias depois, em Amsterdão (sim, o paraíso dos gays) outro casal gay foi  espancado por motivos semelhantes.

(A polícia, entretanto, admitiu um aumento sério de agressões a homossexuais nos últimos anos. Em 2016 foram cerca de 2000 incidentes e este ano, três meses passados, já chegaram aos 600 casos. Um mau prenúncio. Oficialmente, a polícia não  quis confirmar a origem marroquina dos agressores – então quem disse isso? – mas aponta para suspeitos de origem africana. Estamos entendidos.)

Os holandeses ficaram indignados e invadiram o twitter e os jornais locais com protestos e apelos, à boa maneira da civilização europeia. É preciso, temos de, vamos fazer uma lei…. O costume, nestas situações contra democráticas e já inventaram umas palavras –  “homoagressão” e “homoviolência” – que devem ir para o dicionário. Infelizmente. Vários politicos, entre eles o mal-amado

Dijsselbloem, publicaram fotografias de si própriospasseando de mãos dadas com outro político. A praça Dam, no centro de Amsterdão, é ponto de encontro de uma marcha de protesto contra a homoviolência e a ponte de Arnhem está iluminada com as cores do arco-íris (símbolo da comunidade LGBT).

Também hoje, os turcos-holandeses foram votar no referendo do Erdogan, para lhe concederem, ou não, mais poderes. Fora da Turquia, a votação é mais cedo, mas o presidente já avisou que os não residentes são apenas 6% do total dos votantes. Não interessa sequer se é verdade. Espantosa foi a quantidade de turcos-holandeses a declarar a sua intenção de voto, nas tvs e nos jornais. Afinal, a Turquia é que interessa.  A Holanda é só para ganhar dinheiro.

Como eles, os marroquinos, é sabido. No Verão levam as filhas menores a passar férias na terra, casam-na com um primo (contra vontade da noiva) e depois exigem que a Holanda aceite o primo mais a família como novos holandeses. Em Roterdão, as jovens podem fazer uma declaração na escola,  antes de partirem para férias, a garantir que não pretendem casar . A Holanda usa este documento para invalidar os casamentos contra vontade… E nem falo da mutilação genital feminina, imparável, ou dos lover boys, que levam as jovens à prostituição forçada, porque a história já vai triste que chegue.

Hoje, Amsterdão tem as cores do arco-íris e a ponte de Arnhem também. Espero que nunca desapareçam.

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