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Quinta-feira, Setembro 23, 2021

Negro Drama

João Carlos Gonçalves, Juruna, em São Paulo
Metalúrgico, sindicalista, Secretário Geral da Força Sindical, vice presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo.

Em novembro de 2020 o IBGE informou que o desemprego no Brasil chegou ao alarmante índice de 14,6%. A análise apresentada pelo Instituto mostrou, entretanto, que esta porcentagem não era a mesma para todas as pessoas. A cor da pele era um grande diferencial. Para os brancos o desemprego era de 11,8%, enquanto para pretos e pardos 16,5% e 19,1%.

Este é o cerne da crueldade de um país segregado pelo racismo. Uma realidade com raízes entre 1500 e 1850, quando 24 milhões de indivíduos foram arrancados do continente africano com destino ao chamado Novo Mundo. Raízes que até hoje fazem crescer suas flores do mal.

A escravidão do passado colonial, o desemprego e a marginalização da atualidade, a violência a que o povo negro é, muitas vezes, forçado a se acostumar, são a matéria com que os Racionais criam suas canções de denúncia. Canções que, muito além do entretenimento e diversão, engajam e conscientizam a população sobre a dura vida dos pobres e negros das periferias. Sobre o negro drama.

Segundo o jornalista Bruno Zeni, no artigo “O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva” a música Negro drama retoma temas como “o cotidiano de violência hiperbólica da periferia descrito em longas letras de caráter narrativo e tom de revolta; a denúncia do preconceito racial contra os negros; um forte apelo religioso que faz da palavra instrumento de iluminação e conforto; um sentimento arraigado de pertencimento a uma determinada região da cidade de São Paulo, onde nasceu e vive o líder da banda, Mano Brown: a Zona Sul1 e algumas de suas localidades, como o Capão Redondo e a Vila Fundão”.

Em seu rap árido e direto, Brown também menciona o passado escravista “Desde o início por ouro e prata”, a transformação que se impõe a muitos de seus irmãos “Eu era a carne agora sou a própria navalha” e a ironia dos brancos que querem parecer pretos “Inacreditável, mas seu filho me imita. No meio de vocês ele é o mais esperto ginga e fala gíria; gíria não, dialeto. Seu filho quer ser preto, ah, que ironia Cola o pôster do 2Pac aí, que tal? Que cê diz? Sente o negro drama, vai tenta ser feliz”.

No meio de tudo, ele pergunta “Você deve tá pensando ‘o que você tem a ver com isso?’”. É uma provocação, uma pergunta retórica. Todos temos a ver com isso. Toda a sociedade é responsável pelas injustiças do presente e pelas heranças históricas malditas que ainda são um fardo para os negros. Como  João Alberto, Evaldo Rosa dos Santos, Wellington Copido Benfati (NegoVila), Mateus dos Santos Costa, Gustavo Xavier, Marcos Paulo Oliveira, Gabriel Rogério de Moraes, Eduardo Silva, Denys Henrique Quirino, Dennys Guilherme dos Santos, Luara Victoria de Oliveira, Bruno Gabriel dos Santos, Emily Victória Silva dos Santos, Rebeca Beatriz Rodrigues dos Santos, além de tantos outros vítimas da violência.

Negro Drama

Composição: Mano Brown/2002
Intérprete: Racionais Mc’s

 

Negro drama! Entre o sucesso e a lama
Dinheiro, problemas, invejas, luxo, fama
Negro drama!
Cabelo crespo e a pele escura
A ferida, a chaga, à procura da cura
Negro drama!
Tenta ver e não vê nada
A não ser uma estrela, longe, meio ofuscada
Sente o drama, o preço, a cobrança
No amor, no ódio, a insana vingança
Negro drama!
Eu sei quem trama e quem tá comigo
O trauma que eu carrego pra não ser mais um preto fudido
O drama da cadeia e favela
Túmulo, sangue, sirene, choros e velas
Passageiro do Brasil, São Paulo, agonia
Que sobrevivem em meio às honras e covardias
Periferias, vielas, cortiços
Você deve tá pensando “o que você tem a ver com isso?”

Desde o início por ouro e prata

Olha quem morre, então veja você quem mata
Recebe o mérito, a farda que pratica o mal
Me ver pobre, preso ou morto já é cultural
Histórias, registros e escritos
Não é conto, nem fábula, lenda ou mito
Não foi sempre dito que preto não tem vez?

Então, olha o castelo e não foi você quem fez, cuzão
Eu sou irmão dos meus truta de batalha
Eu era a carne agora sou a própria navalha
Tim-tim, um brinde pra mim
Sou exemplo de vitórias, trajetos e glórias
O dinheiro tira um homem da miséria
Mas não pode arrancar de dentro dele a favela
São poucos que entram em campo pra vencer
A alma guarda o que a mente tenta esquecer
Olho pra trás, vejo a estrada que eu trilhei, mó cota
Quem teve lado a lado e quem só ficou na bota
Entre as frases, fases e várias etapas
Do quem é quem, dos mano e das mina fraca
Hum, negro drama de estilo
Pra ser, se for tem que ser, se temer é milho
Entre o gatilho e a tempestade
Sempre a provar que sou homem e não um covarde
Que Deus me guarde, pois eu sei que ele não é neutro
Vigia os rico, mas ama os que vem do gueto
Eu visto preto por dentro e por fora

(…)


Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado


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