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João de Sousa

Domingo, Novembro 28, 2021

Por que ganhou. Ganhou por que?

Buscar entender os motivos da vitória de Jair Bolsonaro nas últimas eleições presidenciais é uma tarefa complexa e que exigirá tempo para que os múltiplos aspectos dessa batalha sejam conhecidos, analisados e compreendidos. Ouso tentar contribuir para esse processo.

A eleição de Bolsonaro para a presidência da República, em outubro último, foi uma enorme derrota estratégica para as forças democráticas, progressistas e socialistas de nosso país, e se insere dentro da ofensiva da direita, de natureza política e ideológica, que se desenvolve em escala mundial e que entre nós foi potenciada e politicamente deflagrada na esteira das manifestações de 2013. Significa também o fim do ciclo de avanços políticos, democráticos, econômicos e sociais que vivemos desde o fim da ditadura militar e da promulgação da Constituição de 1988.

Alcançar uma plena compreensão do significado e do potencial destrutivo dessa derrota do campo democrático, progressista e de esquerda exigirá estudo das condições socioeconômicas do país e de seu povo, observação da realidade cultural que nos envolve, da situação conceitual e prática dos partidos políticos atuantes no país, destacadamente os de esquerda, bem como de seus líderes, e uma boa dose de humildade para compreender como foi possível tão estrondosa derrota.

Chegar a conclusões as mais acertadas possíveis sobre essa derrota será a chave para retomarmos o caminho da luta em prol da continuidade da construção da nação brasileira, dentro da perspectiva de sermos um país soberano, desenvolvido, democrático, socialmente justo, pacífico e solidário.

O campo político, que vai do centro-democrático à esquerda, subestimou gravemente, nos anos recentes próximos às eleições de outubro, o avanço da direita: de natureza conservadora na ideologia, reacionário na política, nos costumes e culturalmente obscurantista. Não atentou para os sinais latentes de insatisfação em setores das classes médias que, culturalmente reacionárias, não viam com bons olhos a ascensão social que amplas camadas pobres tiveram durante os anos dos governos Lula e Dilma. Não ajuizou de forma adequada a profunda crise econômica que o país passou a viver a partir do segundo governo Dilma, além de ter sido incapaz de evitar que as consequências dessa crise, principalmente o desemprego, fossem atribuídas exclusivamente a incúria e corrupção do PT, de seus aliados próximos, e de seus governos.

Enquanto isso, as forças de oposição ao sistema de governo que se implantou com a posse de Lula em 2003, nas suas mais variadas vertentes – direita radical, direita “civilizada”, mercado, militares da reserva e ativa, setores da alta burocracia estatal, mídia monopolista etc. –, desenvolveram um trabalho de longo fôlego, realizado de forma metódica, e por que não dizer muito eficiente, por meio de uma operação articulada, que tinha por objetivo retirar do governo esse bloco de forças democrático-progressista que governava o país.

Tudo isso, apesar de aparentemente caótico e difuso, foi conduzido – é bom que se registre – por uma ação estimulada pelas elites econômicas e políticas, nacionais e estrangeiras, que agiu em cima de fatos concretos, e contou com a ação diligente de setores nacionais reacionários: do mercado; da grande imprensa monopolista; de parte da alta burocracia estatal, encastelada no MP (Federal e Estadual), na Magistratura, na Polícia Federal, entre outros.

Embora durante o desenrolar desse processo político tenha sido dada pouca credibilidade às possibilidades de Bolsonaro vir a se tornar, como se tornou, presidente eleito, uma série de acontecimentos políticos e extrapolíticos, relativamente próximos e durante a campanha eleitoral, contribuiu para a sua viabilização.

Uma data emblemática nesse processo é a das manifestações de junho de 2013. Desencadeadas a partir de uma pueril reivindicação sobre os preços das passagens de ônibus urbanos, assumiram uma dimensão desproporcional. Desenvolvendo-se de forma irregular, foram paulatinamente manipuladas por setores de direita, que as direcionaram contra o então governo Dilma que, atabalhoado, não soube reagir.

Aquelas manifestações, bem como o desenrolar da autointitulada operação Lava Jato, ensejaram a deflagração e o desenvolvimento de uma forte e sistemática campanha de desestabilização do governo Dilma, com expressivo apoio nas ruas, que culminou com a sua derrubada, por meio de um golpe jurídico-parlamentar, consumado com o impeachment em 2016.

