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João de Sousa

Domingo, Outubro 24, 2021

Manuel Tito de Morais

Helena Pato
Antifascistas da Resistência

(1910 – 1999)

Manuel Alfredo Tito de Morais foi um lutador antifascista e socialista de esquerda, muito respeitado na Resistência. Esteve preso por três vezes, chegando a ser torturado. Dedicou incondicionalmente toda a sua vida à política e aos seus ideais, antes e depois da Revolução de Abril. Foi fundador e presidente do Partido Socialista, herdeiro da Acção Socialista Portuguesa (ASP) que ajudou igualmente a criar, em 1964. Foi o primeiro director do jornal Portugal Socialista, editado em Roma e que teve ampla divulgação em Portugal e junto da comunidade emigrante.

Início de uma vida de acção

Nasceu em Lisboa em 28 de Junho de 1910 e morreu a 14 de Dezembro de 1999. Era engenheiro electrotécnico. Tinha pouco mais de três meses quando foi implantada a República em Portugal com a participação activa do seu pai, oficial da Marinha, que em 5 de Outubro de 1910 comandou o cruzador São Rafael que bombardeou o Palácio das Necessidades, empurrando a família real para Mafra e daí para o exílio.

A sua iniciação política data de 28 de Maio de 1926, aos 16 anos .

Tito de Morais integrou a Comissão Central do Movimento de Unidade Democrática (MUD), participou nas campanhas eleitorais dos Generais Norton de Matos (1948/49) e Humberto Delgado para a presidência da República (1958); fundador do movimento Unidade Democrática Portuguesa, no Brasil, e dirigente da Junta Revolucionária Portuguesa, órgão directivo da Frente Patriótica de Libertação Nacional, com sede em Argel.

Foi preso pela PIDE três vezes. A primeira em 1946 e a segunda, com todos os membros da CC do MUD, em Janeiro de 1948. Foi libertado em Março de 1948 da cadeia do Aljube sob fiança de 100 mil escudos (uma enormidade para a época). A sua terceira e última prisão ocorreu em 1961, quando vivia em Luanda, para onde se deslocou devido à impossibilidade de arranjar emprego em Portugal após a segunda prisão. Iniciava-se então a guerra colonial em Angola e foi sujeito a maus-tratos e tortura, chegando-se a temer pela sua vida. Tito de Morais trabalhou então como engenheiro em Luanda, numa empresa, mas veio a ser expulso pela PIDE com a alegação de apoio ao MPLA.

Activismo político fora de portas

Sem possibilidade de se manter em Portugal, Tito de Morais partiu para França ainda em 1961, depois para a Alemanha e fixou-se finalmente no Brasil. Em 1963, depois da Convenção de Roma que criou a Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN), movimento unitário em que participavam o Partido Comunista e outros movimentos antifascistas, foi o primeiro português a chegar à Argélia, onde a FPLN abriu a sua sede[1].

Em 1966, com a transformação da Resistência Republicana e Socialista (RRS) em Acção Socialista Portuguesa (ASP) [ por Tito de Morais, Ramos da Costa e Mário Soares], estabeleceu-se em Roma. É então membro do Secretariado Nacional da ASP e delegado representante do movimento na Internacional Socialista (IS). Fundou o jornal Portugal Socialista, órgão central da ASP e mais tarde, em 1973, do Partido Socialista.

Em 19 de Abril de 1973, realizou-se o Congresso da ASP na cidade alemã de Bad Munstereifel destinado a transformar a ASP em Partido Socialista. Coube a Ramos da Costa e a Tito de Morais a organização do Congresso e foi Tito de Morais o primeiro Secretário Nacional do Partido Socialista .

Regresso a Portugal em Abril de 74

Em 29 de Abril de 1974, regressou a Lisboa no “comboio da liberdade”, com a mulher, Maria Emília[2], Mário Soares e outros antifascistas, sendo acolhidos em Santa Apolónia por capitães de Abril e milhares de pessoas, numa imensa manifestação popular.

