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João de Sousa

Domingo, Outubro 24, 2021

Mais que representatividade, perspectiva: mulheres atrás das câmeras

Uma mulher no set, dirigindo, determinando ângulos, fotometria, marcando elenco, incomoda e, mais que tudo, sabemos que isso significa uma mudança fundamental de perspectiva estética, de forma do trabalho e concepção de arte.

Em franco desaquecimento por conta do projeto desastroso da gestão da pasta da cultura no governo Jair Bolsonaro, a produção audiovisual amarga um dos períodos com menor soma de realizações e finalizações desde que as suas primeiras reformulações políticas, com a criação da Ancine no final do governo FHC. A partir de então, nos anos subsequentes, observou-se a retomada dos investimentos público e a aplicação de um plano estratégico para o setor, o qual experimentou o curso de maior produtividade nos governos Lula e Dilma, através do incremento ao fomento direto e da criação e consolidação da Fundo Setorial do Audiovisual, conquista dos movimentos pela cultura, do acúmulo de realizadores, da luta parlamentar; resultado de negociações entre produtores, diretores, roteiristas, parlamentares e governo progressista.

A implementação de um programa político que tinha como norte o desenvolvimento humano em paradigmas distintos do até então adotado receituário neoliberal para a cultura – o qual propõe a captura da categoria pelos interesses dos “investidores” privados majoritária e exclusivamente como saída para a produção – foi de suma importância para que pudéssemos avançar no sentido de uma relativa independência do setor através de repasses, financiamentos, abertura de editais temáticos e, promoção de novos festivais e estéticas populares, estreantes e não inteiramente comprometidos com a dinâmica do circuito comercial. O “relativamente”, contudo, há que se frisar, uma vez que porção significativa da captação para desenvolvimento de produção e exibição escoou para nós através da aplicação de iniciativas de fomento cuja base era a renúncia fiscal que incide negativamente sobre a força de independência dos coletivos e iniciativas de produção. Fato é que, com mais dinheiro e iniciativa política clara e direta, houve aumento importante no sentido da diversificação da produção: mais preta, mais interiorizada, mais originária, mais lgbti, mais mulher.

Nesse sentido, temos alguns apontamentos. Enquanto cresce o número de mulheres operadoras do audiovisual no país, o percentual de trabalhadoras aumenta na mesma proporção em que aumenta o percentual geral de trabalho direta ou indiretamente empregado no processo de produção do filme; se comparada, pois, à porcentagem de homens que participam também do mesmo universo, o peso relativo desse aumento de participação é quase nulo em termos de diversidade de gênero, peso significativo das mulheres no audiovisual e diversificação das agendas de filmagem e lançamento. Em levantamento publicado pela própria Ancine em 2016 – período em que esta tinha projeto e funcionalidade pleno -, o qual cobriu a produção total através de amostragem por recorte de gênero entre 2007 e 2015, constata-se que as mulheres ocuparam 40% dos cargos no setor e que, em 2015, nós recebemos remuneração total cerca de 13% inferior a que os homens que ocupavam as mesmas funções e quase 30% no balanço remuneratório geral. De acordo com a mesma pesquisa, somente no ano de 2016, 20,3% dos filmes lançados no Brasil foram dirigidos por mulheres, apesar de cerca de 50,7% dessas produções serem documentários, o que demonstra certa restrição à circulação e produção de mulheres à frente de projetos com baixo ou médio orçamento. Por fim, dentre os 10  filmes brasileiro que registraram maior bilheteria naquele ano, apenas 2 foram dirigidos por mulheres.

Em primeiro lugar, precisamos entender que a indústria audiovisual no Brasil é reduzida, incipiente e trabalha na contramão das “majors” e da rede multibilionária internacional, a qual impacta toda a cadeia da produção nacional, desde a organização e venda do projeto até o circuito de exibição, espaço em salas e publicidade. É para garantir diversidade e fôlego sobrevivente, portanto, que iniciativas políticas de fomento são necessárias.

Kika Cunha no set da série “Toda Forma de Amor” (2017)

Sabemos também que, diante do corporativismo do setor, que tende a operar por manutenção de posições de privilégio e reposição no acesso aos meios da produção e aos recursos que a faticizam, torna-se ainda mais importante a manutenção de políticas diretas de financiamento por fomento direto que alcance romper com a lógica oligárquica patriarcal, portanto, do setor. Importante inclusive para que possamos manter um circuito que não tenha que almejar e se esforçar – em vão, muitas vezes – para fazer frente à pressões dos poderosos locais e internacionais. Crucial para uma arte que tenha qualidade estética postulada e apreciada por padrões e paradigmas nossos, nacionais, populares, artesanais, tudo em outra chave, distinta daquele ditada pela indústria cultural.

Em síntese, mais que exigir uma retomada dos investimentos no setor da cultura em geral e, particularmente, do setor audiovisual, precisamos marchar em direção à retomada de financiamento público e autorregulado, impulsionado por um programa político-estratégico baseado em fomento direto que qualifique a Ancine e os setores que administram a cultura no Brasil, mesmo que seja como intermediários captadores e autônomos distribuidores de recursos do setor privado para os realizadores. A partir daí teremos condições de exigir e de nos debruçar por um cinema de e por mulheres – da mesma forma preto, indígena, lgbti -, majoritariamente dirigido, fotografado, filmado, roteirizado e protagonizado por nós. Não pode haver política de retomada de investimento público em cultura sem que entendamos, enfim, a íntima relação entre incremento da destinação, autonomia da distribuição de recursos e incentivo ao financiamento de produtos feitos e encabeçados por mulheres. Não há sentido em pedir mais estado, mais autonomia, mais cultura e mais arte sem que tudo isso sirva ao propósito de radicalizar a estética, desestabilizar o senso comum operado pela indústria cultural e combater a cultura machista, sexista e misógina justamente no espaço por onde ela se dissemina insuspeita e eficaz.

Sabemos que uma mulher no set, dirigindo, determinando ângulos, fotometria, marcando elenco, incomoda e, mais que tudo, sabemos que isso significa uma mudança fundamental de perspectiva estética, de forma do trabalho e concepção de arte. Mulheres cortando o plano incomodam tanto a ponto de serem questionadas: “você é muito bonita! Devia estar na frente das câmeras”. Dessa forma, a manutenção de mulheres estabelecidas atrás das câmeras, onde temos maior poder decisório, é, ao mesmo tempo, um golpe na estetização objetificante da imagem das mulheres conduzida pela mídia hegemônica, uma mudança de perspectiva de trabalho para a emancipação da mulheres em geral e em cascata e uma mudança urgente de perspectiva estética no que responde a uma subversão na forma de ver, compreender, logicizar e enquadrar o mundo e suas relações.


por Dani Balbi, Mulher, negra, transexual e comunista, é Doutora em Ciência da Literatura (Literatura Comparada) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professora da Escola de Comunicação Social (ECO-UFRJ) e da EJA- Manguinhos. Roteirista, crítica de teatro e cinema e militante da cultura, é diretora da UNALGBT, Assessora Parlamentar da Comissão de Promoção de Direitos das Mulheres da ALERJ e filiada à UNEGRO  |  Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

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