Diário
Director

Independente
João de Sousa

Sexta-feira, Outubro 22, 2021

Jacob Azancot de Menezes

Percursos em prol de Angola e da Ciência

Após 25 anos de prospecção e inventariação botânica e fito-ecológica, reuniu mais de 5000 originais botânicos e mais de 30000 duplicados, arquivados em Herbários de 10 cidades africanas e europeias.

Óscar Jacob Azancot de Menezes, filho de Ayres de Sacramento Menezes e de Aida Ramos Azancot de Menezes, nasceu a 9 de Agosto de 1924, na Ilha do Príncipe, em São Tomé e Príncipe, e casou-se com Etelvina Leitão Gomes Azancot de Menezes.

Enquanto Engenheiro Agrónomo e Investigador desenvolveu actividades de prospecção e inventariação botânica e fito-ecológica em Angola, entre 1960 e 1974, e os seus contributos prestados para o conhecimento da Flora Angolana são considerados de extraordinária importância científica.

O Estado português, atendendo à qualidade das actividades desenvolvidas e ao reconhecimento dos trabalhos científicos prestados por Jacob Azancot de Menezes a Angola e à Comunidade Internacional, concedeu-lhe a cidadania portuguesa.


Óscar Jacob Azancot de Menezes

Óscar Jacob Azancot de Menezes frequentou e concluiu a Instrução Primária na Escola Primária Pinheiro Chagas, na Chibia, Distrito da Huíla (Angola) e o Liceu Diogo Cão no Lubango – Angola (1935 a 1940), tendo concluído o Curso Geral dos Liceus e o Curso Complementar de Ciências no Liceu Camões em Lisboa (Portugal).

Estudou no Instituto Superior de Agronomia – Universidade Técnica de Lisboa (1943-1948), onde concluiu o curso de licenciatura que lhe conferiu o título de Engenheiro Agrónomo. Com o tirocínio intitulado «Classificação Sistemática das Plantas colectadas no Concelho de Loures», realizado no Gabinete de Botânica do Instituto Superior de Agronomia sob orientação do Professor Catedrático João de Carvalho Vasconcelos, produziu o Relatório final do curso com o título «Subsídios para o Estudo Geobotânico da Zona Ocidental do Concelho de Loures».

De 1944 a 1948, no Instituto Superior de Agronomia, concluiu com aprovação a «Especialidade de Engenheiro Agrónomo Colonial». Para complemento da sua formação estagiou em 1950, no Jardim e Museu Agrícola do Ultramar de Lisboa, sob orientação do Professor José Diogo Sampaio D´Orey, tendo apresentado como relatório do estágio o «Estudo Sistemático das espécies do género Dracaena existentes no Ultramar Português».

De 1951 a 1952 frequentou como aluno voluntário o 1.º ano da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

Em Novembro de 1950 foi contratado como Botânico-Ajudante, pelo Jardim e Museu Botânico do Ultramar, durante um período de 6 anos, dedicando-se a estudos e sistemática da Flora Africana em especial da África Ocidental e a ensaios de adaptação de plantas tropicais ao clima temperado. Em 1956 exerceu, interinamente, por 6 meses, as funções de Director do Jardim e Museu Agrícola do Ultramar.

Em Janeiro de 1957, após ter pedido a sua exoneração, regressou a Angola como Administrador de Empresas, tendo exercido essas funções até Abril de 1960, na Empresa «A Comercial e Industrial de Mange, Lda», no Lobito (Angola).

 Depois de uma permanência de 4 meses no Instituto de Investigação Científica de Angola (I.I.C.A.), foi contratado em Novembro de 1960, como Engenheiro Agrónomo de 1.ª classe (letra F), pela Junta de Povoamento Agrário de Vale do Bengo.

Em Janeiro de 1962 é requisitado à referida Junta do I.I.C.A. para prestar serviço como Botânico, equiparado a 1.º assistente, tendo em Março do mesmo ano acompanhado a Divisão de Botânica na sua transferência para o Lubango. Em Julho de 1962 é contratado pelo I.I.C.A., como 1.º assistente.

