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Quarta-feira, Julho 17, 2024

Inflação superior à oficial?

Eugénio Rosa
Eugénio Rosa
Licenciado em economia e doutorado pelo ISEG

A inflação oficial do INE não revela com verdade os aumentos de preços para as diferentes classes sociais (há várias inflações que os números do INE escondem), os preços continuam a aumentar como provam os lucros obscenos em plena crise apesar do esforço para convencer os portugueses que a inflação está a diminuir.

Neste estudo analiso os números da inflação oficial divulgados pelo INE como fossem verdades absolutas, que depois são retransmitidos pela comunicação social sem contraditório, criando a ideia falsa que esses números são verdadeiros para todas as classes da população o que não é verdade. Embora pareça estranho, não há uma única inflação mas sim várias, de acordo com as diferentes classes de rendimentos e estruturas de despesas dos orçamento familiares. É isso que provo tecnicamente neste estudo. Também mostro, com dados do INE, a quebra do poder de compra dos salários de 4,5 milhões de trabalhadores (Função pública e setor privado) e termino analisando os lucros obscenos da banca num contexto de grave crise económica e social.

 

Estudo

A inflação oficial do INE não revela com verdade os aumentos de preços para as diferentes classes sociais (há várias inflações que os números do INE escondem), os preços continuam a aumentar como provam os lucros obscenos em plena crise apesar do esforço para convencer os portugueses que a inflação está a diminuir

Os números mesmo oficiais (do INE) sobre a inflação não traduzem com verdade a escalada de preços nem as suas consequências para os portugueses. Em relação à inflação acontece o mesmo “mutatis mutandis” que denunciamos em relação a taxa de desemprego divulgada pelo INE que está muito abaixo da taxa real de desemprego no país. E isto porque o INE não considera nos valores que divulga centenas de milhares de desempregados pelo simples facto de eles não terem procurado emprego no período em que fez o inquérito, apesar estarem de facto desempregados.

 

NÃO HÁ UMA INFLAÇÃO APENAS, MAS SIM VÁRIAS DE ACORDO COM A CLASSE DE RENDIMENTOS A QUE SE PERTENCE COMO SE VAI PROVAR E O INE TINHA A OBRIGAÇÃO DE A DIVULGAR E NÃO OCULTAR

Embora esta afirmação – haver várias inflações que dependem da classe de rendimentos a que se pertence – pareça estranha e incompreensível para quem não conheça a forma como é calculado todos os meses o Índice de Preços no Consumidor (IPC) pelo INE, no entanto, basta uma pequena explicação e um exemplo para que fique clara a situação para todos, embora esta realidade seja ocultada pelo governo, pelo INE. E infelizmente os media divulgam os valores do INE sem os questionar como fossem verdades absolutas. Para compreender o que afirmamos é necessário conhecer a forma como o INE calcula o aumento de preços. O INE faz periodicamente um inquérito às despesas das famílias, por amostragem, a cerca de 18.000 agregados familiares, embora as respostas validas rondem os 64% (o último estudo disponibilizado no site do INE refere-se aos anos 2015/2016). E depois com base nos resultados apurado calcula a permilagem média que a despesa das famílias de cada classe de despesa (produtos alimentares e bebidas não alcoólicas, bebidas alcoólicas, saúde, transportes, educação,  etc.) representa em relação ao total da despesa do agregado familiar médio. O leitor certamente conhece o dito popular sobre médias: “se eu comi um frango e tu não comeste nenhum, teremos comido, em média, meio frango cada um”. Uma situação semelhante acontece com os valores médios de permilagem que representa o peso de cada classe de despesa em relação à despesa total da família.

Portanto, os valores obtidos e utilizados pelo INE não correspondem a famílias reais, mas sim a uma família construída com valores médios de um conjunto de cerca de 11.000 família. Para ficar mais claro observe os dados do quadro 1.

Quadro 1 – Cálculo da inflação com base na estrutura do orçamento familiar utilizada pelo INE (coluna 1) e com base numa estrutura de despesa de uma outra família que poderá até ser real ou está mais próxima de uma real (coluna 5)

