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Segunda-feira, Setembro 20, 2021

Em defesa da Paz Mundial

Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

DO AVESSO

Chamam-nos – a mim também – os defensores do soft power, por sugerirmos soluções de paz num mundo de conflitos extremos, para lá das alternativas que nos são impostas pelo hard power político, económico e militar. Chamam-nos utópicos, como se as utopias não fossem realidades adiadas.Se alguém me dissesse, há pouco tempo, que em 2018, num século de tantas tensões, eu estaria a discursar perante uma plateia enorme, na Coreia do Sul, com representantes civis, políticos e religiosos de todos os países do mundo – mesmo os que não quiseram fazer-se representar oficialmente, pois sofrem o medo, também a vergonha das suas ditaduras e mordaças – unindo a minha a voz a centenas de delegados que convergem na urgência de uma solução de paz para o mundo, teria sorrido, talvez negando ironicamente a possibilidade. Mas foi mesmo o que aconteceu – só sendo possível pelo trabalho que desenvolvemos na área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, com particular relevo para ação do seu diretor, Paulo Mendes Pinto (de que sou, reconhecido, o vice), e para o empenho dos seus investigadores. Ainda pelo (imodesto) relevo que anda a ser dado ao Núcleo de Investigação Nelson Mandela que coordeno (é o centro de estudos do humanismo e da paz da mesma área), e sobretudo pelo convite da International Leadership Conference que viabilizou a deslocação e a estada, dos dois portugueses presentes (a deputada Ângela Guerra e eu próprio).

Fomos 500 delegados de um mundo a precisar de paz. Todos concordamos que só uma paz sustentável e duradoura pode garantir a continuidade do mundo. Que só um mundo sem armas, promotor de paz, segurança e desenvolvimento humano pode ser digno de um planeta tão generoso. Não interessa construir um mundo melhor, em suma, mas destruir o pior do mundo, oferecendo-lhe alternativas grandiosas. O papel do conhecimento e da cultura, a par do papel das religiões e da consciência política dos cidadãos são promotores de paz. Líderes religiosos de primeira linha, saem já para a ribalta denunciando os extremistas que em nome das religiões traem princípios fundamentais. As três principais religiões abraâmicas, islamismo, cristianismo e judaísmo – são na sua essência religiões de paz, de proximidade, de aceitação dos contrários. Mas também as crenças do continente indiano e da Ásia de Leste, promovem a tolerância, a coexistência pacífica, a coabitação pela tolerância e a construção da vida pela pacificação. Grandes líderes foram protagonistas de mediação. Por exemplo, o coro que se uniu contra o apartheid da África do Sul, o papel de João Paulo II no Líbano, na Polónia, no Haiti; a ação do papa Francisco na promoção de valores antigos mas esquecidos; a voz erguida ao mais alto nível de António Guterres; os líderes budistas no Cambodja; as igrejas e as sinagogas que mobilizaram crentes, em especial os jovens, no Biafra e no Darfur…

A diplomacia – o soft power – tem ganho cada vez mais importância. A ligação entre religião e política caminha para uma nova dimensão: levanta-se o véu daqueles que instrumentalizam ambas, mostrando-se que a realidade é bem diferente da construção da inverdade.

Lutar pela Paz é mostrar que o maior país muçulmano, a Indonésia, é um modelo de moderação islâmica. É perceber o lado apaziguador do budismo, oposto ao lado bélico dos que combateram e combatem em seu nome; é entender o papel do estudo das religiões, desde cedo, nas escolas, para a construção de modelos de paz, de proximidade, de intolerância face aos excessos da violência e dos conflitos. É estudar as mudanças climáticas, a segurança da alimentação, a defesa da água como valor precioso entre todos os valores preciosos; é desarmar; é defender as minorias e os seus direitos; é entender que as mulheres e a família sofrem com a guerra; é construir a normalidade em torno das diferenças de género. É perceber a mudanças da diversidade, as suas componentes étnicas, religiosas e multiculturais. É criar novos modelos económicos perante a falência do sistema capitalista que já provou não ser a solução pacífica. É denunciar: da violência doméstica aos maiores conflitos. E resistir.

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

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