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João de Sousa

Segunda-feira, Agosto 8, 2022

Maria Helena Magro

Helena Pato
Helena Pato
Antifascistas da Resistência

(1923 – 1956)

Viveu, lutou e morreu na clandestinidade. Consciente da situação desigual entre homens e mulheres e das discriminações por estas sofridas, (incluindo no seio partidário), foi uma infatigável defensora da igualdade de direitos e uma defensora da integração das mulheres no trabalho político como forma de emancipação. Em meados de 1945, após a Segunda Guerra Mundial, com apenas 22 anos de idade, aceita o convite para funcionária clandestina do PCP. O curso de Direito, de que era destacada aluna, fica incompleto. Depois de onze anos de clandestinidade sem nunca ser presa, vem a falecer em 1956, devido a dificuldades de assistência imediata, num parto difícil. Sabe-se que foi simultaneamente um quadro técnico e político do PCP.

Inicio na luta social e política

Filha de Francisco Magro (1896-1946) e de Flora Alves Magro; irmã de João e José Alves Tavares Magro; cunhada de Aida Magro (1918-2011). Maria Helena Alves Tavares Magro nasceu no primeiro dia de Janeiro de 1923, em Lisboa, na freguesia de Santos-o-Velho. Filha de Francisco Félix Tavares Magro e de Flora Carlota Alves. Emancipada pelo pai aos 18 anos, desde muito cedo se envolveu na luta social e política, primeiro no bairro de Alcântara, onde viveu até aos 22 anos e depois, quando entrou para a Faculdade de Direito no ano lectivo 1940/41, nas lutas académicas que então ocorreram contra o aumento das propinas.

Francisco Félix Tavares Magro, pai

Flora Alves Magro, mãe

José Alves Tavares Magro, irmão

Boa aluna, Maria Helena Magro sempre «alcançou nas escolas altas classificações que lhe permitiram ganhar a isenção de matriculas e vários outros prémios». Frequentou o Liceu Filipa de Lencastre . Matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa no ano lectivo de 1940/41 e participou nas greves académicas de 1941.

Militante do PCP desde 1943, Helena Magro frequentava o 4.º ano (1945) quando foi incentivada pelo irmão José a integrar os quadros clandestinos do Partido [“no pequeno jardim defronte da Casa da Moeda”, naquele que seria o último encontro entre ambos]. Aluna com elevadas classificações, deixou então o curso por concluir e viveu durante onze anos na clandestinidade, sem nunca ser presa.

Vida na clandestinidade

Maria Helena Magro, por Margarida Tengarrinha

Na clandestinidade tornou-se companheira de Joaquim Pires Jorge (1907-1984), de cuja união nasceu a filha Clara. Na clandestinidade desempenhou tarefas politicamente importantes, nomeadamente na redacção do jornal O Camponês, colaborando regularmente no jornal Avante, no Militante (boletim teórico); e no jornal clandestino A Voz das Camaradas, onde tinha uma colaboração “com grande sentido pedagógico”[1]. O seu último artigo, sobre “A Importância da Cultura Geral”, data de Novembro de 1956. .

Em Dezembro de 1956, em vésperas de completar 34 anos, morreu no hospital por complicações de parto do segundo filho.

Margarida Tengarrinha, nos livros Quadros da Memória e Memórias de uma Falsificadora, evoca a comoção deste desenlace, que acompanhou porque Pires Jorge se encontrava então em sua casa, e Helena Magro, que nunca conheceu pessoalmente, tivera enorme importância na sua adaptação à vida clandestina[2]. Aquando da morte de Maria Helena Magro, José Dias Coelho escreveu no jornal Avante! palavras sentidas e o seu retrato em gravura, da autoria de Margarida Tengarrinha, iria ser publicado no número de Abril de 1961 de A VOZ DAS CAMARADAS das casas do partido.

Com cerca de dois anos de idade, Clara, foi entregue à família da mãe e criada pelo tio João Luís e pela avó Flora Magro que, durante vinte e três anos consecutivos, em condições inimagináveis, andou a caminho das cadeias políticas para visitar o filho (José Magro), a nora (Aida Magro) ou o genro (Pires Jorge), encarcerado entre 1961 e 1971, a quem levava a filha nas visitas de fim-de-semana ao Forte de Peniche[3].

Dimensão politica e intelectual de Maria Helena Magro

Júlia Coutinho, no seu blogue “As Causas da Júlia”, evocou Helena Magro, em 2009, na data em que completaria 86 anos de idade, num artigo que dá bem a dimensão politica e intelectual desta mulher, que morre com 33 anos:

Com o irmão José e a cunhada Aida, a que se juntam outros jovens da zona como «Mário Castrim» e Alda Nogueira desenvolvem intensa actividade na freguesia de Alcântara e arredores: pedem livros e fundam uma biblioteca, organizam bailes e quermesses para realização de fundos, angariam roupas e medicamentos para apoio aos presos políticos e famílias»[4]. (…) Consciente da situação desigual entre homens e mulheres e das discriminações por estas sofridas, incluindo no seio partidário, foi uma infatigável defensora da igualdade de direitos e uma defensora da integração das mulheres no trabalho político como forma de emancipação. Assim, em Maio de 1948 escrevia no boletim 3 Páginas (que antecedeu A Voz das Camaradas), dando-se como exemplo, na tentativa de incutir nas funcionárias comunistas o gosto pelo trabalho político, para além da principal tarefa da guarda das casas clandestinas»[5]

[1] O último artigo que escreveu: A Importância da Cultura Geral», foi publicado em A Voz das Camaradas de Novembro de 1956. Nele faz um apelo ao estudo abrangente e metodológico de forma a que os comunistas assimilem os conhecimentos humanos acumulados ao longo dos anos, enriquecendo a memória e desenvolvendo o sentido crítico, concluindo: «O dia virá em que outras tarefas nos serão confiadas e nessa altura todos os conhecimentos que agora vamos adquirindo nos serão preciosos. Por isso não podemos deixar passar os anos, uns após outros, sem aproveitar utilmente o tempo que não volta. (…) O estudo auxiliar-nos-á a assimilar o marxismo, tal como o marxismo nos ajuda a fazer um estudo sério e útil das outras ciências.»

