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Quinta-feira, Janeiro 20, 2022

João Sabino de Matos

Helena Pato
Antifascistas da Resistência

(1923 – 2006)

Democrata, republicano e socialista, era uma pessoa de grande carácter, e frontalidade, com coragem física e moral, um homem que honrava a palavra dada. Valores a que juntou os ideais que o nortearam na vida: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Nasceu na aldeia da Cunheira (concelho de Chanca), a 1 de Julho de 1923, e foi o primeiro de 4 filhos de Manuel Sabino (pedreiro) e Antónia Maria (doméstica).

Determinado desde criança

A infância de João Sabino de Matos foi passada com bastantes dificuldades, agravadas quando entrou para a escola primária (situada a 8 Kms na vila de Chança), para onde diariamente tinha de ir a pé, apesar de ter um defeito físico numa perna. Mas era, desde criança, uma pessoa determinada e, assim, fez a 4ª classe da instrução primária.

A juventude também não foi fácil: uma vez que, terminada a escola, foi dar serventia de pedreiro ao pai, o que lhe era penoso. O pai mandou-o então aprender o ofício de alfaiate, profissão que na aldeia acumulava também com a de barbeiro.

Casou com 22 anos de idade, em Estremoz, com Selima Augusta Carmelo, telefonista de 22 anos, e passou a exercer a profissão de alfaiate. Pouco tempo depois foi pai de Hernâni Matos, teve a primeira oficina de alfaiate e começou a dar formação a alfaiates.

Mais tarde, algum tempo antes do 25 de Abril, abriu uma loja de pronto-a-vestir. Como alfaiate e como comerciante, foi uma pessoa sempre considerada pelos seus pares e respeitada na praça.

Actividade Política

João Sabino de Matos e João Soares num convívio socialista. Fotografia de autor desconhecido

Em 1958, com 35 anos, apoiou a candidatura do General Humberto Delgado a Presidente da República contra o candidato fascista da União Nacional, Almirante Américo Tomaz[1].

Em 1969, João Sabino de Matos integrou-se na Comissão Democrática Eleitoral (CDE), que concorreu às eleições legislativas contra o partido de Salazar, a União Nacional. .

Antes do 25 de Abril, comemorava-se o 5 de Outubro com uma romagem ao cemitério de Estremoz, que reunia velhos republicanos e João Sabino de Matos marcava presença, ao lado de outros como Cândido Ferrador, Saturnino Martins, Abílio Maleitas e Francisco Joaquim Baptista, mais conhecido por Chico das Metralhadoras. [«Iam com uma bandeira nacional à frente, já que não podiam levar outra e a bandeira nacional era e é a bandeira da República»]. Todos os anos no «5 de Outubro», celebrava a data num almoço com outros democratas. Fazia parte de várias tertúlias e era sócio da Sociedade de Artistas Estremocenses, a cuja Direcção pertenceu. .

5 de Outubro de 1962

Romagem de republicanos ao cemitério de Estremoz no dia 5 de Outubro de 1962

Aqui estão parados na Avenida de Santo António. Presentes entre outros, António Vão (estafeta), Xarepe (Máquinas Oliva), Saturnino Martins (Casa Verde), António Parelho (Brados do Alentejo), António Cândido (ferrador), Furtado da Loja, Francisco Gonçalves (Farmácia Godinho), Artur Assunção (Farmácia Costa), Abel Violante Augusto (moldurador) com a bandeira, Francisco Baptista (ferroviário), Machadinho (enfermeiro), Eduardo Movilha(carpinteiro) e Carmen Movilha (neta).

Cortesia de Carmem Movilha.

Durante a Ditadura, a oposição do Distrito reunia clandestinamente no monte do Dr. Afonso Costa e João Sabino de Matos era um dos conspiradores que viriam a ser da área socialista [ «mas outros havia da área comunista, tais como Abílio Fernandes, por quem JSM tinha muita consideração». (…) Em casa ouvíamos à socapa, notícias da BBC, da Rádio Moscovo e da Rádio Argel (…). Eram as rádios que furavam a censura das rádios nacionais» [*] ].

A revolução do 25 de ABRIL foi recebida com grande alegria e entusiasmo por João Sabino de Matos.

