Diário
Director

Independente
João de Sousa

Quinta-feira, Dezembro 9, 2021

Maria da Conceição Moita

Helena Pato
Antifascistas da Resistência

Maria da Conceição Moita | A ser libertada da prisão de Caxias, a 26 de Abril de 1974

Mais tarde foi detida, a 6 de Dezembro de 1973, porque colaborou com as «Brigadas Revolucionárias». Foi torturada, submetida a isolamento e ficou na prisão de Caxias até à Revolução de Abril de 74.

Biografia

maria-conceicao-moitaMaria da Conceição Moita nasceu a 5 de Abril de 1937. Foi educadora de Infância, tendo trabalhado na educação de adultos e na animação comunitária. Os últimos 20 anos da sua vida profissional foram dedicados à formação de professores e educadores.

Participou em acções contra a ditadura e sobretudo contra a guerra nas colónias portuguesas. Esteve na Capela do Rato, na passagem do ano de 1972 para 1973, integrando um grupo de católicos que tomou posição contra a guerra colonial e contra a ditadura do Estado Novo, numa das iniciativas mais emblemáticas levadas a cabo pelos católicos, neste âmbito. Teve um papel determinante nesses acontecimentos: leu a declaração que convocava a vigília de 48 horas de oração pela paz. Não foi presa nesse dia, sendo apenas interrogada uns dias depois.

Conceição Moita pertencia ao grupo de católicos que se opunham ao regime fascista, sem fazer qualquer ruptura com a Igreja Católica: ia à missa todos os Domingos e estava completamente integrada, ao contrário de outros companheiros.

Achámos pertinente, para a compreensão desta cidadã, a utilização de relatos autobiográficos, já que possibilitam uma reconstrução do seu passado e ajudam a compreender o seu percurso integrado naquele grupo.

Autobiografia

Antes de Abril de 1974

«A ruptura ou desencantamento com a Igreja institucional aconteceu de uma maneira natural porque os cristãos viviam muito entristecidos pelo facto dos frutos maravilhosos do Concílio Vaticano II não terem atingido a Igreja Católica em Portugal de uma maneira manifesta. Houve bolsas muito interessantes, de padres e leigos, que viveram a grande abertura que foi o Concílio e as suas orientações, em que participei, e que tiveram uma grande importância na nossa consciência política.

A mesma importância tiveram as encíclicas de João XXIII e de Paulo VI, que apontavam para a grande importância do desenvolvimento humano, da democracia e da vivência em liberdade, o que era incompatível com o que acontecia em Portugal. Afastaram-se, por isso, da Igreja de uma maneira muito entristecida e dorida… (…) Muitos deles não perderam a fé, mas afirmaram a grande tristeza em relação à cumplicidade que a hierarquia da Igreja mantinha quer em relação ao fascismo quer à guerra colonial».

Os chamados “católicos progressistas” foram verificando que o que viviam enquanto cidadãos era insustentável e insuportável para a sua consciência cristã. As liberdades eram coarctadas, não havia direito à informação, que era completamente vigiada e cortada pela censura; não havia o direito à reunião e, quando se queriam reunir para questões mais melindrosas tinha de ser na clandestinidade. Um grupo cada vez maior de cristãos foi tomando consciência destas realidades e ligando-se entre si. Houve pessoas e marcos de referência. Mas a tomada de consciência da situação em que se vivia aconteceu em grupo.

Aí debatíamos e combinávamos como ajudar outros cristãos a tomar consciência destas realidades, concertávamos estratégias para acções concretas… E estas acções foram cada vez mais importantes à medida que nos aproximávamos do 25 de Abril. Aumentava o número de participantes, de vários quadrantes e com várias sensibilidades políticas que tomavam medidas quer pessoais quer em grupo para dar volta à situação».

Particularmente marcante no seu percurso de luta pela liberdade foi a participação na vigília da Capela do Rato. Todos os relatos dos organizadores confirmam que os acontecimentos foram preparados com grande rigor. Tinha havido uma iniciativa na igreja de S. Domingos, dois anos antes, mas tinha sido um episódio efémero e com pouco impacto, o que os levou a pensar numa outra acção, no interior da Igreja mas aberta a não cristãos, que tivesse mais impacto, quer do ponto de vista eclesial quer político. Um grupo de seis pessoas decidiram então dar a cara para que essa acção fosse realizada. Escolheram a capela do Rato por ser um lugar onde “a mensagem evangélica era habitualmente proclamada e vivida de uma maneira muito intensa por uma pequena comunidade”:

«Havia um ambiente que nos chamava para o melhor de nós próprios enquanto cristãos. O padre Alberto fazia umas homilias notáveis. A PIDE estava sempre a assistir, mas nunca conseguiu prendê-lo porque, apesar de fazer a denúncia clara das situações que se viviam em Portugal, mantinha uma linguagem sempre próxima do Evangelho do dia. E por isso não podia ser acusado de intervenção política. Ele proclamava a mensagem do Evangelho, apenas.»

