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Terça-feira, Outubro 26, 2021

Ler as Memórias de Churchill e outros tijolos

José Carlos S. de Almeida
Professor de Filosofia do ensino secundário. Licenciado em Filosofia e em Direito.

Sempre entendi que, dadas as características do nosso tempo que determinam um viver a grande velocidade[1], de tal modo que não conseguimos acompanhar esse novo ritmo, tese defendida em 1970 pelo pensador norte-americano Alvin Tofler (1928-2016) em O Choque do Futuro, já não vivemos o tempo do grande romance realista. Isto é, o tempo livre de que dispomos, bem como a nossa disposição anímica para ler grandes romances, condicionam de tal modo a nossa maneira de ler que dificilmente nos conseguimos enquadrar no horizonte de recepção dos romances realistas de finais do século XIX, Com efeito, será com alguma dificuldade que os nossos jovens adolescentes “suportarão”, por exemplo, a demorada descrição ao longo de meia centena de páginas na edição de Os Maias da editora Livros do Brasil, do Ramalhete, o severo casarão que a família dos Maias passou a habitar em Lisboa, a partir do outono de 1875. Precisamos do tempo que teria uma ousada quanto pálida jovem mulher oriunda da burguesia urbana, no remanso da sua casa apalaçada, atentamente assistida por uma criada trigueira vinda da província. Precisamos desse tempo que (já) não possuímos. Não temos esse tempo, não somos desse tempo. Talvez nas férias os vá ler, pensava eu diante dos livros mais volumosos e que, carinhosamente, apelidamos de tijolos!

Um desses tijolos eram as Memórias da Segunda Guerra Mundial de Winston S. Churchill que possuo numa edição brasileira da Editora Nova Fronteira. Edição que condensa as originais Memoirs of the Second World War que foram publicadas em 1948 e que valeram a Churchill, segundo o editor norte-americano, a atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Contudo, o tijolo adormecido na minha biblioteca possui umas belas 1200 (mil e duzentas) páginas e condensam os seis volumes que constituíam a edição original!

Mas sobre a dimensão da obra ainda não foi tudo dito. Nesta versão condensada surge-nos o excerto do prefácio onde confessava que aqueles seis volumes deviam ser considerados como “a continuação da narrativa da Primeira Guerra Mundial” e que assim abrangiam “uma exposição de outra Guerra dos Trinta Anos”. A extraordinária dimensão das Memórias de Sir Winston Churchill levar-nos-ia, num primeiro relance, a julgar que Churchill apenas escrevia e assim ocupava todo o seu tempo. Mas não, como poucos saberão. De facto, Churchill foi um grande político, de extraordinária combatividade na oposição ou no governo, onde foi ministro e primeiro-ministro, intervindo activamente nas duas guerras mundiais que ocorreram na primeira metade do século passado. Só que, além disso, também pintava, a óleo e aguarelas, completando mais de quinhentas telas, o que lhe valeu o direito a uma exposição individual na Diploma Gallery da Royal Academy, em 1959.

Como explicar tamanha produção? O seu estranhíssimo horário[2] não explica tudo. E se o segredo está nas mil e duzentas páginas do tal tijolo adormecido, não será descoberto nas próximas férias dos próximos anos, pois já tenho previstos e agendados outros tijolos.

Anotem-se alguns. A biografia de Mao, escrita por Jung Chang e Jon Halliday (Mao, Bertrand Editora, 855 pp.)[3] e a biografia de Hitler, de Ian Kershaw (Hitler, Publicações Dom Quixote, 849 pp.). Do fundamental Tony Judt, o seu Pós-Guerra – história da Europa desde 1945 (Ed. 70, 963 pp.), essencial para se compreender a outra Europa, a leste. Ainda no campo do ensaio, está na lista o importante estudo de Christopher Andrew e Vasili MItrokhine sobre as actividades do KGB na Europa e no Ocidente, O Arquivo Mitrokhine, com prefácio de José Pacheco Pereira (Publicações Dom Quixote, 972 pp.). A lista continua, pois no campo da ficção é ainda mais numerosa. Menciono apenas alguns. De Thomas Mann, A Montanha Mágica (Publicações Dom Quixote, 832 pp.); do escritor norte-americano John Frenzen, que esteve recentemente entre nós, o seu romance Liberdade (Publicações Dom Quixote, 684 pp.) e o romance 2666 do chileno precocemente desaparecido Roberto Bolaño (Quetzal Editora, 1030 pp.).

E ficamos por aqui. A lista dos tijolos em fila de espera continua e só o seu registo parcial é angustiante. Se, inesperadamente, falecer entretanto, reclamo a reencarnação só para os poder ler. A reforma antecipada não me parece suficiente.

[1] Cf. Jean-Marc Salmon, Um Mundo a Grande Velocidade – a globalização, manual de instruções, Porto, Ambar, 2002, 220 pp.
[2] Sestas de várias horas, enfiando-se na cama a seguir ao almoço, de pijama vestido, e que lhe permitiam, depois, trabalhar toda a noite!
[3] Não esquecendo da mesma Jung Chang, o seu Cisnes Selvagens, eternamente recomeçado.

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