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Terça-feira, Agosto 3, 2021

Economia: Algumas antecipações

José Mateus
Analista e conferencista de Geo-estratégia e Inteligência Económica

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José Mateus

Um exercício prático de inteligência económica, num País colapsado mas resiliente e com vontade (e alguma possibilidade) de “ressuscitar”

 

A crise “assentou praça” no universo lusófono. A queda vertical do preço do petróleo colapsou projectos de desenvolvimento, arrefeceu brutalmente economias e coloca problemas urgentes de diversificação ainda há um ano inimagináveis (mas há anos que alguém devia, em Luanda, ter feito o indispensável exercício de “pensar o impensável”…). Em paralelo, o Brasil, graças aos erros de Dilma na implacável “guerra” aberta pela hegemonia política, mergulhou num imparável processo de regressão que, tudo o indica, vai atirar o país para os tempos anteriores ao consulado de Lula. Estas dimensões de crise ultrapassam em muito os conjunturais fenómenos de ajustamento. São dimensões estruturais, pesadas e de longa duração. Dimensões de crise que exigem um repensar completo dos “tabuleiros” geo-económico e geopolítico. E dos novos papéis que podem surgir para cada um dos Estados Lusófonos. Augusto Santos Silva quase ainda não teve tempo de se sentar na sua cadeira nas (tão bem chamadas) Necessidades mas este é um dossier que não pode esperar… Porque o valor atribuído a Portugal em Bruxelas/Berlim é determinado pelo peso que tivermos fora da Europa.

Expectativas elevadas nos Portos e no Mar com a equipa ministerial de Ana Paula Vitorino (que já tinha chefiado a equipa responsável pelo programa político do PS para o Mar). Instalações de importância vital (os seus operadores, públicos ou privados, deverão também ser considerados de importância vital…), os portos têm sido e são palco de uma feroz guerra de interesses corporativos (há muito instalados) contra a racionalização, modernização e capacidade competitiva. Num país que pretende (ob)ter uma “economia do mar”, senão mesmo uma economia marítima, um tal tipo de situação é insustentavelmente paralisante. A equipa de Ana Paula Vitorino (que sabe do que fala quando fala de portos) tem a oportunidade de resolver velhos problemas que têm impedido o desenvolvimento do sector e gerado uma corrupção endémica. Expectativas elevadas, portanto, num sector que deve tornar-se rapidamente “nuclear” no desenvolvimento de uma nova economia portuguesa que saiba explorar as suas vantagens comparativas e competitivas para se “encaixar” positivamente na nova divisão internacional do trabalho que a acelerada mudança do modelo global está a gerar.

A energia solar já é um dos segmentos mais dinâmicos da economia portuguesa. A evolução tecnológica dos últimos anos tornou-a competitiva com qualquer outra energia “renovável”. Portugal tem as melhores regiões da Europa de produção. A procura tem muito por onde crescer. Portanto, os projectos de investimento multiplicaram-se, nos últimos dois anos. E, mesmo se governo e administração pública não tiveram a vontade ou a agilidade para responder às solicitações, a verdade é que nem os fundos americanos quiseram ficar de fora nesta corrida “solar”. Se a situação já era muito atractiva, ficou-o ainda mais após a “Cop 21” de Paris (que foi muito mais uma arena de guerra económica do que uma cimeira ambiental…) e as respectivas orientações negativas para os combustíveis fósseis. O novo governo tem aqui uma oportunidade de ouro para retomar uma bandeira de anteriores governos socialistas e mostrar que pode entender-se melhor com os “mercados” (quando tal se justifique…) do que o governo ordo-liberal e autoritário de uma direita política caninamente obediente a Berlim.

A brilhante gestão táctica da Altice na PT está a ficar ensombrada pelo aparecimento de sucessivos erros estratégicos e outras “desatenções”. E pela emergente imagem de uma imensa falta de compreensão do quadro português em que se movimenta. O caso mais visível dessa falta de “inteligência das coisas” (como diria o heterodoxo padre Vieira) foi a “guerra” perdida com a NOS. Como foi possível passar por aquelas cabeças a ideia de que poderiam ganhar à filha de José Eduardo dos Santos a corrida ao ouro do Benfica de Luís Filipe Vieira?! Oh, senhores da Altice em Portugal, em que mundo pensam que estão…?!

Duas Notas do contexto Político

O “Super-Espião”, os Jornais e a “Nau Catrineta”. Houve quem, este fim de semana, fizesse notícia com uma afirmação em tribunal do “super-espião” Jorge Silva Carvalho que “revelou serem os serviços de informação proprietários de órgãos de comunicação”. Mas haverá,em todo o mundo,algum país em que os “serviços” não controlem alguns media, jornalistas variados e outras “assinaturas de prestígio”? Prudente, Silva Carvalho só falou de “órgãos de comunicação”… A guardar trunfos, deixou de fora, talvez para segundas núpcias, jornalistas e outras “assinaturas de prestígio”. A coisa, porém, não é notícia. Notícia seria alguém encontrar um país onde tal não se verifique… Isto é mais uma ‘estória’ tipo Nau Catrineta: “Lá vem a Nau Catrineta que traz muito que contar / ouvide agora senhores uma história de pasmar”…

Esquerda de terceira geração e meritocrática. A actual maioria e o novo governo fizeram aparecer uma esquerda com tradições e pergaminhos. João Soares, Mário Centeno, as manas Mortágua, Catarina Martins (para referir só os mais mediáticos) são gente oriunda de famílias ancoradas à esquerda. O caso mais conhecido é o do ministro da Cultura cujo avô foi ministro da I República e cujo pai foi ministro, primeiro-ministro e presidente da II República. O ministro das Finanças (caso muito menos conhecido) é neto de um dirigente da Oposição Democrática, na Serra do Caldeirão, no Algarve, o senhor José Centeno, um senhor de grande resiliência, coerência e dignidade. Catarina Martins é neta de anti-fascistas e filha de militantes revolucionários. As manas Mortágua (o nome de guerra do militante anti-fascista Camilo colou-se à pele da família…) são filhas de um homem que toda a sua vida combateu a ditadura salazarenta. Mas o que é exemplar nesta Esquerda é que nenhuma destas pessoas usou estes pergaminhos de “filhos de algo” para se afirmar. Fizeram-no, sim, pelo seu trabalho. São meritocratas! Uma coisa ainda rara num país que continua demasiado marcado pela gente dos complexos económicos neo-corporativos e salazarentos e outros fidalgotes mais ou menos analfabetos.

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