Segundo o INE, as famílias portuguesas gastam atualmente em média (dados da coluna 1) apenas 21,95% do seu orçamento familiar mensal em “produtos alimentares e bebidas não alcoólicas” (peço ao leitor que faça esse cálculo em relação à sua família para ver se gasta apenas 21,95% do seu orçamento familiar na alimentação e bebidas não alcoólicas como diz o INE). E o peso (% em relação ao total) das despesas das restantes classes estão nas restantes linhas da mesma coluna 1 (o leitor poderá confrontar os dados do INE com os do seu próprio orçamento familiar e certamente registará desvios significativos). E depois o INE recolhe, fundamentalmente junto das grandes cadeias de distribuição e de fornecimentos dos serviços os preços dos bens mais representativos de cada uma das classe de despesa (o leitor se quiser calcular a sua “inflação” poderá para cada uma classes – produtos alimentares, vestuário e calçados, etc.- selecionar os produtos que consome) e com base nos valores assim recolhidos calcula o aumento de preços. No nosso caso não utilizamos a inflação homologa (comparação do aumento de preços verificado entre jan.2022 e jan.2023) mas sim a média dos últimos 12 meses com a media dos 12 meses do ano anterior. São os valores que se encontram na coluna 2. Seguidamente multiplica-se os valores da coluna (1) pelos valores da coluna (2), e somam-se os resultados e assim se obtém a Inflação verificada no ano com fim em jan.2023 que, segundo o INE, foi 8,25%.

Para que possa entender melhor a “mecânica” do cálculo de um Índice de Preços no Consumidor, vai-se imaginar uma família que gasta em “produtos alimentares e bebidas não alcoólicas” não 21,95% do orçamento familiar como diz o INE, mas sim 40% que deve estar mais próximo neste momento da realidade da maioria das famílias portuguesas, e depois faça-se os ajustamentos na estrutura de despesa do INE para que a soma continue a ser 100%. A taxa inflação que se obtém, já não é os 8,25% que INE divulgou, mas sim um aumento de 9,92%, ou seja uma subida de 10% nos preços no período. Para os trabalhadores no ativo que recebem o salário mínimo (mais de um milhão) e para os pensionistas que a esmagadora maioria recebe uma pensão inferior a 670€, que é a pensão média da Segurança Social (mais de dois milhões), e também para os desempregados que mais de metade não recebe subsídio de desemprego, a percentagem que as despesas com alimentação representam no seu orçamento mensal é certamente superior a 50%. Logo a taxa de aumento da inflação será certamente superior mesmo 9,92% (talvez entre os 11% e 12%). Pode-se dizer mesmo que há uma taxa de inflação para classe baixa (mais pobres), outra para classe média e outra para a classe alta. Imagine o leitor a seguinte situação para tornar tudo o dito mais claro para si: se gastasse todo o seu orçamento familiar na compra de produtos alimentares a taxa de inflação para si seria, segundo o INE, de 14,4% (coluna 2 do quadro 1) ou 20,2% (gráfico 1). A taxa de inflação depende não só do aumento dos preços dos produtos, mas também da estrutura da despesa familiar. Desafio o INE a divulgar taxas de inflação para grandes grupos da população com rendimentos diferentes (baixos, médios e altos). Os resultados certamente chocariam a opinião pública. O INE nunca o fará isso, pois a verdade incomoda os governos, e o INE não quer incomodar os governos.

Se existisse um Índice de Preços para os pensionistas e outro para os trabalhadores do ativo ficar-se-ia com uma informação mais correta dos aumentos necessários para impedir a perda de poder de compra das pensões e dos salários. No aumento de preços divulgado pelo INE (coluna do quadro 1) há coisas estranhas que levantam dúvidas – os preços da classe “Saúde” diminuem em -1,58% em 2022 quando comparados com os de 2021 – para os quais o INE não dá explicações e os próprios prestadores (LUZ, CUF, LUSIADAS, etc.) contestam. Será que o leitor sentiu essa diminuição?

 

A INFLAÇÃO HOMÓLOGA TOTAL OFICIAL DIMINUI, MAS A INFLAÇÃO DOS PRODUTOS ALIMENTARES CONTINUA A AUMENTAR E O GOVERNO PRETENDE FAZER CRER QUE ESTÁ A FAZER UM ESFORÇO PARA A CONTROLAR DEVIDO AOS PROTESTOS POPULARES

Anteriormente comparou-se a variação dos preços médios dos últimos 12 meses com fim em jan.2023 com a registada no ano anterior. Agora a análise é a comparação da inflação verificada num mês de um ano (ano N, que pode ser 2023 ) com o do mesmo mês do ano anterior (fev.2023 com fev.2023) o que permite ficar com uma informação mais exata do ritmo de aumento da inflação no nosso país. No entanto, é necessário ter presente que os valores do aumento de preços são os divulgados pelo INE, por isso estão enviesados pelas razões já explicadas neste estudo.

Segundo o INE entre fev.2022 e fev.2023, o Índice de Preços no Consumidor Total aumentou 8,3%, mas o aumento, no mesmo período, dos preços dos “Produtos alimentares e bebidas não alcoólicas”, em que impacto é tanto maior quanto menor for o rendimento familiar, atingiu 20,1%. Não deixa de ser dramático este ritmo de aumento de preços.