Tal como no passado, dedicaria agora a sua vida à construção da Democracia em Portugal. Defensor da unidade de esquerda, desempenhou diversos cargos no Partido Socialista, o primeiro dos quais foi o de responsável pela organização do PS, como Secretário Nacional[3].

Hermínio da Palma Inácio, Maria de Jesus Barroso e Manuel Tito de Morais, no 1° de Maio de 1974

Após o 25 de Abril de 1974, e até ao primeiro congresso na legalidade, foi deputado à Assembleia da República em diversos mandatos; Presidente da Assembleia da República entre 1983 e 1985, ocasião em que promoveu a recolha do património cultural do Parlamento disperso e a criação do Museu da Assembleia da República. Desempenhou ainda os cargos de Secretário de Estado do Emprego no VI Governo Provisório e Secretário de Estado da População e Emprego no 1º Governo Constitucional. Foi ainda Vice-Presidente da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa de 1979 a 1980, membro da Comissão Política da Candidatura de Mário Soares à Presidência da República e, Presidente do Partido Socialista, no período entre 1986 e 1988.

Reconhecimento

Em 2010, por ocasião do 100º aniversário do seu nascimento, o Partido Socialista promoveu uma grande celebração com múltiplas iniciativas.

Manuel Tito Morais foi galardoado como Grande Oficial da Ordem de Mérito da República Italiana, com a Grã-Cruz da Ordem de Danebrog da Dinamarca, da Ordem de Mérito da Áustria, da Ordem da Coroa da Bélgica, do Luxemburgo, e em Portugal, com a Grã Cruz da Ordem Militar de Cristo e da Ordem da Liberdade.

Em 2010, no âmbito das comemorações acima mencionadas, realizou-se uma sessão no Grémio Lusitano, onde se evocou a figura do maçon Manuel Tito de Morais.

Manuel Alfredo Tito de Morais é uma ponte perene no imaginário da unidade de esquerda, em acção e não na traficância de sinecuras, muito menos ao serviço de um capitalismo de rosto desumano remediado com assistencialismos do Estado típicos de Santa Casa da Misericórdia Socialista dos desvalidos e desempregados numa mão e chicote do défice e protecção aos banqueiros na outra. Antes do 25 de Abril e depois, Manuel Alfredo Tito de Morais foi sempre para mim, absolvidas as diferenças tácticas e estratégicas, onde ele provavelmente me ganhou em razões na maioria das vezes (mas não em todas), um dos “meus”.[4]

Ficha da PIDE de Manuel Tito de Morais

Manuel Tito de Morais

Manuel Tito de Morais

 

[1] Na segunda Convenção, em Praga, a FPLN elegeu o General Humberto Delgada como presidente.

Com a mulher, Maria Emília

[2] Maria Emília Pedroso da Cunha Rego Tito Morais (1923 – 2011) era uma cidadã antifascista, uma mulher de grande coragem e determinação, que teve a seu cargo a educação e o sustento dos três filhos durante as prisões do marido. Esteve presa por duas vezes, na década de 40. . Aguentou com estoicidade os exílios, as prisões, a luta e a valentia do seu marido com quem partilhou essas privações, revelando sempre uma determinação invulgar. Acompanhando o marido no exílio, viveu em Angola, França, Brasil, Argélia e Itália, juntando-se, então, às actividades antifascistas e prestando apoio aos exilados do fascismo nesses países. A sua casa tinha sempre as portas abertas para todos os portugueses refugiados.

[3] Em 1974, um pequeno partido, recém-formado, passa imediatamente a 100 mil membros.

[4] João Tunes, no blogue água Lisa [Abram-se alas para um minuto de culto da personalidade]

Dados biográficos:

  • Grande parte do seu espólio (documentos, fotos, correspondência) pode ser vista em Espólio Manuel Tito de Morais
  • Biografia em co-autoria de Helena Pato com Luísa Tito de Morais, sua filha.

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