Diário
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Independente
João de Sousa

Domingo, Outubro 24, 2021

Jorge Tavares da Silva

Helena Pato
Antifascistas da Resistência

(1945 – 2016)

Cidadão antifascista, militava contra a ditadura num movimento radical de extrema esquerda, quando foi preso pela PIDE. Foi julgado, cumpriu na Cadeia /Forte de Peniche a pena a que foi condenado e, recusando-se a fazer a guerra colonial, desertou da tropa em Penamacor. Viveu exilado na Bélgica até 1974. Quando estalou a Revolução de Abril, Jorge Tavares da Silva rejubilou, mas optou por ficar em Bruxelas, onde construíra família e desenvolvia uma actividade profissional. Rebeldia, cidadania, solidariedade e humor são os atributos com que os amigos de sempre mais o distinguem.

Cidadão antifascista

Jorge Tavares da Silva nasceu na Amadora, a 19 de Junho de 1945, e frequentou o colégio Valsassina, em Lisboa. Tinha nascido numa família burguesa e endinheirada, mas cedo escolheu o lado dos oprimidos e começou a militar na oposição contra o fascismo. Pertencia à FAP quando, em 1965, foi preso depois de alguns anos de lutas. Esteve nos sinistros “curros” da cadeia do Aljube e, julgado em tribunal plenário, foi condenado a cerca de um ano e meio de prisão.

Terminada a pena em Peniche, foi enviado para Penamacor, onde ficou nove meses numa Companhia disciplinar para cumprir o serviço militar[1]. Em Outubro de 1967 conseguiu desertar e, aos 22 anos, deixando dolorosamente para trás a família e muitos amigos, Tavares da Silva chegou a Bruxelas, em Novembro, após uma rocambolesca viagem a salto. A Bélgica tinha sido uma escolha deliberada e consciente, por tudo o que sabia do acolhimento dos belgas, do reconhecimento do estatuto de refugiado político e também da presença naquele país de diversos movimentos e personalidades progressistas, internacionalmente reconhecidos[2]. Pediu a protecção do Estado belga e da ONU e adquiriu o estatuto de refugiado. Em 1969 casou com uma portuguesa, a activista Miracel (Mira) Lacerda, com quem esteve casado três anos, e que iria ser sua grande amiga no exílio. Depois, casou-se com Corinne Assatouroff, uma belga de origem russa, actualmente directora do Museu da Cidade de Bruxelas, com quem viveu até falecer e de quem teve dois filhos: Leonor e Rafael.

Optou por ficar em Bruxelas

Foi em Bruxelas que, depois dos anos de exílio, quis ficar a viver para sempre. Na verdade, após a Revolução de Abril, Jorge Tavares da Silva readquiriu os seus direitos e a sua documentação de português, mas optou por continuar na Bélgica. Linguista de formação, dominava fluentemente (além da língua materna) sete línguas, entre as quais o árabe. Em 1974, JTS trabalhara em diversos sectores, nomeadamente em arquitectura de interiores e como tradutor das maiores empresas de tradução belgas, mas tinha actividade profissional no Departamento de Tradução da então CEE (hoje UE).

Anos depois, em 1992, integrou o Departamento de Tradução no Secretariado Geral do Conselho da União Europeia (SCUE), e em 2002 foi nomeado chefe do serviço Publicações e Documentação da Instituição, assumindo as funções editoriais do SCUE. Fez parte, nessa condição, do comité editorial da edição de um livro sobre a História da Europa (ed. não comercial 2006), dirigindo a pesquisa iconográfica e o processo editorial. Na edição comercial desse livro voltou a ter as mesmas responsabilidades.

Em 2006/2007 foi encarregado de organizar a exposição «e la nave va», para a comemoração do 50º aniversário da assinatura dos «Tratados de Roma», na sede do Conselho da EU em Bruxelas.

Paralelamente à sua carreira profissional, Jorge Tavares da Silva desenvolveu actividades de escrita e como conferencista (nas diversas línguas que dominava), muito especialmente em assuntos da sua predilecção, tais como história da cozinha e da alimentação, as ligações entre a Bélgica e Portugal, a Europa, o mar e a navegação antiga. Publicou diversos livros e artigos[3]. .

