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Segunda-feira, Julho 22, 2024

Intel quer um resgate massivo e sem compromissos

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

Mais de uma dúzia de anos volvidos sobre a crise do subprime e a famigerada solução dos resgates ao sector financeiro e à indústria automóvel (para citar só dois dos sectores de actividade então mais beneficiados), continuam a aparecer notícias preocupantes sobre a sua continuação de uma prática de concentração da riqueza que outra coisa não é senão um processo de nacionalização dos custos e privatização dos lucros.

Desta vez é a poderosa líder do mercado de microprocessadores, a norte-americana Isubpntel, que a pretexto da necessidade de se manter competitiva e para a realização de projectos de investimento naquele país, pretende que o sector aceda a um pacote de 52 mil milhões de dólares – valor equivalente ao que foi aplicado em 2008 no resgate à General Motors – intenção que levanta enormes dúvidas quando o desejado apoio financeiro não é acompanhado das adequadas e necessárias contrapartidas, deixando completamente livres as empresas para usarem aqueles fundos públicos em investimentos no estrangeiro ou continuarem a sua prática de distribuição de dividendos ou até de suporte à cotação das suas acções.

Na última década, as quatro maiores empresas norte-americanas de microprocessadores, incluindo a Intel, que mesmo depois de assumir a necessidade de apoios públicos não deixou de anunciar um novo dividendo trimestral para os seus accionistas, gastaram quase 250 mil milhões de dólares (mais de 70% dos lucros do sector) para manipularem o preço das respectivas ações e para remunerarem os acionistas mediante programas de recompra de ações.

Seja para resolver a actual situação de carência mundial – resultante da quebra de produção no sudoeste asiático, quebra essa ditada pela COVID-19 e pelos confinamentos usados para a sua contenção – seja pela necessidade de recuperar as produções domésticas, especialmente porque graças à deslocalização de empresas como a Intel e ao apoio de governos asiáticos para esse efeito, a fabricação de chips mais avançados está centrada naquela região do globo, existem bons argumentos a favor da necessidade de novos e maiores investimentos no desenvolvimento e produção de microprocessadores. Além disso, a escassez global de chips contribuiu para a subida da inflação que se está a registar. Mas o que ressalta da legislação norte-americana em debate (conhecida como Lei CHIPS) é que contempla escassas garantias de que os subsídios públicos irão assegurar, sequer, o prometido aumento de produção interna de semicondutores.

A excessiva protecção dos interesses de grandes empresas, como a Intel ou a Texas Instruments, é de tal forma preocupante que, segundo notícia da Reuters, pequenas empresas que projetam mas não fabricam chips, como Advanced Micro Devices (AMD), Qualcomm e Nvidia, receiam ver-se afastadas do “bolo”, o que a prazo se pode traduzir na sua absorção por algum dos gigantes ou na sua pura e simples extinção.

Demonstrando precisamente a pouca ou nenhuma preocupação com o interesse público (o aumento da produção de microprocessadores nos EUA), a própria Intel está a adiar a construção de uma nova fábrica no Ohio para pressionar o Congresso no sentido da aprovação da lei que lhe seja mais favorável e ainda para a inclusão na Lei CHIPS de uma redução fiscal de 25% para a sua produção, benefício que o Congressional Budget Office (agência federal norte-americana que fornece informações económicas e orçamentais ao Congresso) estima que possa atingir os 24 mil milhões de dólares, ao longo dos próximos cinco anos.

Mas o cenário global no sector dos microprocessadores é bem mais complexo e também a Europa e a China se propõem actuar no sentido de proteger e dinamizar essa produção em termos domésticos (a UE também tem em desenvolvimento um EU Chips Act), mas em qualquer dos casos (americano e europeu) nada garante que os enormes subsídios a atribuir vejam a estimular o investimento interno e ainda menos a seguir padrões que respeitem o interesse público. É que não são apenas conhecidas as habituais preferências das administrações das grandes empresas pela remuneração privilegiada dos accionistas privados, sempre em detrimento da pesquisa e desenvolvimento ou do interesse-geral, como bem vimos recentemente no escandaloso processo de desenvolvimento das vacinas para a COVID-19, largamente financiadas por fundos públicos e mais tarde vendidas a preços exorbitantes aos estados que as financiaram.

Infelizmente as críticas a este modelo de financiamento de interesses privados através de meios públicos, que deveria ser generalizado às diferentes escolas de pensamento económico (começando pelas que reconhecem nos juros e dividendos as formas de remuneração do risco e não os meios de enriquecimento fácil e seguro), continua reduzido às escolas marxistas ou heterodoxas, precisamente aquelas que os poderes estabelecidos e a generalidade dos meios de comunicação social remetem para o esquecimento, sempre que se debatem estas e outras questões.

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