[2] Sem a ter conhecido, tinha-me tornado sua amiga, pois o Pires Jorge apercebera-se das minhas dificuldades de adaptação à vida clandestina, assim como a angústia pelo estado de saúde da minha mãe, e começou a trazer-me cartas de uma camarada (não disse ser sua companheira) que demonstravam uma grande solidariedade e compreensão pêlos meus problemas, dizendo que também tinha passado por dificuldades semelhantes. Palavras que me ajudaram a ultrapassá-las. A partir daí mantivemos uma troca de correspondência que me ajudou muito, pois a Helena Magro, além de inteligente, era uma mulher de grande sensibilidade. Foi depois da sua morte que Pires Jorge me disse que era ela a minha correspondente, de quem me tinha tornado grande amiga. Saber que ela era a minha amiga desconhecida ainda me fez lamentar mais a sua perda. Chorámos juntos e o Zé escreveu sobre ela umas palavras que, anos mais tarde, transcrevi (…) no Avante de Janeiro de 1962»

[3] Flora Magro contou-me que teve sempre alguém da família nas prisões, pois chegou a ter o filho, José Magro, em Peniche, a nora Aida Magro em Caxias; e o genro Pires Jorge, depois da prisão deste em Dezembro de 1961, no Aljube, tendo a seguir passado para Caxias e acabando por cumprir pena em Peniche. D. Flora dizia, sorrindo, que essa tinha sido a sua Via Sacra. Foram vinte e três anos a correr de uma prisão para outra. Criou duas netas, Manuela, filha de José e Aida Magro e a Clarinha, filha de Pires Jorge e de sua filha Maria Helena Magro.
Sofreu o mais terrível choque, que a deixou arrasada, quando teve a notícia de que a sua filha Maria Helena, há vários anos na clandestinidade, tinha morrido num hospital na sequência de uma gravidez muito difícil. Soube-o três meses passados, sem ao menos ter podido vê-la, numa última despedida.»

[4] Conta-nos Aida Magro a estratégia utilizada para conseguirem o apoio do padre da freguesia: a cedência do espaço em troca de uma parte dos lucros para a paróquia. Ousados, chegam a convidar a mulher de Carmona para inaugurar uma das quermesses; a senhora não comparece mas contribui com uma nota de 100 escudos, o que para a época era uma fortuna».  em As Causa da JúliaLembrando Maria Helena Magro (1923-1956)

[5] Tenho a meu cargo, entre outras tarefas, a do recorte dos jornais: recorto os artigos sobre a vida nacional e internacional que têm maior interesse, e vou-os catalogando conforme os assuntos: Assembleia Nacional, Organização Corporativa, etc. Colo depois estes artigos, com indicação da data e nome do jornal, em folhas que entram nas secções respectivas. Assim, os camaradas podem encontrar facilmente as noticias e dados concretos de que precisem para o seu trabalho. Esta leitura cuidada do jornal, que todas nós devíamos fazer diariamente, tomando-a como uma tarefa partidária, é muito útil porque alarga o nosso conhecimento sobre as condições de vida do povo, política salazarista, política internacional, etc.» e, lembrando que nem todas sabem ler e escrever, diz ainda: «Acho que este trabalho podia ser feito por todas as amigas que leiam facilmente. (…) A nossa instrução politica é uma tarefa que não devemos esquecer.» (…) As amigas que não sabem ainda ler ou lêem com dificuldade, devem colocar aos camaradas da casa, muito seriamente, a tarefa de auxiliá-las, porque saber ler faz muita falta, camaradas. (…) Fora das fileiras partidárias, Helena Magro recorda as palavras de Lenine: «esquecendo as mulheres, é impossível interessar as massas pela política», para defender, num documento da sua autoria, que a «palavra de ordem que mobilizará as mais amplas massas femininas é a luta pela Paz» porque «a luta pela Paz é comum a todas as camadas, a todas as classes, une as pessoas de todas as ideologias e crenças.» Reconhecendo que em todos os campos – económico, social, político e jurídico – as mulheres têm reivindicações específicas a apresentar e advogando a criação de «uma organização feminina nacional, legal, que defenda as justas reivindicações da mulher em todos os campos», Helena Magro salienta, por outro lado, a necessidade de homens e mulheres se manterem lado a lado na luta por interesses comuns.

Através do referido 3 Páginas, de Maio de 1948, ficamos a saber como foi o início da sua vida na clandestinidade. «Quando eu vim, nos primeiros meses senti-me deslocada: não conhecia o camarada, a vida era muito diferente da que eu tivera, e também daquela que eu julgara vir encontrar e, principalmente, tinha um medo muito grande de não acertar, de não conseguir ser útil ao Partido. Mas tudo isso passou já e não esqueço o que o nosso jornal contribuíu para isso». O camarada a que alude é Joaquim Pires Jorge, que foi o seu companheiro de vida.»  em As Causa da JúliaLembrando Maria Helena Magro (1923-1956)

Dados biográficos:


Retrato da autoria de Margarida Tengarrinha, publicado em A Voz das Camaradas, em 1956, por ocasião do falecimento de Maria Helena Magro.

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