 

A QUEBRA CONTINUADA DO PODER DE COMPRA DE 4,5 MILHÕES DE TRABALHADORES SEGUNDO O PRÓPRIO INE

As remunerações quer a preços correntes quer a preços de 2014, com os quais se construiu o gráfico 2, foram divulgados pelo INE e são as declaradas mensalmente à Segurança Social e à CGA. Elas permitem comparar as remunerações médias brutas (antes dos descontos) com a evolução do poder de compra dessas mesmas remunerações a preços constantes de 2014.

Em dez.2021, a remuneração bruta nominal, portanto sem deduzir o efeito do aumento de preços, era superior à mesma remuneração a preços constantes de 2014, portanto deduzindo o efeito de aumentos de preços verificado entre 2014 e 2021, portanto à real em 76€, enquanto em dez.2022, a diferença já tinha aumentado para 176€, ou seja, 2,3 vezes mais.

Entre dez.2021 e dez.2022, remuneração media bruta nominal aumentou 47€ (passou de 1103€ para 1150€), mas a remuneração bruta média real a preços de 2014, ou seja, em termos de poder de compra, diminuiu em 53€ (-5,2%) pois passou de 1027€ para apenas 974€. A degradação geral das condições de vida dos trabalhadores portugueses é evidente. E está-se a trabalhar com valores médios tanto a nível de remunerações como de preços, o que esconde uma situação muito mais dramática que a traduzida por estes dados oficiais do INE.

 

OS LUCROS DA BANCA EXPLODEM EM 2022 APESAR DA GRAVE ECONÓMICA E SOCIAL QUE ENFRENTA O PAÍS CAUSADA PELA GUERRA E PELAS SANÇÕES E POR UM GOVERNO SUBMISSO E COM A OBSESSÃO DO DÉFICE

O quadro 2,com dados divulgados pelos próprios bancos, mostra que a grave económica e social causada pela guerra e pelas sanções tem sido um maná, ou seja, uma fonte de lucros enormes para os acionistas dos bancos.

Quadro 2 – Lucros da banca, crédito concedido, e dividas da banca (Passivo) financiadas com recursos baratos de clientes

Entre 2021, os lucros dos seis bancos constantes no quadro anterior aumentaram 81,5%, pois subiram de 1413 milhões € para 2564 milhões €, embora o negócio bancário por excelência (crédito concedido) tenha aumentado apenas 2,4%.

Portanto, foram conseguidos fundamentalmente à custa dos depositantes pagando taxas de juro de miséria, e dos devedores (aumentando as taxas de juro nos créditos existentes). É chocante constatar que a CGD, um banco público, adotou também esta estratégia de espoliação (paga juros de miséria e multiplica comissões. E isto apesar do financiamento do Passivo dos bancos com recursos de clientes (em média 83,5%, na CGD atinge o impressionante valor 90,3%). A passividade do governo e do regulador face a estes enormes lucros que se estendem a outros setores, e que contribuem para o agravamento da situação das famílias e das empresas, é chocante. Com o objetivo de iludir a opinião pública mandou a ASAE “ver o que se passa a nível de preços”, como disse o ministro da Economia. Só acordou devido aos protestos da população.

 

A INSENSIBILIDADE E A FALTA DE VERGONHA DA COMISSÃO EUROPEIA

Recentemente (9/3/2023) os media divulgaram que a “Comissão Europeia pressionou o governo a acabar com apoios anti-inflação”, ou seja, as ajudas à população, incluindo aos mais desfavorecidos, e às empresas atingidas pela grave crise económica e social causada pelas sanções que Bruxelas tem imposto a seu belo prazer a governos submissos que não defendem os seus cidadãos, as quais, na pratica, têm-se transformado em sanções contra os próprios europeus e contra as economias europeias causando uma escalada preços que está a destruir a vida dos europeus e, nomeadamente dos portugueses, e muitas empresas. Enquanto exige a um governo submisso, que se gaba de reduzir a divida pública de 125,4% para 113,8% do PIB num único ano à custa da degradação profunda dos serviços públicos (SNS, escola e transportes públicos, etc.) e de cortes enormes nas despesas sociais e no investimento público, que imponha mais sacrifícios aos portugueses, no entanto eles, em Bruxelas, aumentaram em 2023 as remunerações em 8% e mantêm para si e para os funcionários da Comissão Europeia a reforma aos 64 anos e cada ano de serviço contribui para a pensão com 3,5% da remuneração (em Portugal a idade de reforma não para de aumentar – já está nos 66 anos e 4 meses – e a contribuição para a pensão varia entre 2% e 2,3% por cada ano de trabalho).


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