Após o 25 de Abril

1º de Maio de 1974, Estremoz

A secção do PS de Estremoz formou-se em Maio de 1974. Os primeiros militantes foram entre outros: Afonso Costa (farmacêutico), Fernando Cavaco (pintor), Irmãos Compõete (operários), Jaime Balão filho (professor), Jaime Balão pai (cabeleireiro), José Albino (tipógrafo), José Fateixa (comerciante), Manuel Godinho (comerciante) e Soeiro Travassos (médico).

João Sabino de Matos iria pertencer, desde a primeira hora, ao PS, estando na fundação do PS em Estremoz. Todavia, só regularia a sua inscrição em Setembro desse ano.

João Sabino de Matos tomando posse como membro da Assembleia Municipal de Estremoz (1994)

No 28 de Setembro de 1974 fizeram-se barragens na estrada nacional e à saída para Portalegre, visando impedir a “maioria silenciosa” de marchar armada sobre Lisboa [«Só deixando passar os veículos depois de passados a pente fino. O PS esteve ali, com o PCP e a CDE»].

Eleito em listas do PS, João Sabino de Matos foi Presidente da Junta de Freguesia de Santo André entre 1977 e 1979 e entre 1986 e 1989. Foi ainda membro eleito da Assembleia Municipal entre 1980 e 1982 e entre 1986 e 1989.

Integrou também a Comissão Administrativa do Hospital da Misericórdia.

«Em acções de agitação e propaganda chegaram a andar 12 pessoas no seu carro, algumas no porta-bagagens. Era um velho TAUNUS 17 M preto e com tejadilho branco, conhecido pelos socialistas como “carro fantasma”, o qual tinha uma direcção mais rígida que a dum tractor. Também ele, por direito próprio, faz parte da história do PS de Estremoz» [*].

Testemunho do filho, Hernâni Matos

Logo a seguir ao 25 de Abril reunimos numa casa da rua do Mau Foro, vulgo Rua Alexandre Herculano. Ali funcionaria mais tarde a primeira sede do PS. Tinha sido ali a sede do Círculo Cultural de Estremoz, associação cultural de antes de Abril, do tempo do Dr. Luís Pascoal Rosado e cuja história está ainda por fazer. Era uma casa, propriedade dos irmãos José e Afonso Costa. Ali se preparou o primeiro 1º de Maio e o meu pai lá estava. O camarada Binadade Velez, comunista da clandestinidade e que já estivera preso, levava uma lista de ruas com nomes ligados ao fascismo, que era preciso mudar. Alguns diziam que o Spínola, que como se veio a provar, nunca deixou de ser fascista, não autorizaria a comemoração do 1º de Maio, que acabava sempre à batatada, com a bófia a dar porrada nos trabalhadores. Outros, e neles nos incluíamos, eu e o meu pai, considerávamos que o 25 de Abril legitimaria as comemorações livres do 1º de Maio, o que veio a acontecer» [*].

[1] Era o delegado incumbido de ir vigiar as urnas em São Lourenço, freguesia que conhecia bem, mas acabou por não ir, visto que o advogado comunista e seu amigo, Dr. Rodrigues Pereira, que liderava a oposição local, lhe telefonou para casa, avisando-o de que fora informado que a PIDE estava lá, como nas outras freguesias, para prender os delegados da Oposição. (…) Foi com estas e com outras que apesar do entusiástico apoio popular ao General Sem Medo, ganhou o candidato fascista. Até mortos votaram com cumplicidade dos presidentes das mesas, afectos ao regime. Mesmo assim e com intimidação da PIDE, Delgado obteve 23% dos votos contra os 76,4% do Tomaz. A ditadura teve medo e a partir de 1959 e até ao 25 de Abril, a eleição do Presidente da República passou a ser feita pela Assembleia Nacional, onde só havia um partido único: a União Nacional» [*].

[*] Transcrições de um discurso/testemunho de Hernâni Matos, por ocasião do 40º Aniversário da Secção do PS de Estremoz, em que foram homenageados fundadores do PS local, entre os quais seu pai, João Sabino de Matos.

Dados biográficos:

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