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Sábado, Julho 20, 2024

Invasão da Ucrânia: Os dilemas da contraofensiva

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Como Zelensky nos advertiu várias vezes, a guerra que temos pela frente é a guerra da barbárie contra a humanidade, e ela não pode por isso ser travada no plano exclusivamente militar.

  1. O pilar americano

Ao colocar a questão do apoio ocidental à resistência ucraniana, convém começar por não sobreavaliar a importância dos EUA. A pusilanimidade mostrada pelas autoridades americanas, como tenho defendido, foi o motor decisivo para Putin, que normalmente não assume grandes riscos, se lançar na conquista total da Ucrânia.

Para o entendermos, nada melhor que nos situarmos na época da invasão e seguir a análise feita na época pelas autoridades chinesas. No dia 25 de fevereiro de 2022, um dia depois do início da invasão, o Global Times, o jornal chinês em língua inglesa que melhor traduz os pontos de vista das autoridades, terminava a sua análise da ‘operação militar’ do seguinte modo:

‘Se toda a operação militar correr bem, a Rússia poderá atingir o seu objetivo de controlar totalmente a Ucrânia, e o que mais preocupa a OTAN é a possibilidade de a Rússia voltar a realizar novas operações nos três países bálticos, nomeadamente Estónia, Letónia e Lituânia, disse Li Haidong, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade dos Negócios Estrangeiros da China, ao Global Times na quinta-feira .

Os EUA e a OTAN estão agora a observar a evolução da situação. Os EUA e a OTAN treinam tropas ucranianas desde 2014, e é hora de ver se eles vão enfrentar as tropas russas e por quanto tempo vão combatê-las. ‘Enquanto a Rússia não se envolver em conflitos militares com membros da OTAN, não haverá confronto direto entre a OTAN e os EUA e a Rússia ”, disse Li.’

Esta análise leu bem o que estava em cima da mesa e, nomeadamente, mostrou-se bem informada sobre a visão da Administração Biden sobre o assunto, prevendo que os EUA deixassem cair a Ucrânia como deixaram cair o Afeganistão.

O que falhou redondamente aqui – e na altura também me escapou a mim – foi a capacidade de resistência ucraniana e em particular do Presidente Zelensky, que mudou completamente os dados da situação, mostrando que a vitória russa não eram favas contadas e que seria incompreensível que os EUA e o Ocidente não apoiassem essa resistência.

Posto isto, e como aqui assinalei várias vezes, sem o empenho militar, diplomático e financeiro dos EUA, a resistência ucraniana verificada não teria sido possível.

Os EUA são uma democracia, e o empenho militar americano depende do apoio dado pela opinião pública e, em última instância, pelas autoridades eleitas.

A administração Biden apostou num apoio à Ucrânia que lhe permitisse apenas a resistência no seu território, mas não responder à invasão de forma recíproca. Dezasseis meses depois de a invasão começar, continua ainda a discutir-se se haverá aviões americanos fornecidos à Ucrânia, depois de se ter passado praticamente um ano a discutir se se iriam enviar tanques ocidentais. Grande parte das peças de artilharia fornecidas viram o seu alcance tecnicamente limitado para evitar que atingissem território russo, enquanto, de forma repetida, as agências estatais de informação americanas têm feito constar a implicação ucraniana em variadas operações não declaradas.

A estratégia de controlo da escalada da guerra implícita neste apoio americano tem a sua lógica, mas convém ter também em conta o que ela implica de negativo, e entre outras coisas ela tem implicado um tipo de guerra de posições, semelhante ao da primeira guerra mundial, ou mais recentemente, da guerra Irão-Iraque, que é extremamente mortífera para as forças combatentes e que pode provocar o cansaço, não só destas, mas tão ou mais importante do que elas, das populações de cujo apoio mais ou menos directamente ela também depende. E aqui, esse apoio da população é tão mais decisivo quanto menos autocrático for o regime.

  1. A importância do calendário eleitoral

A tendência da democracia americana tem sido a de começar o processo eleitoral e projectar as suas consequências cada vez mais cedo. A impressão geral de que o actual inquilino da Casa Branca não tem capacidade física para assegurar o seu mandato, e menos ainda para assumir o próximo, está a acentuar ainda mais esta tendência.

Ambos os que são neste momento os principais rivais de Biden na corrida eleitoral, Donald Trump pelos republicanos e Robert Kennedy Júnior pelos democratas, têm dado claros sinais de que estarão interessados num fim rápido das hostilidades, negociando com a Rússia.

Mesmo que o ‘establishment’ consiga manter Biden como Presidente, a expectativa geral é que as decisões estarão noutro lado, e esse outro lado tenderá a ser mais sensível ao sentir da opinião pública.

Nesse cenário, poderíamos então assistir a um congelamento do conflito semelhante ao que, por exemplo, se regista já do lado ocidental da fronteira ucraniana com a chamada Transnístria, ou como se registou durante décadas entre a Arménia e o Azerbaijão.

Quer isto dizer, portanto, que a Ucrânia pode ter de contar com o recrudescer de uma segunda frente da guerra, que é a de conseguir manter o apoio ocidental à sua resistência. E não vale a pena pensarmos que esse é um problema para janeiro de 2025, quando um presidente eventualmente diferente tomar posse, porque se se consolidar a ideia de que estamos prematuramente perante um ‘pato coxo’ (lame duck) na Casa Branca, a questão coloca-se agora, e compreende-se, portanto, que a questão da contraofensiva surja com urgência.

  1. A contraofensiva e a resposta à catástrofe humanitária

A demasiadamente prevista e anunciada contraofensiva ucraniana da Primavera, pode ter sido surpreendida com a capacidade da Rússia para usar todos os meios para lhe fazer frente, dinamitando a barragem de Kakhovka, provocando uma nova e tremenda catástrofe humanitária com o aparente objectivo de tornar o terreno impraticável para veículos blindados.

Tudo apontava para que a prioridade fosse agora a da frente Sul, aquela por onde é mais fácil chegar à Crimeia, e aparentemente foi também essa a percepção das forças invasoras ao recorrerem a este meio drástico de guerra que, para além de ser uma catástrofe ambiental e económica, é antes do mais uma catástrofe humanitária.

Não há certezas quanto às presentes intenções ucranianas, cujos dirigentes mostraram já várias vezes a sua capacidade de surpresa. Não convém por isso dar como adquirido o que pode ser apenas uma percepção, ou mesmo uma simples possibilidade.

Como Zelensky nos advertiu várias vezes, a guerra que temos pela frente é a guerra da barbárie contra a humanidade, e ela não pode por isso ser travada no plano exclusivamente militar.

E é neste contexto e por esta razão que se compreende o apelo do Presidente Zelensky e a aparente concordância do Secretário-Geral Guterres a uma missão humanitária – conduzida pelas Nações Unidas – para salvar a população ucraniana vítima da sabotagem da barragem de Kakhovka, mesmo que sob o risco de adiar ou paralisar a dita contraofensiva na zona Sul.

E é aqui que, de forma inesperada, António Guterres e a sua impressionante capacidade para manter a porta aberta às várias componentes do conflito se poderá tornar um elemento essencial.

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