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Sábado, Outubro 16, 2021

Eles não falam inglês, but

Christiane Brito, em São Paulo
Jornalista, escritora e eterna militante pelos direitos humanos; criou a “Biografia do Idoso” contra o ageísmo.  É adepta do Hip-Hop (Rap) como legítima e uma das mais belas expressões culturais da resistência dos povos.

Em tempos de Watson, plataforma de inteligência artificial que lê “800 milhões de palavras por segundo, com perfeita compreensão de contexto, sintaxe e o vocabulário de indústrias”, é mais do que prazer escutar a língua livre.

Explico melhor: a língua livre é a que predomina nas ruas, representa o idioma mais falado no mundo. Tem tantos sotaques quanto sabores e interatividade na veia.

Não estou renegando a minha profissão, o jornalismo, mas regras de gramática como a que não incorporou (ou incorporou tardiamente) a palavra “pizza” ao dicionário do português do Brasil e exige que um aluno de vestibular escreva “muçarela” em vez de mussarela, grafia aceita na maioria das pizzarias.

Acho maravilhoso o ecletismo espiritual (não é preciso ter erudição verbal para saber das coisas) que permite ao leitor compreender desde um Guimarães Rosa a um Machado de Assis. Os dois autores falam a mesma língua e nem parece, regalam-se na liberdade de transgredir a escola do próprio tempo rumo à eternidade literária.

Narram o drama humano segundo a percepção do coração e da alma. Não são guardiões de regras ou nunca se consagrariam na galeria dos escritores mundialmente reconhecidos.

Pois que literatura, a meu ver, é um portal de passagem para a verdadeira união e igualdade entre os povos, é o antídoto contra a torre de Babel que a política, na prática, ergue e reergue, consecutivamente, ad nauseam.

Essa impermanente torre é a que rejeita o linguajar do Hip-Hop ou do Rap –  para dar um exemplo -, por julgar que os seus escritores e poetas são iletrados. Pois me digam onde falta letra nos versos a seguir:

Eu limo arestas nestas palavras funestas
Lágrimas e luto, não há festa nesta escrita”

Língua franca

O sentimento de sobra de Valete, nos versos acima, juntou-o a Capicua que se juntou a Emicida que se juntou a Rael. Do encontro dos quatro rappers surgiu o CD Língua franca.

Capicia é a única mulher, a única branca do grupo, uma socióloga portuguesa que foi dar no Rap e acha que o gênero dá voz e megafone às lutas do povo.

De fato, as músicas de Língua franca condenam a intolerância e a passividade do mundo atual. São a mais legítima expressão da resistência ao fascismo que se anuncia.

Tomara dessa nuvem que ora cruza as fronteiras não caia pingo de chuva.

Desde que me envolvi com os saraus e autores da periferia de Sampa, depois com os jornalistas lusófonos do Tornado (portugueses, moçambicanos, angolanos, timorenses – nem sei como nomear os nascidos em Timor-Leste, etc), não sei mais como se escreve no português do Brasil segundo a Academia Brasileira de Letras.

Estou confusa, gramaticalmente, mas ideologicamente sei o que quero e é o que sempre quis: liberdade.

Soy libre e caliente, por isso me ressinto com os mornos.

Todavia amaino meu fogo porque não quero queimar na fogueira das inquisições.

Sei que, feita cinzas, não terei utilidade para as causas humanitárias, nem colo para os amados que embalo. E jamais voltaria a escrever de qualquer jeito como é meu jeito apressado.

O CD, lançado em 26 de maio, tem a apresentação entusiasmada do brasileiro Caetano Veloso. Reúne os músicos brasileiros Emicida e Rael, e os portugueses Valete e Capicua.

Resultou da parceria entre a produtora Laboratório Fantasma (comandada por Emicida e o irmão, Fioti) e a Sony. A turnê de lançamento começa em 14 de julho com show em Lisboa.

A autora escreve em português do Brasil

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