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Sexta-feira, Dezembro 9, 2022

Irão: o direito internacional ao assassínio

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Aquilo que os nossos dirigentes querem vender como ‘acordo nuclear com o Irão’ é o reconhecimento do direito internacional ao assassínio pelo regime iraniano, contra dirigentes políticos ocidentais que se lhes atravessem no caminho, contra intelectuais que desafiem a interpretação fanática que fazem da religião, ou contra que quer que seja que ouse enfrentar esse monstro político-religioso.

  1. Permaneço Charlie!

Em cartaz disponível na web, Salman Rushdie adere à campanha ‘Permaneço Charlie’ em conta resposta à campanha ‘Não sou Charlie’ animada pelos lóbis jihadistas no Ocidente; em Portugal, dirigida pela mais proeminente lobista do regime iraniano, a ex-candidata presidencial Ana Gomes.

Como tenho chamado a atenção múltiplas vezes, o ponto contencioso que levou à vaga de assassínios em série de jornalistas do ‘Charlie Hebdo’ é o da representação gráfica do profeta, representação que correntes integristas consideram uma blasfémia; não é a da suposta falta de respeito pelo profeta.

Naturalmente que o debate sobre o equilíbrio entre liberdade de expressão e respeito pela convicção religiosa é fundamental, mas o misturar desse debate com o do fanatismo serve apenas para confundir o que temos pela frente e justificar o crime com mentiras ou meias-verdades.

Convém também aqui ter em conta que o debate teológico sobre a representação do profeta é igual ao que opôs os adeptos da reforma à Igreja oficial e que levou, entre muitas outras coisas, a ondas de vandalismo que destruíram a representação de santos e divindades nas igrejas cristãs europeias.

A ‘grande fúria iconoclasta’ protestante é em tudo semelhante à fúria integrista islâmica na destruição das imagens do profeta, a principal diferença está em que uma data do século XVI e a outra se prossegue na actualidade.

Do ponto de vista estritamente religioso, aquilo que se passa com o Islão – naturalmente divergindo em numerosos pontos – é algo de semelhante ao que se passou com o integrismo cristão.

O alvo primeiro dos integristas é o não-integrismo. A erradicação das representações do profeta – que continuam a encontrar-se com abundância em países muçulmanos onde o fanatismo não conseguiu ainda devastar a herança cultural religiosa, como por exemplo, na Ásia Central – é o principal objectivo de campanhas jihadistas como a que foi desenvolvida contra o Charlie Hebdo.

Este último ponto é importante para entendermos como a pretensão dos jihadistas de estar apenas a reagir contra a ‘islamofobia’ é pura desinformação: o que eles pretendem, nesta fase, é destruir todo o Islão que não se renda à lógica jihadista; ou seja, é o jihadismo que realmente pratica a Islamofobia!

É também neste contexto que é importante percebermos por que razão o religiosamente anódino texto de Salman Rushdie foi escolhido para alvo pelo fanatismo islâmico de tradição Xiita.

Rushdie inspira-se numa lenda segundo a qual dois dos versos do Corão teriam sido, não de inspiração divina, mas sim de inspiração satânica, e é de resto daí que sai o título do livro. É o título – é duvidoso que os que conspiraram para o seu assassínio tenham lido mais do que o título – que está na origem da decisão para o crime jihadista.

Na opinião dos fanáticos, a lenda põe em causa a infalibilidade do profeta, e por isso é herética e por isso o herege que a profere deve ser morto. É um pouco como se a Igreja Católica assassinasse quem quer que seja que divulgue uma das inúmeras lendas que existem à volta de Cristo que não são conformes à vulgata, algumas delas, como sabemos, extremamente populares.

  1. O fanatismo islâmico orgânico

O fanatismo religioso existiu em todas as épocas e existe em todas as confissões, em maior ou menor grau, mas só por miopia ideológica ou outra não se entende que a dimensão do problema com o fanatismo islâmico contemporâneo não tem equivalente em nenhuma outra religião.

A interacção entre a política e a religião, como sabemos, é também um fenómeno relativamente vulgar – foi crucial entre nós no Estado Novo – mas teocracias, no sentido em que um governante máximo e de poderes ilimitados governa em nome de Deus, temos no nosso mundo apenas uma, que é a do Irão.

Existem outros fenómenos no mundo islâmico que nos devem merecer a maior das atenções. A Arábia Saudita é uma criação de uma das muitas correntes integristas muçulmanas, o wahabismo, sem que, no entanto, se tenha tornado em teocracia, com o Coroa a manter a supremacia em relação ao turbante, e com o fanatismo islâmico, do iraniano ao de Bin Laden, a tudo fazer para lhe pôr fim. O seu novo líder, Mohammad Bin Salman, ousou cortar com o wahabismo e pretende encarnar um despotismo iluminado para fazer face ao imperialismo teocrático, fundamentalmente iraniano.

A Irmandade Muçulmana foi o cadinho onde foi criado o jihadismo moderno e de onde apareceu o jihadismo xiita iraniano (essa ideia de que o sunismo e o xiismo são dois mundos à parte, é uma das várias ideias erradas que campeiam entre nós). A Turquia de Erdogan é hoje a principal referência da Irmandade Muçulmana, sendo que várias outras potências jihadistas têm com ela uma relação complexa, o Emirato Taliban afegão, a República Islâmica do Paquistão ou o único país de ideologia wahabita, que é o Qatar.