Rebeldia, cidadania, solidariedade e humor

Com o passar dos anos, Tavares da Silva começou a vir com regularidade de Bruxelas a Lisboa e acabou por comprar uma quinta no Algarve num local “belo e selvagem”, que fez lugar de férias e reforma. Tornou-se gastrónomo exigente e conhecedor, e publicou o primeiro livro de Cozinha Portuguesa, com tradução francesa.

Reformou-se, por limite de idade, em Junho de 2010. Depois dedicou parte da sua vida a viajar em Portugal e, fascinado pelo Buçaco, escreveu um livro de viagens.

Com mais tempo livre depois de reformado, dedicou-se à história das relações luso-britânicas nos séculos passados, mas manteve-se sempre presente na acção política da actualidade. Assim foi em 2016, quando participou, com o historiador António Borges Coelho, nas «Conversas do Aljube», para falar de Peniche e das condições prisionais que ambos aí sofreram.

Quando morreu trabalhava num projecto pessoal que acalentava: em Novembro de 2017, por ocasião dos 50 anos da sua chegada à Bélgica, queria reunir o maior número possível de refugiados de origem portuguesa.

Vivia rodeado de amigos, que lhe apreciavam as qualidades humanas e a boa disposição. “Homem de bem com a vida, amante de bons convívios com os amigos e sempre pronto para gestos solidários”, Jorge Tavares da Silva era um contador de histórias, dotado de um humor vivo (que o caracterizava). No exílio belga ele era uma excepção de boa disposição e irreverência[4]. Os seus amigos são unânimes em lembrá-lo como alguém com quem era muito agradável conviver, “um homem que estava de bem consigo, com o seu passado, com a sua família, mulher, filhos e netos, com os seus inúmeros amigos, e que vivia sempre cheio de projectos”; “um espírito iconoclasta com um olhar lúcido e atento ao mundo, que ele analisava sem preconceitos”.

Jorge Tavares da Silva ficou enterrado na Bélgica. Foi incinerado no crematório de Uccle e as sua cinzas foram espalhadas nos jardins do crematório.

[1] A 1ª Companhia Disciplinar de Penamacor foi exclusiva e deliberadamente criada para travar o ímpeto revolucionário de jovens em idade militar opositores ao regime vigente. A redacção do decreto que a oficializa explicita que “o Ministro da Guerra poderá mandar incorporar directamente nas companhias disciplinares todos os mancebos de que tenha notícia professarem ideias contrárias à existência e segurança da Pátria e à ordem social estabelecida pela Constituição Política”. A ideia de reunir no mesmo estabelecimento presos de delito comum e contestatários politico-ideológicos não deixa de configurar um tipo perverso de associação que tende a camuflar uma realidade já de si pouco perceptível aos olhos da população local, maioritariamente analfabeta e politicamente pouco ou nada esclarecida. Deste modo se formou no senso comum a imagem do “corrécio”, magala indisciplinado, como “inquilino” natural exclusivo do quartel de Penamacor. Hoje vem já sendo conhecidos diversos casos de passagem pela 1ª Companhia Disciplinar (destacadas personalidades da esfera pública da nossa vida recente).

[2] Excerto de um texto de Jorge Tavares da Silva destinado a um livro que pretendia publicar:

La Belgique était un choix délibéré, en pleine connaissance de cause. L’accueil, la reconnaissance du statut de réfugié politique, mais aussi la présence de plusieurs mouvements et personnalités progressistes reconnus internationalement, notamment Roger Lallemand et Marc De Kock, pour leur rôle dans le cas Régis Debray (…) La Belgique ne m’était pas étrangère. En 1958 j’étais venu pour l’Expo : l’Atomium, la Flèche du Génie Civil, la Grand Place d’Anvers, le Brabo… et bien sûr, Jacques Brel.

Arriver à Bruxelles et ressentir La Liberté fut une sensation enivrante. La RTB, et ses journaux parlés d’une qualité et d’un cosmopolitisme impressionnants, l’ULB et le franc penser…, l’accueil des Belges, découvrant ces quelques Portugais – exotiques à l’époque pour eux – intellectuels penchant très à gauche, athées et anticléricaux, parlant et buvant Rouge. Nous avons été acceptés, pensions nous pour ce nous croyions être. En fait, acceptés tout court sans aucune arrière pensée. Découvrir le dialogue politique public, le respect des opinions de l’autre, la facilité de communiquer : des concepts que nous avions à Lisbonne, sans avoir pu les mettre en œuvre. Ici, la Presse, la Culture, la Liberté d’expression existaient vraiment dans la réalité des années soixante. Et les filles étaient si belles… Mai 68 est venu après. »

