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Sábado, Novembro 27, 2021

Libelo contra a petição a favor de sindicatos abutres e de greves neoliberais

Carlos de Matos Gomes
Militar, investigador de história contemporânea, escritor com o pseudónimo Carlos Vale Ferraz

Corre nas redes sociais uma petição em que um grupo de cidadãos apela ao governo para que faça cessar a “requisição civil e a requisição militar efetivamente em curso” na greve dos motoristas, por considerar ser “um ataque frontal ao direito à greve”.

Julgava eu que seria assinado por intelectuais como o orador do último 10 de Junho, o director do Observador, a doutora Bonifácio, mas não. O barrete é assumido por pessoas que nunca julguei ver associadas a estas mistificações grosseiras, cuja figura de proa é um tal Pardal Henriques, de que ninguém nas lutas políticas, sociais e sindicais ouvira falar e de que se foi sabendo um passado pouco recomendável, para ser simpático. A quem, na célebre frase dirigida a Nixon, ninguém compraria um carro em segunda mão. Compram-lhe uma greve!

A petição é um manifesto mistificador. Uma beberragem que me recuso engolir.

Um dos mais antigos e primários processos de manipulação e mobilização de massas é a mistificação. Uma palavra que tem como sinónimos logro, burla, dolo, engano, ilusão. A mistificação começa habitualmente pela apresentação de um título respeitável. Um caso exemplar, uma prostituta apresentar-se como madame, ou terapeuta especialista em massagens orientais. Ludwig Wittgenstein no seu Tratactus Logico-Philosophicus (trad. de M. S. Lourenço, Gulbenkian) aborda a mistificação linguística que ele mesmo criou. Se introduzirmos clareza e honestidade na expressão, desaparecem estas fantasias porque desaparecem as palavras e expressões moribundas que dão a aparência de haver pensamento quando não há pensamento algum. Mal nos perguntamos claramente o que realmente se quer dizer com tais coisas, ficamos reduzidos ao silêncio de Crátilo.”

O que está em causa nesta petição é, em primeiro lugar, a maneira subtil – mistificadora – de nos levar a pensar num certo ponto de vista e não noutro. A mistificação linguística é uma maneira subtil de nos impedir de pensar quando pensar nos pode levar a contrariar os nossos desejos, mesmo os mais infantis, as nossas crenças, mesmo as mais ingénuas, os nossos preconceitos mais arreigados. Isto é, quando pensar destrói o mundo virtual que criámos, a por em causa a fé nos mandamentos que nos garantiram serem os justos e que nos levarão aos céus, neste caso ao paraíso dos trabalhadores do doutor Pardal Henriques e de quem está por detrás dele. (Eu assinava uma petição para esclarecer esse ponto).

Em que mistificações de linguagem  assenta a petição?

A primeira, a de a organização de motoristas oficialmente criada pelo advogado e antigo empresário da consultoria de serviços e de saúde e do seu cunhado, antigo empresário de transportes ser classificada e publicitada como um sindicato, para além do aspecto formal de ser legalmente um sindicato. E sabe-se, (os peticionários passam ao lado da questão) a diferença de forma e essência – um ato pode ser legal e ser imoral – o caso da pena de morte é clássico. Ora este dito sindicato é mistificador no nome, desde logo no de sindicato e depois de “matérias perigosas”. Trata-se de transporte de combustíveis. Um transporte tão ou menos perigoso que tantos outros, como de gases liquefeitos, de ácidos e produtos químicos, de explosivos, por exemplo. Tratar esta organização como um sindicato é atribuir-lhe uma dignidade que ela não merece. Que ela ofende.

Os promotores do sindicato e os peticionários acompanham-nos na mistificação quanto ao título e alguns alucinados até escreveram que os pobres motoristas andam por aí com uma bomba às costas e por isso merecem ganhar muito mais. Seriam Kamikazes e não motoristas. E deveriam pedir o aumento da pensão por morte prematura e não de salário. Não se trata, pois, de um sindicato, mas de uma confraria do tipo mafioso dirigida por personagens sem passado de defesa de valores que não sejam os materiais, com um passado que levanta suspeitas de honestidade investigadas pelo MP e pela Ordem dos Advogados.

A segunda mistificação é a de aceitar o qualificativo de greve para esta acção do dito sindicato que de motoristas de combustíveis se crismou de matérias perigosas. É evidente que formalmente é uma greve. Mas isso até o é, ou foi, a recusa das mulheres gregas a terem relações sexuais enquanto durasse a guerra, retratada na comédia Lisistrata (a greve do balaio fechado, na feliz designação de Jorge Amado em Tieta do Agreste).