De longe a mais importante referência jihadista é a da teocracia iraniana que, através das sua milícias geridas pelos Guardas Revolucionários Islâmicos tem presenças dominantes na Síria, no Iraque, no Líbano e no Iémen; ataca praticamente todos os países do mundo árabe (especialmente os países do Golfo e a monarquia jordana) e promove um antissionismo extremo.

Ideologias totalitárias há infelizmente muitas outras, mas nem todas têm a mesma importância e nos devem preocupar da mesma maneira. A título de exemplo, o Chega, entre nós, cultiva a recriação do antigo regime como existiu com Salazar, mas isso é grotesco, não há qualquer possibilidade de vermos a ressurreição desse salazarismo.

Aquilo que ocupa o antigo espaço do salazarismo, ou seja, uma ideologia conservadora que cultiva o patriotismo baseado na invenção histórica, em relação com uma leitura integrista do cristianismo e todo o cortejo de valores que lhe estão normalmente associados (machismo e homofobia, por exemplo) é o putinismo.

Esse, como aqui tenho dito nos últimos anos, não me parece o mais perigoso, embora confesse que fiquei surpreendido com a sua popularidade após a inqualificável agressão imperial antieuropeia deste ano.

A demarcação do Chega perante o putinismo fez explodir o quadro internacional em que se situa, marcado por Órban ou Le Pen em favor dessa miragem salazarista que se estruturou, desde o terceiro segredo de Fátima, na confrontação com a União Soviética. É um problema que vai certamente corroer o Chega, com boa parte do seu eleitorado, e mesmo de figuras emblemáticas, a demarcar-se das posições oficiais e apoiando o putinismo. Não tive aqui qualquer surpresa.

O apoio servil do PZP – que sempre foi um departamento externo do imperialismo soviético – também não me surpreendeu. Foi antes uma corrente de opinião que não é forçosamente alinhada com o Chega ou o PZP que tem uma expresso significativa entre nós, de origem e valores difusos que me surpreendeu, porque me parece que ela está insatisfeita com o estado de coisas no Ocidente e está pronta a dar apoio a quem quer que surja que se oponha a esse quadro ocidental, mesmo se esse alguém é tão indigesto como Putin.

Temos depois a mais consistente e mais perigosa das ideologias totalitárias, que é a da ‘correcção social’ do Partido Comunista Chinês. Essa deu provas da sua capacidade de influência com o covidismo, que foi engolido sem sentido crítico practicamente em todas as latitudes.

Com tudo isto concluo que mesmo as aparentemente mais esdrúxulas ideologias e seus intérpretes oferecem uma reacção surpreendentemente obnóxia da parte do Ocidente, e que por isso, mesmo o fanatismo islâmico tem entre nós portas abertas, por esta mistura de ignorância, enfado com a nossa realidade, corrupção e síndroma de Estocolmo que leva as vítimas a identificar-se com os seus algozes.

  1. O apaziguamento ocidental

A tentativa falhada de assassínio de Salman Rushdie é um crime de Estado! O antigo e o actual líderes máximos do Irão disseram de viva voz que queriam assassinar Salman Rushdie, o regime publicitou o prémio a dar ao seu executante, o agente do crime fez publicamente referência nas redes sociais ao seu apego à teocracia iraniana após se ter deslocado ao Líbano onde foi recrutado pela secção local dos Guardas Revolucionários. A imprensa do regime exultou perante o ataque e, como sempre faz nestas circunstâncias, culpou a vítima por ele.

Mas o ataque deu-se na mesma altura em que a polícia americana desmontou a célula que trabalhava no assassínio de dois dirigentes políticos da administração Trump, também nos EUA.

Nada disto levou qualquer dos países ocidentais a tomar uma atitude, mas pelo contrário, em reacção ,os nossos dirigentes fizeram saber que queriam prosseguir com as negociações com a Rússia sobre uma suspensão do programa nuclear iraniano (temporária e de verificação duvidosa) contra o fornecimento de incentivos financeiros e um compromisso de não exercício de sanções contra as actividades do regime contrárias ao direito internacional.

Por outras palavras, o Ocidente está a conceder ao Irão o direito internacional ao assassínio e à invasão imperial dos seus vizinhos sem que em consequência sofra sequer sanções económicas e financeiras, para não falar de represálias mais directas.

O absurdo é ‘intermediado’ pela Rússia que não só ameaça dia sim dia não o uso de armas nucleares contra a Europa, mas como tem usado as centrais nucleares que ocupou e ocupa na Ucrânia para fazer chantagem nuclear sobre a Europa.

E é isso que me parece importante reter: aquilo que os nossos dirigentes querem vender como ‘acordo nuclear com o Irão’ é o reconhecimento do direito internacional ao assassínio pelo regime iraniano, contra dirigentes políticos ocidentais que se lhes atravessem no caminho, contra intelectuais que desafiem a interpretação fanática que fazem da religião, ou contra que quer que seja que ouse enfrentar esse monstro político-religioso.

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