Em Outubro de 1963 é nomeado em comissão eventual de serviço, professor eventual da Escola de Regentes Agrícolas do Tchivinguiro (Angola), cargo que exerceu em acumulação durante vários anos.

Em Fevereiro de 1964 é criada no Centro de Estudos do Instituto de Investigação Científica de Angola (I.I.C.A.), em Sá da Bandeira (actual cidade do Lubango), a «Secção de Fito-geografia e Botânica Sistemática» da qual é nomeado Chefe.

Em Dezembro de 1969, passou a exercer as funções de Chefe do Centro de Estudos de Sá da Bandeira. Em Maio de 1971, sempre no exercício das mesmas funções, deixa de ser primeiro assistente contratado, para ser nomeado 2.º assistente.

Durante os 13 anos de actividade no I.I.C.A percorreu, isoladamente ou chefiou brigadas de campo, dezenas de milhares de quilómetros do espaço angolano, no exercício de missões de prospecção e inventariação botânica e fito-ecológica.

Em Outubro de 1974 é nomeado Subsecretário de Estado de Fomento Agrário do Governo Provisório de Angola, cargo em que permaneceu até 31 de Janeiro de 1975.

No período pós-independência foi Responsável pelo Centro Nacional de Investigação Científica (CNIC), ex-Instituto de Investigação Científica de Angola, em Luanda. De 1977 a 1980 foi Professor Agregado da Universidade Agostinho Neto nas Faculdades de Ciências Agrárias do Huambo e na de Luanda.

De 1981 a 1985 exerceu funções no Ministério da Agricultura em comissão de serviço, como Director Nacional.

Em 1994 foi Professor Convidado da Unidade Curricular de Ecologia na Universidade Moderna de Lisboa, até à data da sua morte, em Setembro do mesmo ano.

Subsídios para o conhecimento da Flora de Angola

Jacob Azancot de Menezes integra o grupo dos 4 botânicos de todo o mundo que melhor conhecem a Flora angolana

Eng. Óscar Jacob Azancot de Menezes 

Óscar Jacob Azancot de Menezes integra o grupo dos quatro botânicos de todo o mundo que mais contribuíram para o conhecimento da Flora angolana, sendo ultrapassado apenas por Welwitsch, Gossweieler e Grandvaux.

De facto, a colecção de originais de Jacob Azancot de Menezes obtidos entre 1950 e 1974, só é superada pelas de Friedrich Welwitsch (médico e naturalista da Áustria que realizou trabalhos em Angola ao serviço de Portugal de 1853 a 1861), John  Gossweieler (grande colector em Angola que, segundo Maria Romeiras (s.d.) do Instituto de Investigação Científica Tropical de Lisboa, “realizou colheitas entre 1900 e 1950”)  e Grandvaux Barbosa, defende Romeiras, que também colectou um número muito significativo, em Angola, entre 1959 e 1969.

Na opinião da botânica Maria Romeiras (s.d), Brito de Teixeira também foi considerado um dos grandes colectores, tendo prestado serviço em Angola de 1949 a 1969.

Os mapas de Angola representados no Quadro, da Esqª para a Dtª, mostram a distribuição das colheitas efectuadas por, respectivamente, John Gossweieler (mapa com tons de azul), Brito de Teixeira (mapa laranja e vermelho) e Jacob Azancot de Menezes (mapa amarelo e castanho).

Abaixo dos mapas, também da Esqª para a Dtª, mostra-se um exemplar colhido por cada um dos colectores: John Gossweiler, Brito de Teixeira e Jacob Azancot de Menezes.

Adaptado de Romeiras & al (s.d.), recolhido em 11/12/2018 de https://www.academia.edu

Mais de 5000 originais botânicos angolanos e mais de 30000 duplicados em África e na Europa

Óscar Jacob Azancot de Menezes possui como colector além de centenas de especimens botânicos portugueses, arquivados nos Herbários do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa e do Jardim e Museu Agrícola do Ultramar, mais de 5000 (cinco mil) originais botânicos angolanos, arquivados no Herbário do Instituto de Investigação Científica de Angola e mais de 30000 (trinta mil) duplicados, arquivados em vários Herbários sedeados em Lisboa, Maputo (ex-Lourenço Marques), Huambo (ex-Nova Lisboa), Londres, Kew, Berlim, Paris, Bruxelas, Munique, Pretória, Salisbúria e outros.

