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Quarta-feira, Outubro 27, 2021

No vigésimo aniversário do onze de setembro

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Vinte anos após o crime, os mesmos talibã que albergaram a Al-Qaeda estão de volta ao controlo total! O primeiro-ministro do país que criou, financiou, armou e dirigiu os talibã – e protegeu Osama bin Laden até ao dia da sua aniquilação – reivindicou em 16 de agosto a quebra das “correntes da escravatura”  na conquista do Afeganistão pelas suas milícias.

Adaptação das palavras partilhadas na manhã de onze de setembro na Praça do Luxemburgo em Bruxelas,

Para todos aqueles que dentro de algumas horas comemorarão o vigésimo aniversário da tragédia no Memorial Nacional de 11 de setembro, em Nova Iorque, no Memorial do Pentágono, na Virgínia, e no Memorial Nacional do Voo 93, na Pensilvânia; para todos aqueles que noutros lugares dos Estados Unidos da América – ou mesmo em qualquer outro lugar do mundo – estão dolorosamente a honrar a memória das vítimas, a minha profunda e empenhada solidariedade.

Este foi o mais mortífero acto singular de assassínio em massa perpetrado pelo Jihadismo, mas não foi o único. Lembremos a fatwa de Ayatollah Khomeini de há trinta e três anos, sob o mandato jihadista constitucional iraniano, que promoveu o genocídio da oposição política iraniana. Trata-se de um genocídio contemporâneo cujos autores permanecem no poder sem contestação pela comunidade internacional – o que lhes permite prosseguir a repressão, o terrorismo, a conquista e a desestabilização, tanto no país como na região e noutras partes do mundo.

O jihadismo, sob diferentes marcas e promovido por vários Estados continuou, durante todos estes anos, a devastar o mundo – no Médio Oriente e no Saara, na África Central e Oriental, na América, Europa e Ásia.

Com um profundo simbolismo, quando se assinala o vigésimo aniversário do onze de setembro, a Jihad fez o seu regresso total ao mesmo país onde o onze de setembro foi originalmente planeado e pensado. É um insulto à memória de todos aqueles que caíram, e a perseguição e escravização daqueles que a enfrentaram.

Vinte anos após o crime, os mesmos talibã que albergaram a Al-Qaeda estão de volta ao controlo total! O primeiro-ministro do país que criou, financiou, armou e dirigiu os talibã – e protegeu Osama bin Laden até ao dia da sua aniquilação – reivindicou em 16 de agosto a quebra das “correntes da escravatura”  na conquista do Afeganistão pelas suas milícias.

É fácil olhar apenas para a superfície e focarmo-nos apenas nos políticos responsáveis pelo desastre em curso – um desastre que simultaneamente não presta homenagem à memória dos mortos, não consegue assegurar os direitos dos vivos, e não salvaguarda quaisquer perspectivas de paz e liberdade.

Esta calamidade é a consequência da incapacidade de compreender, e portanto de lutar eficazmente, contra a ideologia maléfica da Jihad. Pior ainda é a incapacidade de impedir que este mesmo inimigo se infiltre e parasite o processo de decisão ocidental ao ponto de a realidade ser inteiramente truncada.

No entanto, o relatório da Comissão do ‘9/11’, tornado público em 2004 – sobre análise anteriormente disponível pelos decisores – já tinha estabelecido as conclusões cruciais que, contudo, foram inteiramente invertidos no processo de decisão política.

A teocracia iraniana, não o Iraque de Saddam, desempenhou um papel fundamental no 11 de Setembro, mas o Iraque foi o país invadido – e oferecido ao expansionismo iraniano. O Paquistão era e continua a ser o pilar mais importante dos talibã, mas tornou-se o principal aliado da ‘guerra ao terrorismo’, reimpondo, naturalmente, os talibã no poder. Igualmente importante, estabeleceu-se que a Arábia Saudita foi profundamente infiltrada pelo jihadismo a todos os níveis, começando por círculos clericais, e no entanto o príncipe reformador que tentou reverter a situação é minado e ameaçado ser substituído por esses mesmos jihadistas.

Vinte anos depois do original assassínio em massa, o nosso mundo revelou-se incapaz de punir os culpados – e em grande parte recompensa-os pelo seu crime.

A queda de Cabul às mãos de monstros jihadistas é a prova dolorosa de que não tirámos as devidas lições do onze de setembro.

É urgente refletir em conjunto sobre a razão de as coisas terem corrido desta forma para nos prepararmos para o contra-ataque às ideologias totalitárias, em defesa da liberdade e dos valores humanos.

Precisamos de controlar o poder ilimitado do dinheiro, que permite que os inimigos da democracia penetrem e pervertam as nossas instituições. Temos de romper com o novo puritanismo que imita o jihadismo. Temos de superar a cultura da histeria que inibe a razão e a reflexão.

Precisamos de pessoas corajosas e motivadas dispostas a lutar para que nós e os nossos descendentes possamos marcar futuros aniversários do onze de setembro com mais razões para olhar para os sucessos do que para constatar o desastre repetido.

Termino agradecendo aos organizadores do evento, em particular Manel Msalmi, o convite para tomar a palavra nestas celebrações.

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