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João de Sousa

Segunda-feira, Setembro 20, 2021

Jihad na África Austral

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Prevê-se, ainda em Janeiro, uma nova cimeira da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral – organização regional que engloba dezasseis países da África Austral e que é dominada pela África do Sul e participada por Angola e Moçambique, (SADC, é o acrónimo da organização em língua inglesa) – para decidir sobre uma intervenção militar em Moçambique.

  1. Generalização da guerra

A intervenção militar tem como objectivo pôr cobro ao que é já considerada como a maior vaga de terrorismo na era pós-colonial desalojando o ‘Ansar al-Sunna’ de Mocimboa da Praia e das várias localidades onde se instalou principalmente em Cabo Delgado, mas também em Nampula ou no Niassa.

No momento em que escrevo nada está ainda decidido. No final de Novembro, uma cimeira da SADC reunida em Gaborone no Botswana decidiu lançar uma ‘iniciativa regional coordenada’ em Cabo Delgado, mas Moçambique, o principal país interessado, esteve apenas representado pelo seu Vice-Presidente. O Presidente moçambicano convidou a sua vizinha Tanzânia – que se fez representar pelo seu Vice-Presidente – e a troika de defesa e segurança da SADC (África do Sul, Botswana e Zimbabwe) para uma nova cimeira a 14 de Dezembro, cimeira que terá sido inconclusiva.

O Instituto para os Estudos de Segurança de Pretória – autor da maior parte da informação disponível sobre a Jihad em Moçambique – considera que as autoridades moçambicanas têm resistido ao envolvimento internacional no conflito, mas que a realidade no terreno está a obrigar as autoridades a aceitá-la.

A internacionalização e globalização da resistência à Jihad na África Austral corre o risco de seguir os passos da situação vivida no Sahel em que a guerra se tem arrastado sem conseguir conter a expansão do jihadismo, a tal ponto que os principais confrontos militares deixaram de ser os que opõe as forças de segurança ao jihadismo e passaram a ser os que opõem facções jihadistas, nomeadamente as alinhadas com a Al-Qaeda em conflito com as alinhadas com a sua cisão do Califado.

A África do Sul – principal motor da proposta intervenção militar – tem argumentado com a elevada presença de sul-africanos no campo das forças do ‘Ansar al-Sunna’ e da mais que provável perspectiva de ver Cabo Delgado transformar-se na base para a Jihad na África do Sul.

A eclosão da Jihad em Moçambique sucedeu-se a um movimento de doutrinação e à expansão militar do corredor leste do jihadismo a partir da Somália, que tinha atingido a vizinha Tanzânia já em 2005 e, desse ponto de vista, obedeceu aos padrões típicos da expansão jihadista. Como é timbre desses movimentos, há participantes de várias nacionalidades, sendo que a maior parte das forças que lançaram a guerra em 2017 eram originárias da Tanzânia, mas é provável que sejam hoje já autóctones.

 

  1. A compreensão do que está em jogo

O ‘Ansar-al-Sunna’ foi o nome da primeira organização jihadista de obediência sunita estabelecida por Teerão na sua fronteira curda com o Iraque e que viria a transformar-se na Al-Qaeda no Iraque e depois no Califado. Embora tenha sido criada em 2001 e tivesse então como principal alvo o regime de Sadam Hussein, o ‘Ansar-al-Sunna’ tornou-se célebre sob a liderança de Al-Zarkawi na guerra às forças norte-americanas.

Para a compreensão da Jihad lançada em Moçambique há naturalmente que equacionar uma multiplicidade de factores. O tráfico de droga é a forma predominante com que os vários movimentos jihadistas se têm financiado, e provavelmente o mesmo acontece neste caso. A exploração do gás natural pode ter também dado a sua contribuição, aqui não tanto pela perspectiva de ver o ‘Ansar al-Sunna’ a desenvolver a sua exploração (logisticamente o gás tem uma exploração muito mais complexa do que a do petróleo) mas provavelmente como forma de obstar a que o gás moçambicano possa fazer concorrência a outros estabelecidos no mercado. Aqui, a registar a coincidência de o Qatar ser simultaneamente um dos maiores financiadores mundiais do jihadismo e o maior exportador de gás natural líquido. A devastação das florestas e a exportação da madeira é outra das formas mais óbvias de financiar a guerra, sendo que neste particular será necessário ver quem vai proceder à compra dessa madeira.

O confronto étnico-religioso que domina a zona de conflito, nomeadamente a rivalidade Macua-Maconde, que já era um factor determinante nos tempos da guerra colonial, será também importante. A ausência de um Estado de direito, a corrupção e a violência gratuita por parte das forças moçambicanas são importantes, como importante é a ausência de perspectivas de desenvolvimento.

Aquilo em que tenho insistido nos últimos quinze anos, no entanto, é sobre a relevância capital da guerra das ideias (conceito definido por Walid Phares) e nesse contexto da lavagem ao cérebro jihadista que é condição necessária a toda a sequência da barbárie.

A esse título, sublinho de novo as lições a tirar de Angola, único grande país africano que foi até agora poupado à expansão do Jihadismo. Como sabemos, Angola não é um modelo de Estado de Direito e de boa gestão económica e financeira, não sendo deste ponto de vista, no entanto, um país com piores indicadores do que os da África sub-sahariana, e bem pelo contrário. Há uma coisa, no entanto, que Angola soube fazer com eficácia: conter a proliferação de centros de doutrinação fanática religiosa, nomeadamente centros islamistas.

É de resto este último facto que levou os centros de propaganda dominados pela influência jihadista a lançar uma impiedosa guerra de informação contra Angola que, a crer no que se lê, seria o pior dos países do mundo e responsável por quase tudo o que há de mau, incluindo a corrupção em Portugal.

 

  1. O desprezo pela vida dos africanos

Abordei aqui a 6 de Julho a total indiferença pelas milhares de vítimas do jihadismo em África demonstrada pela liderança dos movimentos que hipocraticamente se reclamam da defesa da vida dos africanos. Estes dedicam-se a derrubar estátuas e reescrever história do Ocidente por crimes, reais ou alegados, de séculos atrás, mas convidam como oradores nas suas manifestações contra a liberdade e a democracia, ideólogos do jihadismo, ideologia em nome da qual se assassina impunemente nos dias de hoje, e em cada vez maior dimensão, a população africana.





Pela minha parte acho naturalmente importante termos uma noção equilibrada da história e não fazer desta um instrumento de exaltação e propaganda, mas acho ainda mais importante não nos deixarmos ser instrumentalizados por estratégia de desinformação que nos querem pôr a fazer o inverso do que apregoam.

Se não podemos nem devemos esquecer a nossa realidade histórica nem pintar de cor-de-rosa o que frequentemente foi triste e indigno, convém naturalmente entender que foi o moderno movimento liberal e democrático que pôs fim a essas práticas entre nós, e que o inimigo confesso do jihadismo – como de resto de outras ideologias totalitárias – é precisamente esse legado de liberdade e democracia.

O que os ideólogos jihadistas pretendem com o derrube das estátuas e da história das democracias ocidentais não é condenar o racismo ou o esclavagismo, mas precisamente o inverso, condenar o movimento histórico que conduziu à liberdade e à democracia fazendo esquecer que o racismo e supremacismo – e sobretudo o desprezo pela vida dos africanos – é hoje praticada acima de tudo por eles.

Reconhecer que a vida dos africanos é importante faz-se combatendo todas as ideologias supremacistas, a começar pela mais espalhada e perigosa: o jihadismo.


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