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Sábado, Dezembro 3, 2022

Na Via Láctea, um filme de Emir Kusturica

José M. Bastos
José M. Bastos
Crítico de cinema

A nossa avaliação ***

Na Via Láctea, um filme de Emir Kusturica

Vencedor de duas Palmas de Ouro de Cannes – “O Pai Foi em Viagem de Negócios” (1985) e “Underground” (1995) – Kusturica reaparece com uma nova longa-metragem após quase uma década de ausência.

Emir Kusturica

Cinema delirante, surrealista, absurdo, catártico. Estes são alguns dos epítetos que habitualmente são associados aos filmes deste cineasta sérvio que também costuma ser tido como cultor de um certo “realismo mágico” (classificação que é dada a muita da prosa de García Márquez).

Depois de “O Pai Foi em Viagem de Negócios”, um filme eminentemente político (embora visto pelo olhar de uma criança) – situado na Jugoslávia do pós-Segunda Guerra Mundial e que reflecte o ambiente condicionado pelo regime vigente na altura naquele país –, a partir de “O Tempo dos Ciganos” e passando, por exemplo, por “Underground / Era Uma Vez um País, “Gato Preto, Gato, Branco” e “A Vida é um Milagre”, a obra de Kusturica enveredou por um caminho a que podem ser atribuídas as características atrás referidas, mas que é também de uma grande coerência com as tradições e modo de viver dos seus conterrâneos das zonas rurais e que é um olhar comprometido sobre a permanente convulsão que tem marcado a região em que nasceu. Recorde-se que Kusturica nasceu em 1954 em Sarajevo, viveu no regime de Tito e assistiu à desintegração da Jugoslávia e à terrível guerra fratricida que se lhe seguiu.

“Na Via Láctea”

A guerra da Bósnia está por isso presente neste “Na Via Láctea” como um permanente pano de fundo. É algo que é visto quase como uma coisa natural.

O presente filme, “baseado em histórias reais e muitas fantasias”, está inspirado na curta-metragem “Our Life” realizada por Kusturica em 2014.

Estamos numa Primavera em tempo de guerra. Todos os dias um leiteiro, Kosta (Emir Kusturica), cruza a frente de batalha  montado num burro e, fugindo às balas, vai levar a sua mercadoria aos soldados acantonados na aldeia vizinha. Apesar dos pesares vai levando a sua vida com aparente normalidade e prepara-se para casar com uma bela conterrânea. Até que a chegada à aldeia de uma misteriosa mulher italiana (Monica Bellucci) provoca uma mudança radical na sua vida. Este é o ponto de partida da história de uma paixão proibida que levará os dois amantes a uma série de aventuras fantásticas e perigosas em busca da liberdade e do amor. E no final, o protagonista transforma-se num eremita que rememora o seu passado e transporta pedras até ao alto de uma colina. Este é, de resto, um personagem recuperado da citada curta-metragem.

A luxuriante música dos balcãs, neste caso da autoria do filho do realizador, pontua toda a acção marcada por imagens (excelente a qualidade da fotografia) que diríamos “buñuelianas” – gansos que se banham no sangue resultante da matança dos porcos, falcões que arremetem contra os aviões militares, um campo a ser desminado pela passagem de um rebanho, amantes que voam, … A presença de Buñuel estará até no título deste filme. Afinal foi o cineasta espanhol de um tal “A Via Láctea”.

Procura da liberdade

Este trabalho de Kusturica é, em nossa opinião, um filme de amor e um exercício de procura da liberdade, não só das pessoas, mas também liberdade de criação e liberdade estética. Lemos em alguns comentários, em tom depreciativo, que este “Na Via Láctea” é mais do mesmo. Que Kusturica está sempre a fazer o mesmo filme.

Em nossa opinião é isto o que acontece aos que têm a capacidade de chegar ao estatuto de “autor”. Têm uma marca identitária. Provavelmente Dali ou Amadeu estavam sempre a pintar o mesmo quadro. Eugénio a escrever sempre o mesmo poema. E Lobo Antunes está a escrever sempre o mesmo romance…

Seja… O que nos custa a perceber é que, alguns dos que acusam Kusturica de se auto-plagiar, estejam tão entusiasmados e façam tanto alarido a propósito de alguns os filmes que se anunciam para 2017: sequelas do “Homem Aranha”, “Pirata das Caríbas”, “Power Rangers”, “Planeta dos Macacos”, “Alien”, “Star Wars”…

Enfim, passe a ironia, certamente filmes de grande originalidade…

Trailer

Informação adicional

Título: Na Via Láctea
Título original: Na Mlijecnom Putu
Realização e Argumento: Emir Kusturica
Fotografia: Martin Sec, Goran Volarevic
Música: Stribor Kusturica
Montagem: Svetolik Zajc
Interpretação: Emir Kusturica, Monica Bellucci, Sergej Trifunovic, Sloboda Micalovic, Predrag ‘Miki’ Manojlovic
País: Sérvia
Duração: 125 minutos
Ano: 2016
Estreia em Portugal: 29 de Dezembro de 2016

Nota: A nossa avaliação de * a *****

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