[3]

Publicações:

Textes en français et en portugais, accompagnés d’une nomenclature (FR/PT/LAT) de 160 entrées. Conférence à l’école de traduction Marie Haps à Bruxelles, en 1988; La Cuisine Portugaise de Tradition Populaire. Editions du Guide des Connaisseurs, 1991, Rhode-Saint-Genèse. Cuisine et considérations socioculinaires. Distinguido com um prémio da Confraria gastronómica « A Panela ao lume », como sendo o melhor livro de cozinha portuguesa em 1992; Bussaco – Palace Hôtel, Editions Antonio Nardone, 1997, Bruxelles; Histoire d’un monument national portugais, de son environnement et de son exploitation hôtelière. Du couvent du XVIIe à la fin du XXe; La Cuisine Portugaise de Tradition Populaire. Editions du Guide des Connaisseurs, 1998, Rhode-Saint-Genèse (2ª edição); Catarina de Bragança, The tea drinking Queen?; Le thé aux Açores; Deux textes du catalogue de l’exposition Tea for two à la Galerie du Crédit Communal, Passage 44. Edition Crédit Communal / La Renaissance du Livre. Bruxelles, 2000; De Rome à Lisbonne, la cuisine comme véhicule culturel

Textos de conferências:

2000 – Salle Damião de Goes, Ambassade du Portugal à Bruxelles; 2001 – Centre Culturel d’Amay; 2002 – Instituto Camões, Consulat du Portugal au Luxembourg; Bussaco – Palace Hôtel, Editions Antonio Nardone, 2002, Bruxelles; O Garfo e a Caneta, Titre de la chronique mensuelle du journal régional portugais « Maré Alta/Costa a Costa » en Algarve, depuis 2001. Considérations sur la cuisine et ses racines religieuses, politiques et sociales; La morue au Portugal à la table du Tiers-État, Communication au colloque: « Les nourritures de la mer, de la criée à l’assiette ». Colloque interdisciplinaire organisé sur l’île de Tatihou, Normandie, du 2 au 4 octobre 2003. C.R.H.Q. – Université de Caen, Musée Maritime de l’île de Tatihou , Société Française d’Histoire Maritime et autres Institutions. . L’identitá portoghese del baccalà, communication en italien au Centre Interinstitutionnel de l’Union européenne d’Ispra, Italie, en décembre 2007, dans le cadre des commémorations de la fin de la Présidence portugaise du Conseil de l’Union européenne; Cataplana: un ustensile de cuisine portugaise traditionnel? Communication lors de la rencontre du 7 janvier 2011, de l’ l’association « De Honesta Voluptate (Société des Amis de Jean-Louis Flandrin) », Institut national d’histoire de l’art, à Paris. Les recettes des Jeannette Davery – Pourquoi Pas? 1965-1988. Art et Éditions, 2012, Bruxelles. 234pp., il.

Comunicações na qualidade de:

Membre de l’association « De Honesta Voluptate (Société des Amis de Jean-Louis Flandrin)» à Paris, depuis 2002. (várias). Membre de l’association portugaise d’histoire de la cuisine et de l’alimentation «A Idade dos sabores», à Lisbonne, depuis 2005. Membre de l’association française « Mémoire et patrimoine des Terre-neuvas » à Saint Malo, depuis 2008.

Plusieurs articles publiés en français et en portugais, dans les domaines susmentionnés.

Linkebeek, février 2012.

[4] São muito engraçadas as histórias que ele contava de Penamacor, com relatos de imenso humor, em que a população heterogénea que compunha a colónia penal era descrita de forma muito viva – histórias tendo como protagonistas os instruendos pilha galinhas, depravados sexuais, juntamente com os políticos. A instrução militar era nula e o Jorge TS chegava no seu super carro, era recebido com a maior das deferências e havia continências mais agitadas que ao coronel. Tudo, relatado pelo Jorge, parecia um filme cómico, do Buster Keaton…»


Biografia da autoria de Helena Pato, com colaboração de sua mulher, Corinne Assatouroff, e de três dos ex-exilados em Bruxelas, seus companheiros: Mira Lacerda, António Melo e Helena Cabeçadas].

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