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Quarta-feira, Julho 28, 2021

Irão. Raisi: de carniceiro a presidente

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

O britânico Telegraph titula, e bem: ‘O novo Presidente do Irão deveria estar na prisão, não no poder’, fazendo eco da posição da Amnistia Internacional que reagiu a notícia da ‘eleição’ de Raisi com um pedido de investigação internacional.

  1. O massacre de 1988

O massacre de 1988, no qual o líder espiritual iraniano emitiu uma fatwa para assassinar todos os oposicionistas que se encontrassem nas prisões que não se arrependessem, independentemente dos processos judiciais do regime, terá provocado cerca de 30.000 vítimas – incluindo mulheres grávidas, e com as mulheres necessariamente violadas antes do assassínio para assegurar que não teriam ‘entrada no céu’ – não é aparentemente diferente de muitos outros que conhecemos com maior ou menor profundidade.

Lembramos, no entanto, Hitler e o holocausto, Stalin e o Holodomor, os Khmers vermelhos, o genocídio ruandês e tantos outros… e quase passamos ao conformismo, a mais um página negra da humanidade que é difícil de distinguir de tantas outras.

A vulgarização que se faz do holocausto, a forma absurda com que se mistura passado e presente, para além das leituras enviesadas da história, tudo tende a embaciar a realidade e a fazer com que olhemos com menos atenção do que a necessária para esse massacre, a mais emblemática das selvajarias do regime teocrático.

Há razões para olhar para este massacre de forma particular e atenta. Trata-se de um crime contra a humanidade de um regime que se encontra em funções e, não, não é sequer um regime que se tenha moderado ou reformado – e a prova está nesta eleição/nomeação do principal protagonista do massacre para as funções de Presidente da República.

Depois, mesmo o regime Nazi tudo fez para esconder as provas da barbárie que cometeu, e o iraniano, se é verdade que enterrou os cadáveres em valas comuns e que destrói toda e qualquer sinalética que possa indicar a sua localização, só o faz porque com ele nem os corpos das vítimas têm descanso. Os líderes iranianos – a começar pelo agora nomeado Presidente – não só não negam o crime como se vangloriam de o ter cometido.

A selecção para Presidente de um indivíduo que a única coisa que tem no currículo são quarenta anos de carreira de profissional revolucionário a acusar, julgar, perseguir, torturar e assassinar dissidentes tem a mensagem clara de que o regime não quer saber de valores humanos nem do seu bom nome na comunidade internacional.

  1. A nomeação presidencial

O regime iraniano é teocrático, quer isto dizer que o poder está nas mãos do clero que se arroga o direito de governar os homens em nome de Deus. O guia espiritual é a primeira figura do Estado e é simultaneamente o chefe religioso e político.

O regime permite, contudo, a interferência do povo na designação da segunda figura do Estado que é o Presidente. Aqui, o clero seleciona um pequeno número de candidatos e permite ao povo escolher entre eles, sendo que, mesmo assim, no passado, foi necessária a chapelada para corrigir resultados que não confirmaram as intenções.

Este procedimento alimentou a ficção – cuidadosamente mantida por um Ocidente apaziguador – da existência de facções moderadas e radicais e da capacidade do povo de fazer sentir aqui as suas opiniões.

Na União Soviética, os candidatos também eram selecionados, neste caso pelo partido e não pelo clero, e os eleitores, quando eram confrontados com um único candidato podiam rejeitá-lo, o que de resto fizeram várias vezes, sem que por isso ninguém no Ocidente se tivesse lembrado de outorgar credenciais democráticas ao processo.

Aquilo que aconteceu de diferente nestas eleições foi que o poder se dispensou de permitir candidatos que pudessem ser interpretados como tendo qualquer divergência com o líder supremo, juntando ao candidato designado para ganhar meia dúzia de desconhecidos e eliminando da lista figuras cimeiras do Estado.

O processo foi de tal forma escandaloso que levou à maior abstenção de sempre, com os iranianos a ignorar massivamente a mascarada eleitoral, condicionando assim ainda mais a legitimidade do processo.

  1. Prisão em vez de palácio presidencial

O britânico Telegraph titula, e bem: ‘O novo Presidente do Irão deveria estar na prisão, não no poder’, fazendo eco da posição da Amnistia Internacional que reagiu a notícia da ‘eleição’ de Raisi com um pedido de investigação internacional.

Os apaziguadores ocidentais que pretendem abençoar o plano nuclear iraniano numa ridícula ressurreição de um acordo nuclear que era mau em 2015 e que é uma fantasia nos dias de hoje, se persistirem na sua atitude, se acharem que podem ignorar a mensagem vinda de Teerão, estarão a trair o que há de mais sagrado na ordem internacional que é o direito à vida.

O boicote levado a cabo pelos iranianos à farsa eleitoral da passada sexta-feira tem que ser agora seguido pelo Ocidente que deve exigir uma investigação penal internacional ao papel de Raisi nos assassínios em massa de 1988 como condição para qualquer diálogo com esse país.

É esta a forma de assegurar a imprescindível solidariedade com o povo iraniano, mas é também esta a forma de lutar, nos dias de hoje, contra todo o poder que se afirma pelo assassínio em massa dos seus dissidentes.

 

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