Dos especimens colectados foram descobertas dezenas de espécies para a Ciência e uma espécie nova ficou com o seu apelido (Terminalis menezesii)

Entre os especimens colectados estão já descobertas dezenas de espécies novas para a Ciência ou para Angola. 

Jacob Azancot de Menezes descobriu e descreveu 4 (quatro) espécies novas para a Ciência: Kyllinga cardosi, Pycreus malangensis, Bolbostylis humpatensis e Ascolepis menonguensis, bem como 2 (duas) variedades (Bulbostylis oritrephes var.major e Ascolepis speciosa var.ochraceus).

Os botânicos E.J. Mendes e A.W. Excell, baptizaram com o seu apelido uma espécie nova Terminalis menezesii.  

Homenagem da Ordem dos Engenheiros de Angola

Diploma de mérito da Ordem dos Engenheiros
Diploma de mérito da Ordem dos Engenheiros

Medalha atribuída pela Ordem dos Engenheiros

Pela excelente qualidade e originalidade dos trabalhos publicados e pesquisas reconhecidas universalmente, tendo sido considerado um académico e cientista de elevado prestígio internacional, Óscar Jacob Azancot de Menezes foi homenageado no dia 7 de Dezembro de 2018, em Luanda, pela Ordem dos Engenheiros de Angola.

  1. “Classificação Sistemática das Plantas colectadas no Concelho de Loures” . (Relatório de Tirocínio do Curso de Engenheiro Agrónomo). I.S.A., Lisboa, 1950, (Cilclostilado, 22 páginas).
  2. “Estudo Geobotânico da Zona Ocidental do Concelho de Loures” (Relatório Final do Curso de Engenheiro Agrónomo). I.S.A., Lisboa, 1950, (Cilclostilado, 104 páginas).
  3. “Estudo Sistemático das Espécies de Género Dracaena do Ultramar Português” (Relatório de Estágio para a Especialidade de Engenheiro Agrónomo Colonial), Museu e Museu Agrícola do Ultramar, Lisboa, 1950, (Cilclostilado, 20 páginas).
  4. “Ciperáceas de Angola, existentes no Herbário do Jardim e Museu Agrícola do Ultramar”. Garcia da Orta (Lisboa) 4 (2), 239/264, 1956.
  5. “Ciperáceas da Guiné-Portuguesa, existentes no Herbário do Jardim e Museu Agrícola do Ultramar”. Garcia da Orta (Lisboa) 4 (4), 557/565, 1956.
  6. “Cultura e Beneficiamento do Sisal em Angola”. INSTITUTO DE INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA DE ANGOLA – I.I.C.A. (Luanda), 1963, 92 páginas.
  7. “Do Desenvolvimento e das Profissões Agrícolas”. BOL. CAM. MUN (Sá da Bandeira) 14,7/15, 1963.
  8. “Notas sobre a Cultura e o Beneficiamento do Sisal em Angola”, GAZETA AGRÍCOLA DE ANGOLA (Luanda) 10 (5): 205/210, 1965.
  9. “Notas sobre a Cultura e o Beneficiamento do Sisal em Angola”, GAZETA AGRÍCOLA DE ANGOLA (Luanda) 10 (6): 264/267, 1965.
  10. “ Notas sobre a Cultura e o Beneficiamento do Sisal em Angola”, GAZETA AGRÍCOLA DE ANGOLA (Luanda) 10 (8): 412/413, 1965.
  11. “Estudo Fitossociológico e Características das Pastagens da Região do Chitado”, BOL. INST. INV. CIENT. ANGOLA 2(2): 137/185, 1965.
  12. “Culturas Metropolitanas (IV ano)” ESCOLA DE REGENTES AGRÍCOLAS – E.R.A.T., – TCHIVINGUIRO, 1967, 232 páginas, Ciclostilado (Livro de Texto na E.R.A.T), 2 Edições.
  13. “Culturas Metropolitanas (V ano)” ESCOLA DE REGENTES AGRÍCOLAS – E.R.A.T., – TCHIVINGUIRO, 1967, 180 páginas, Ciclostilado (Livro de Texto na E.R.A.T), 2 Edições.
  14. “Agricultura Geral”  ESCOLA DE REGENTES AGRÍCOLAS –E.R.A.T., – TCHIVINGUIRO, 1967, 112 páginas, Ciclostilado (Livro de Texto na E.R.A.T).
  15. “Adaptação da Vegetação no Deserto de Moçâmedes”, APOSTOLADO, Número Comemorativo do XXXII Aniversário (Luanda), 1967.
  16. “Cartas da Vegetação das Zonas 2 e 4 do Plano de Ampliação do Cunene” (1 – Memória descritiva, 2 – Interesse Pastoril das Zonas). GABINETE DO PLANO DO CUNENE, (Sá da Bandeira), 1970, Ciclostilado.
  17. “Estudo Fito-Ecológico da Região do Mucope e Carta da Vegetação”. BOL. INST. INV. CIENT. ANGOLA (Luanda), 8 (2): 1/53, 1971 (Prémio COMANDANTE PEIXOTO CORREIA, da Fundação Cuca), 1970.
  18. “Carta da Vegetação da Zona Quiteve – Humbe. (1- Memória descritiva, 2 – Interesse Pastoril da Zona, 3 – Nomenclatura e Caracterísiticas das Espécies Vegetais citadas, 4 – Composição Química de Algumas Forragens”). GABINETE DO PLANO DO CUNENE, (Sá da Bandeira), 1971, Ciclostilado.