A acusação de mistificação do qualificativo de greve para esta acção assenta no facto de ela obedecer a uma finalidade muito distinta daquela que justifica a greve: uma acção de assalariados contra patrões por melhores condições de trabalho e mais justa repartição de riqueza. Ora esta dita greve é uma acção de um pequeno grupo que detém o poder de manipular os combustíveis, o produto chave de uma economia e de uma sociedade baseada na energia por eles produzida, na troca de mercadorias e na mobilidade das pessoas. Uma greve não pode ter por finalidade por em causa a sobrevivência de uma comunidade e o seu modo de existir, o seu modelo. Ou tem? Os peticionários podem, como eu, não ser uns fervorosos fãs deste modelo de sociedade, mas ele foi e é o que a maioria dos nossos concidadãos quis e eu, ao contrário dos peticionários, não acredito que o advogado Pardal Henriques e o cunhado acólito sejam os primeiros ou os últimos dos revolucionários em luta contra o capitalismo! Ou acreditam? Quem acredita na bondade da greve deste sindicato acredita na heroicidade revolucionárias destas duas sombrias figuras. Erigidas até como defensores da democracia!

Na realidade esta dita greve é um acto de desestabilização política inserida num movimento muito mais vasto que percorre a Europa, as Américas e parece que se estende já a Hong Kong. Talvez os peticionários – pelo menos os que lêem inglês – pudessem traduzir o livro «Trucking Country»  (O País dos camiões) de Shane Hamilton, professor de História da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos.

Algumas notas que julgo merecerem reflexão antes de aceitarem a mistificação da petição e da dupla Pardal Henriques e cunhado sobre a dita greve dos motoristas de matérias perigosas:

É confuso e contraditório universo ideológico que se forma nesse meio de centenas de milhares de operadores (motoristas assalariados, motoristas patrões) estratégicos para as veias do pais. Por um lado, um componente “populista”, meio de esquerda – a critica dos tubarões, dos monopólios e dos banqueiros agiotas. Por outro, um individualismo exacerbado. Um conjunto de impressões e sentimentos suficientemente confusos para serem vulneráveis às propostas de demagogos bem equipados e financiados.”   Veja-se o apoio da comunicação social e a logística de que dispõem os ditos dirigentes sindicais.

O fenómeno das lutas destes grupos é ainda mais interessante se pensarmos que essa situação se aplica a universo muito maior da nossa sociedade “pós-industrial” e de serviços. Uma base social geradora de sentimentos anarco-capitalistas em ebulição. Corações esperando vozes comando. E é aí que mora o perigo…”

Em suma, esta acção mistificadoramente classificada como greve e do dito sindicato de matérias perigosas, que exclui explosivos e produtos químicos, por exemplo, pode ser e julgo que é um bom laboratório para perceber os efeitos arrasadores da desregulamentação, do livre-mercado delirante e mistificador da administração Trump, e da “uberização” das relações de trabalho. Em especial, o efeito psicossocial mencionado nos dois últimos parágrafos nos deveria fazer pensar na disputa política e ideológica de novo tipo, que se revela entre os motoristas, mas, também, em toda essa massa enorme que constitui a “nova classe trabalhadora” mistificada sob a forma do empreendedorismo e do Eu & Mim Sociedade Limitada.





Este dito sindicato surge no contexto do domínio ideológico do neoliberalismo, da pulverização social, do egoísmo, da lei do mais forte e a sua dita luta, a greve, é uma ação claramente determinada pelos princípios de Friedrich Hayek, da Escola Austríaca, e Milton Friedman, da Escola de Chicago, do cada um trata de si, da ausência de solidariedade, da desestabilização, da destruição de instrumentos de regulação que defenda e proteja os grupos sociais mais frágeis, que tão bons resultados deram no Chile e depois com a globalização selvagem em que vivemos.

A petição que foi lançada a favor deste grupo dirigido pelo doutor Pardal Henriques e da sua acção é, gostem ou não os peticionários, contra uma democracia baseada na justiça social. Entristece-me ver amigos e pessoas que respeito envolvidos nesta perigosa mistificação. O Steve Bannon deve estar a rir-se a bandeiras despregadas.

Se Paris vale bem uma missa, como afirmou rei Henrique IV de França, o sindicato do doutor Pardal Henriques não merece a defesa da sua greve por parte de pessoas bem formadas e com responsabilidades académicas e políticas.


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