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João de Sousa

Quinta-feira, Outubro 21, 2021

Rasque a camisa, enxugue o meu pranto

No Estácio, bairro da zona central do município do Rio de Janeiro, nos anos 40 circulavam o bonde, os automóveis… Era sempre um dia de paz nos largos que contornavam os sobrados.

Nos séculos 18 e 19, o grande logradouro no centro do bairro fixava-se como um dos eixos entre os núcleos primitivos dos sertões e a cidade que se modernizava, entre os engenhos dos Jesuítas e os charcos e pântanos juntos aos morros. Com o avanço do tempo que ficou mais firme, tornou-se uma espécie de porta de entrada da zona norte e subúrbios, curando e secando a bronquite com algumas folhas de hortelã de quem passeava na praça.

Ali, em janeiro de 1951, exatamente no morro do Estácio, nasceu o menino Luiz Carlos dos Santos, filho de dona Eurídice e ‘seu’ Oswaldo, sambista de primeira. O garoto cresceu na favela do morro de São Carlos, berço do samba, a mais antiga do bairro e da cidade, por conta da primeira agremiação carnavalesca, a Deixa Falar, criada pelos moradores em 1928.

“Fui pegando a viola dele, tirando uns acordes, observando. Ele não deixava eu pegar a viola de 4 cordas que era uma relíquia, muito bonita, onde eu aprendi a tocar umas coisas“, disse em entrevista muito tempo depois Luiz, que se tornou Melodia, sobre o pai Oswaldo, quem o inspirou na música.

O poeta Wally Salomão, com suas calças vermelhas e casaco de general, cheio de anéis, assíduo frequentador do morro, num holiday descendo todas as ruas descobriu o cantor. Se alguém quisesse encontrar Melodia, que o encontrasse no Estácio, bem junto ao paço onde passavam os bondes, e bem junto ao passo do passista da escola de samba.

Wally, sem cansaço e acreditando em Melodia, agora sua imensa obsessão, pegou um vapor barato imaginário e o apresentou à honey, honey baby Gal Costa no show que ele dirigia, “Fatal”, no Teatro Tereza Raquel.

Do amor da morena baiana domingo no espaço, como prova de amor mostrou um novo canto e resultou a gravação de “Pérola negra”, no disco “Gal a todo vapor”, 1972.

O resto é história do negro gato de arrepiar, com sua voz de ébano que veio nos felicitar com atitude na música brasileira. O novo peregrino sábio do centro da cidade nos assemelhando.

Luiz Melodia partiu na madrugada de 4 de agosto daquele 2017 que levou também Belchior, Jerry Adriani, Kid Vinil, Loalwa Braz (do grupo Kaoma), Almir Guineto, Karl Hummel (do Camisa de Vênus), Butch Trucks (do Allman Brothers Band), Al Jarreau, Toby Smith (do Jamiroquai), George Young e Malcolm Young (do AC/DC), Kerry Turman (do The Temptations), Chuck Mosley (do Faith No More) Gira (do Nação Zumbi), Fats Domino, Chuck Berry, Chris Cornell…

Agora, nem queiram saber em que ano estamos.


por Nirton Venâncio, Cineasta, roteirista, poeta e professor de literatura e cinema   |    Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 

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