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Sexta-feira, Janeiro 21, 2022

Melgaço, terra com forte ligação ao cinema, vai estar até domingo focada no documentário

José M. Bastos
Crítico de cinema

O mais nortenho dos concelhos do território continental português, e aquele que o francês Jean Loup Passek elegeu como local de destino do seu vasto espólio cinematográfico, vai viver de hoje até ao próximo domingo a 4.ª edição do Festival Filmes do Homem organizado pela Câmara Municipal de Melgaço em parceria com a Associação Ao Norte, de Viana do Castelo.

Este Festival é uma manifestação realizada longe dos grandes centros e focada em aspectos relevantes do território e das gentes da região em que decorre. Por Melgaço passou muita da emigração portuguesa dos anos 60 e 70 do século passado, grande parte dela “a salto” e seguindo os caminhos utilizados por aqueles que faziam do contrabando um modo de vida ou um complemento do seu parco orçamento familiar.  

Assim, é perfeitamente natural que “migração, fronteira e memória” sejam os referentes temáticos dum festival explicitamente virado para o documentário. Um festival de forte pendor etnológico e sociológico em que também estão presentes alguns dos assuntos mais marcantes dos tempos actuais: os refugiados, as famílias separadas pelas guerras, …    

A seleção oficial constituída por 24 filmes (15 longas e 9 curtas) candidatos ao Prémio JeanLoup Passek integra obras oriundas dos Estados Unidos, Bélgica, França, Iraque, Itália, Alemanha, Espanha, Argentina, Grécia, Finlândia e Portugal (estes também concorrentes ao prémio de Melhor Filme Português). O júri que os vai apreciar é constituído pelo crítico e cineclubista André de Oliveira e Sousa, pelas realizadoras Graça Castanheira e Iris Zaki (vencedora do prémio Jean Loup Passek paramelhor curta-metragem na edição de 2016), pelo produtor e realizador Rodrigo Areias e pelo jornalista e programador brasileiro Sérgio Rizzo.

Alguns dos filmes em competição

“Rosas de Ermera”, de Luís Filipe Rocha

“La Chambre Vide”, de Jasna Krajinovic

“Crianças Roubadas – A Herança de Franco”, de Inga Bremer

De entre os filmes em competição, e apenas a título de exemplo, citamos “Rosas de Ermera” de Luís Filipe Rocha, sobre a família de José Afonso , “La Chambre Vide” de Jasna Krajinovic, abordagem do alistamento de jovens nas redes jihadistas ou “Crianças Roubadas – A Herança de Franco” de Inga Bremer, sobre os bebés roubados às suas famílias durante os últimos anos do franquismo (e mesmo nos primeiros anos de democracia) para depois serem vendidos a casais que procuravam crianças para adopção.

Segundo a organização do festival estarão presentes em Melgaço 13 realizadores para apresentarem os seus filmes.

Com a Galiza mesmo ao lado. o Filmes do Homem celebrará os “III Encontros Arraianos de Cinema”, que pretendem estreitar as relações entre cineclubes e festivais de cinema dos dois lados da fronteira. A este propósito refira-se a a habitual e significativa presença de cineclubistas e cinéfilos galegos em Melgaço. No âmbito destes encontros, no sábado, dia 5,  no Salão Nobre da Câmara Municipal de Melgaço, Aser Álvarez apresentará o livro “Arraiano entre os Arraianos”, de Xosé Luís Méndez Ferrín

O programa do Festival inclui ainda o KINO MEETING – Encontro Internacional de Serviços Educativos de Cinema, com a presença de várias instituições internacionais, como as Cinematecas Alemã e Portuguesa, o Museu Nacional de Cinema Italiano, a Filmoteca da Catalunha, os Cineclubes de Viseu e Faro, a Casa Museu de Vilar (do realizador Abi Feijó) e o Festival de Cinema de Animação Cinanima. O encontro pretende dar a conhecer o trabalho desenvolvido por estas instituições na educação de públicos.

Conjunto de Workshops

Mas há mais. “Fora de Campo” é um conjunto de Workshops que decorrerá durante todo o período do Festival que tomando como ponto de partida “Cinema, Narrativas e Lugares de Memória” pretende reflectir e debater as abordagens artísticas, tecnológicas e das ciências sociais e humanas ao cinema.

“Plano Frontal” é uma residência cinematográfica e fotográfica, orientada por Pedro Sena Nunes e dirigida a alunos e recém-graduados de escolas de cinema, comunicação e de artes visuais. O projecto vem desde a primeira edição e dele já resultou a realização de 12 documentários 6 projectos de fotografia. Desta feita, serão exibidos os trabalhos realizados em 2016 e concebidos os que virão a ser mostrados em 2018.

Em conclusão: o festival Filmes do Homem é um bom motivo para um “salto a Melgaço”.

 

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