A operação Lava Jato tem uma posição de destaque em todo esse processo. Com grande e sensacionalista cobertura da grande mídia, ela foi diligentemente conduzida pela 13ª Vara da Justiça Federal de Curitiba, Paraná, que – atuando de forma integrada com o MPF e com a Polícia Federal e interpretando de forma muito “criativa” o Código Penal e o Código de Processo Penal – desenvolveu e desenvolve uma campanha contra a corrupção. Mas, da forma como foi até aqui conduzida, instalou no país um clima contra política, políticos, partidos políticos e governos.

Esse contexto permitiu o surgimento de um quadro de insatisfação na sociedade, inicialmente difuso, que, adequadamente manipulado por setores de direita, criou a base subjetiva para o surgimento de um movimento político de direita, altamente organizado, baseado em forças reacionárias internas e estrangeiras, cujo objetivo maior era apear do governo o bloco de forças que governava o país desde 2003.

Durante todo o período, ocorrem vários eventos políticos, que fizeram parte do processo de desestabilização do governo Dilma e determinaram seu afastamento, e em certo sentido ajudaram a eleger Bolsonaro: a atuação agressiva da Lava Jato contra o PT, cujo exemplo maior foi a condução coercitiva de Lula ainda em 4 de março de 2016; os movimentos Não vai ter Copa e contra a realização das olímpiadas etc.

Nessas jornadas foi constatada de forma superficial a utilização das chamadas mídias sociais como um fator novo no processo de convocação de manifestações, sendo essa ferramenta fundamentalmente utilizada por forças de direita.

A reeleição de Dilma em 2014 foi muito disputada, e ganha no segundo turno de forma apertada. Isso ensejou que o candidato derrotado Aécio Neves e seu partido, o PSDB, movessem uma ação de impugnação das eleições, sob alegação de abuso de poder econômico e fraude nas urnas eletrônicas, que deu forte munição ao processo de desestabilização político em curso. Lembremo-nos do julgamento dessa ação durante meses no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com transmissão ao vivo e ampla cobertura negativa da grande mídia.

Não foi desprezível nesse processo a atuação de forças de centro-direita, que faziam parte do governo, como o então PMDB, que, tendo um de seus quadros na vice-presidência, Michel Temer, manobraram, na onda de insatisfação com o governo, para acelerar sua queda, assumir o governo e, com base em um programa de cunho liberal – lembram-se do Ponte Para o Futuro, o pró-mercado? –, retomar o controle do Estado e, segundo eles, pacificar o país.

Após o golpe parlamentar que retirou Dilma do governo, as forças de centro-direita e da direita civilizada puseram em execução seu plano de continuidade no poder central da República por um largo período. Temer tinha o papel de realizar uma série de reformas econômicas e políticas que criassem as condições para que um futuro governo, legitimado pelo voto (quem sabe, a reeleição do próprio, ou de Aécio ou Alckmin), continuasse esse projeto. Ocorre que uma variável, fora do controle das forças desse centro-direita civilizado, frustrou esses planos, quando, dentro do escopo da operação Lava Jato, foram divulgados pelo Procurador-Geral da República áudios e vídeos que incriminavam diretamente Michel Temer, então presidente da República, em transações supostamente ilícitas com o empresário Joesley Batista. Acusações que atingiram o PMDB, e altas lideranças do PSDB.

Na sequência os dois pedidos feitos ao congresso pela PGR e o MPF, para processar o presidente da República, fizeram-no se concentrar na defesa de seu mandato, de modo a evitar a autorização do legislativo para a abertura do processo. Nesse movimento político, Temer desgastou-se profundamente, e seu governo se inviabilizou. O seu partido, MDB, tornou-se uma legenda sem força para a disputa presidencial e o PSDB, que também pleiteava ser uma alternativa de centro-direita à sucessão, viu seu principal nome para essa disputa, Aécio Neves, também se inviabilizar a partir das denúncias acima referidas. Dessa maneira, o projeto sucessório de um dos setores dos golpistas tornou-se impossível, e a atividade política como um todo foi sendo mais e mais criminalizada, e caracterizada como uma atividade de corruptos e corruptores.