  • Durante os 6 anos de funções no Jardim e Museu Agrícola do Ultramar, realizou Estudos de Botânica Sistemática dirigidos para a Flora Africana, em especial da África Ocidental, tendo-se dedicado a Ensaios de Adaptação de Plantas Tropicais ao Clima Temperado.
  • Colaborou em vários Trabalhos de Investigação publicados por Técnicos do Jardim e Museu Agrícola do Ultramar (J.M.A.U.).
  • Orientou ou colaborou na orientação de vários estágios efectuados por tirocinantes dos cursos de Engenheiro Agrónomo, Engenheiro Sivicultor e Regente Agrícola realizados no Jardim e Museu Agrícola do Ultramar.
  • Ainda no Jardim e Museu Agrícola do Ultramar,colaborou na organização de várias Exposições Florísticas efectuadas na Tapada da Ajuda (Lisboa) e Palácio de Cristal (Porto), bem como na Exposição de Produtos Agrícolas do Ultramar, em 1951, no Jardim e Museu Agrícola do Ultramar.

  1. Nos meses de Setembro e Outubro de 1954, frequentou o Museum National d´Histoire Naturelle em Paris, e trabalhou, em Comissão de Serviço, em Botânica Sistemática.
  2. Em Outubro e Novembro de 1954 frequentou o Jardin Botanique de l’Etat em Bruxelas, também em Comissão de Serviço, trabalhando em Botânica Sistemática.
  3. De Outubro de 1966 a Fevereiro de 1967, frequentou o Centro Botânico da Junta de Investigação do Ultramar (Lisboa), onde procedeu a centenas de determinações específicas e a tipificação de material botânico, quer do INSTITUTO DE INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA DE ANGOLA (I.I.C.A.) quer do Centro de Botânica.
  4. De Setembro a Dezembro de 1968, estagiou, em Comissão de Serviço, a fim de se familiarizar com os novos métodos aplicados aos estudos de Ecologia, no CENTRE D’ETUDES PHYTOSOCIOLOGIQUES ET ÉCOLOGIQUES, em Montpellier.

Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante  subscrevendo a Newsletter do Jornal Tornado. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a nossa Newsletter. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

- Publicidade -

Outros artigos

- Publicidade -

Últimas notícias

Mais lidos

- Publicidade -