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João de Sousa

Quarta-feira, Dezembro 8, 2021

No balanço da vida

Já passara dos cinquenta, mais de metade deles casada, os filhos criados, e deu consigo a pensar na vida que tem e leva há 27 anos com aquele marido com quem até é feliz, tem segurança, uma vida pacata e sem grandes conflitos.

Mas lá no fundo, algo nela despertou e olha para aquela vida de frente, sem filtros nos olhos e no coração, e pensou se seria tão feliz assim, ou se a mansidão daquela vida sem vida, morna e sem sabor, a fazia na verdade feliz. O marido, que continuava a não perder os jogos de futebol na TV, se dantes com isso não se importava, hoje lhe é quase insuportável. Este e outros hábitos com que aprendera a conviver e a viver.

Noutro dia resolveu se maquilhar, pôr um salto mais alto, se arranjar melhor. Sem razão alguma especial. Mas o que a fez sentir-se bem. Precisava de ir até à repartição de finanças tratar de uns assuntos. E saiu. Lá dentro, reparou em alguém – um homem – que a olhava fixamente, de uma forma que já há muito não se dava conta, nem mais sabia como isso era. Mas era isso. Há quanto tempo não se via assim olhada? Sentiu-se perturbada. Mas uma perturbação boa, viva e alegre, como há muito não sentia. Chegou a casa sentindo vida, o sangue a correr nas veias, o coração disparado, e o vulcão e o fulgor que ela julgara extintos desde há muito, afinal estavam bem vivos. Sobre a cama, pensou nesse homem, paradigma de sedução e de tentação, e envolta em pensamentos e em emoção, sentiu e soube ali o quanto desse brilho e desse vigor ela precisava, ela que morta viva se sentia e nem conta se tinha dado havia tanto tempo.

A vida dela desde há muito se resumia ao jantar em casa dos sogros, sempre aos domingos, aos sábados a visitar ou a receber a visita dos filhos e dos netos, ir a um cinema de vez em quando, comemorar um qualquer aniversário da família, e aquele marido lá, sempre certo, sempre tão disponível. Mas que nela provocava apenas uma amizade, para quem ela raramente se ponha atraente e por quem sentia apenas um grande afeto. Mas quem disse que tem hora e idade para a paixão, o coração a bater forte, o brilho no olhar, a vida pulsante, o amor vibrante e apaixonado? Por momentos pensou na possibilidade de ter um caso. E viver com menos rotina, menos reuniões familiares, viver com mais alegria e com mais intensidade. Mas a educação que recebera não lhe permitia por muito tempo sequer pensar nessa possibilidade, e a separação, por um sem número de razões, estava fora dos seus planos. E a coragem. Que não tinha nem para uma coisa nem outra. Restava-lhe então viver conformada. E para a próxima vez que saísse, e por um acaso resolvesse de novo se arranjar melhor, prometeu para si mesma nunca mais olhar para ninguém, desviar o olhar para quem a olhasse, e assim evitar experimentar saber que há mais vida para além daquela que vive desde há muitos anos.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


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