Estavam todos presentes na missa vespertina de Sábado, dia 30 de Dezembro de 1972, celebrada pelo padre João Seabra Dinis. No fim da missa, Conceição Moita dirigiu-se aos microfones e disse aos presentes que se queriam comprometer a ficar dois dias em jejum completo e em greve de fome, em solidariedade com as vítimas da guerra, como protesto contra a situação de guerra que se vivia em Portugal e contra a ausência de tomadas de posição da hierarquia católica condenando a situação da guerra.

A entrada da polícia política e as prisões que fez, aumentaram a repercussão dos acontecimentos. Muitas pessoas foram presas, algumas sem sequer estarem ligadas aos acontecimentos, sobretudo jovens. Conceição Moita não foi um dos presos, mas uns dias depois foi interrogada pela PIDE.

Conceição Moita recorda, numa entrevista dada em 2014, esses tempos da militância por um país livre, bem como os dias da sua prisão e da libertação.

«Houve pessoas e marcos de referência. Mas a tomada de consciência da situação em que se vivia aconteceu em grupo. Aí debatíamos e combinávamos como ajudar outros cristãos a tomar consciência destas realidades, concertávamos estratégias para acções concretas. (…) E estas acções foram cada vez mais importantes à medida que nos aproximávamos do 25 de Abril. Aumentava o número de participantes, de vários quadrantes e com várias sensibilidades políticas, que tomavam medidas quer pessoais quer em grupo, para dar volta à situação».

25 de Abril de 1974

No dia 25 de Abril de 1974 estava presa na cadeia de Caxias e é uma das pessoas que aparecem à porta, na hora da Libertação, acompanhadas dos advogados, e da delegação da Comissão de Socorro aos Presos Políticos.

«Não soubemos que tinha havido a revolução nem o golpe militar pelo Movimento das Forças armadas. Tivemos conhecimento vagamente no final do dia 25. Percebemos que havia algumas alterações nas rotinas na cadeia, alguns companheiros que seriam julgados nesse dia e que não foram.

Houve um automóvel que tentou comunicar com os presos de Caxias. Através de sinais sonoros, a partir da auto-estrada. Disse que tinha havido um golpe de estado e que iriamos ser libertados. Mesmo sem ouvir toda a mensagem, percebemos as duas últimas palavras: “derrubado” e “coragem”.

Ficamos muito entusiasmadas, eu e as três pessoas que estavam na cela comigo, porque queríamos que aquele pesadelo acabasse rapidamente.

No dia 26 de Abril, , fomos libertados depois de algumas diligências para que todos os presos políticos fossem libertados e não alguns, tal como inicialmente tinha sido anunciado.

Foi uma libertação que teve um significado pessoal enorme! Estava presa há seis meses. Tinha passado pela tortura, isolamento numa cela sozinha e finalmente com outras companheiras.

Foi uma libertação única. Era a minha libertação pessoal depois de uma situação de cativeiro; a libertação do meu país, que tanto desejava; o fim da ditadura e a conquista da palavra “liberdade” que faltava; e depois a libertação dos povos das colónias, uma luta onde estava particularmente implicada.»

Depois de Abril de 1974

maria-conceicao-moita-actualConceição Moita diz na entrevista:

«Trazíamos uma dinâmica que era difícil de parar. Logo depois, realizámos Assembleias de Cristãos. Nelas havia debate sobre tudo o que se pode imaginar. A coordenar essas mesas estavam católicos como Fernando Gomes da Silva, Manuela Silva, padre João Resina, frei Bento Domingues. Constituíram-se depois vários grupos, como os “Cristãos em Reflexão Permanente” ou os “Cristãos pelo Socialismo”, de algum modo impulsionado por mim (…). Houve também um grupo que fundou o jornal “Libertar” que teve muita importância nos primeiros tempos da vida em liberdade, consciencializando os cristãos para se misturarem com todos os cidadãos para consolidarem a liberdade e lutarem contra o capitalismo feroz que nessa altura havia em Portugal».

Nuno Teotónio Pereira, no Estádio Primeiro de Maio, no 1º Dia do Trabalhador em liberdade, fez uma intervenção em que disse:

«Nós os católicos estamos no meio do povo português, muito contentes com o que aconteceu em Portugal. Mas está tudo por fazer! O 25 de Abril foi um grande clarão que aconteceu a todos, mas agora é tempo de… mãos à obra! E deixa de fazer sentido a designação de ‘católicos progressistas’. Agora somos portugueses que vamos trabalhar pelo nosso desenvolvimento, pelo bem-estar e pela qualidade de vida de todos!».

Nota: Entrevista de Maria da Conceição Memórias do dia da libertação pessoal e do país, à Revista Ecclesia

Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a nossa Newsletter. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

- Publicidade -

Outros artigos

- Publicidade -

Últimas notícias

Mais lidos

- Publicidade -