Na sociedade, o ambiente no entorno desses eventos políticos era de aprofundamento de insatisfação com a crise econômica, e a política de preços de combustíveis então implementada pela Petrobras serviu de rastilho para a deflagração de uma greve de caminhoneiros, que conflagrou o país e teve como alvos o governo Temer e a democracia. No desenrolar da greve, ela assumiu cada vez mais um tom de questionamento, de qualquer governo eleito, e pedia-se insistentemente “intervenção militar constitucional”, contra os “políticos corruptos”, adensando-se dessa maneira o clima de antipolítica existente e favorecendo a pregação que o candidato Bolsonaro realizava.

Enquanto isso, o campo de esquerda, tendo o PT como centro, se debatia com a complexa situação de ter sido apeado do governo por meio de um impeachment, e de ser denunciado como o centro de um gigantesco escândalo de corrupção que levou à cadeia seu principal líder, LULA. Além disso, a esquerda e a centro-esquerda foram incapazes de construir um amplo movimento político, como proposto pelo PCdoB, que aglutinasse amplas forças político-sociais em defesa da democracia, da soberania nacional, do desenvolvimento econômico socialmente justo e sustentável, em torno de uma candidatura única à presidência; tendo predominado objetivamente interesses partidários específicos e mesmo pessoais.

Diante do espaço político aberto por esse quadro, e do continuado e eficiente trabalho de propaganda, nos moldes mais sofisticados do que hoje se chama de Guerra Híbrida, realizado por forças interessadas em desestabilizar o sistema político como um todo, a candidatura Bolsonaro foi ganhando corpo, ampliando apoios com base num metódico e profissional trabalho nas “mídias sociais”, e se tornando uma alternativa para as forças de centro-direita, ainda que estas estranhassem seus posicionamentos e métodos.

Iniciou-se, no establishment, um processo de cooptação da candidatura. O mercado de capitais passa a apoiá-lo a partir da escolha do banqueiro e economista ultraliberal, Paulo Guedes, para cuidar do setor econômico de um eventual governo. Setores da burguesia industrial e comercial se tornam ativos participantes de sua campanha. O agronegócio, que já o apoiava de forma discreta, assume de vez a candidatura. O setor militar, que inicialmente se restringia ao apoio de alguns oficiais da reserva, passa a apoiá-lo, concordando inclusive com a indicação de um de seus mais importantes quadros, um general do Exército, quatro estrelas, recém-passado para a reserva, para o cargo de vice-presidente. Isso tudo levou a candidatura de Jair Bolsonaro a um status impensável poucos meses antes. Quando faltava um mês para as eleições, ocorreu contra ele um atentado, até hoje não suficientemente esclarecido, e que teve o efeito de transformá-lo em vítima, proporcionando-lhe excepcional exposição na grande mídia e fornecendo-lhe uma justificativa plausível para não participar de debates públicos com os demais candidatos. Com isso, sua candidatura assumiu a dianteira nas pesquisas e ele se tornou o favorito na disputa.

Simultaneamente, a campanha de Bolsonaro inspirava-se na utilização intensa das mídias sociais em campanhas eleitorais estrangeiras, como o plesbicito do Reino Unido acerca da continuidade ou não na União Europeia, ou a eleição de Trump nos Estados Unidos. Contando com sofisticada assessoria nesse campo, e possivelmente apoiado financeiramente por significativos recursos, pôde desenvolver uma verdadeira guerra de guerrilha de informação e contrainformação, utilizando a internet como ferramenta essencial e as plataformas You Tube, Instragan, Facebook, WhatsApp como instrumentos de comunicação direta com o eleitorado. Recursos técnicos modernos, que sem dúvida tiveram importante papel em sua vitória.

Mas o xis da questão é que a campanha conseguiu apresentar, e convencer a maioria do eleitorado, Bolsonaro como o único político capaz de tirar o Brasil da crise civilizacional, moral, ética, política, econômica e social que o país atravessa.

Esse complexo de fatores ideológicos, políticos, econômicos, organizacionais, morais etc. e o uso de modernos meios tecnológicos de comunicação estão, sem dúvida, em destaque entre as causas da vitória de Jair Bolsonaro para presidente da República nas eleições de outubro último.

 

Por Ronald Freitas, Jornalista, advogado e membro da Comissão Política Nacional do PCdoB  |  Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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