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João de Sousa

Sábado, Novembro 27, 2021

O “admirável mundo novo” das supostas “cripto-moedas”

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Enquanto os nossos dirigentes se preocupam em assegurar a boa fortuna de quem resolveu investir nas companhias chinesas, menosprezando a defesa dos direitos humanos e a defesa contra a agressão externa, seria bom que se preocupassem antes em seguir os exemplos de gestão que decorrem do bom senso e prevenissem os sistemas que propiciam a eclosão do ‘Admirável Mundo Novo’ retratado por Aldous Huxley e que é algo de bem diferente do que nos é dado por Christine Lagarde.

  1. Christine Lagarde

A maior surpresa que me deixou o célebre filme de Costas-Gravas, que retrata a saga de Varoufakis pelas finanças gregas, foi a de ver Christine Lagarde no papel de heroína, a quem é mesmo atribuída a frase que dá o nome ao filme: ‘Será que há ainda adultos na sala?’

Christine Lagarde, que não conheço pessoalmente, não me tinha deixado uma grande impressão durante a crise financeira de 2008-2011. Sendo contemporânea da desastrosa gestão monetária do Banco Central Europeu pelo seu compatriota Jean Claude Trichet, sempre a associei a essa gestão, o que porventura me terá induzido em erro, a crer na apreciação de Varoufakis, cuja análise tem sobre a minha a vantagem de ser da autoria de quem presenciou as célebres reuniões do ECOFIN onde a referida frase terá sido proferida.

Publiquei recentemente no boletim da ACMA, a associação asiática de gestão do dinheiro, uma análise sobre a forma como os analistas financeiros inverteram a mensagem original do célebre romance de Aldous Huxley, na sequência de uma comunicação que Christine Lagarde, ainda enquanto directora do FMI, intitulou de ‘Bancos centrais e Fintech, um Admirável Mundo Novo?’.

Christine Lagarde tenta aí minimizar a profunda desumanização que Huxley (como de outra forma Orwell entre outros) vê na modernização, pintando primeiro o romance com o que parece serem mais os traços do ‘Metropolis’ de Fritz Lang do que do livro de Huxley (levantando-me mesmo a dúvida de saber se ela o leu) e terminando com uma citação de Miranda na ‘Tempestade’ de Shakespeare que duvido que ela tenha percebido, porque o que ela descreve como optimismo, é na verdade ingenuidade juvenil retratada pela ironia de Shakespeare.

E o problema é que o discurso deixou marcas, passando grande parte da literatura a falar do ‘Admirável Mundo Novo’ monetário como algo diferente do pesadelo de Huxley aplicado à esfera do dinheiro, quando, como procuro explicar no artigo que cito, o pesadelo pode vir a revelar-se como tão ou mais negro que o original de Huxley.

Mas, deixando de lado a crítica literária, tive o ‘meu momento Varoufakis’ quando vi durante uma semana na página de entrada do Banco Central Europeu uma entrevista dada por Lagarde à Bloomberg em que esta, fazendo a distinção entre as chamadas ‘stable coins’ (que são uma actividade financeira não regulada) e as ‘cripto moedas’ (cripto currencies) esclarecia que estas últimas são ‘suspeitas’ e que não são ‘currencies’.

Aqui, é essencial fazer uma pausa linguística. Em inglês, como explica a Enciclopédia Britânica, há uma distinção entre ‘currency’ que é uma moeda com valor reconhecido oficialmente, e a simples moeda, conceito bastante mais vasto que prescinde desse reconhecimento oficial, e que na verdade pode assumir as mais variadas expressões. É uma distinção que não existe na língua portuguesa e que, por exemplo, a Investopédia apaga erradamente na língua inglesa.

E o que Lagarde nos diz é simples e essencial: as ‘cripto currencies’ não são ‘currencies’ como apregoam e são ‘suspeitas’, forma diplomática mas clara que deveria ser suficiente para qualquer pessoa de bem se manter afastado delas.

Esta entrevista de Christine Lagarde veio mostrar que, apesar de tudo, há ‘adultos na sala’, mas, mesmo esses, são silenciados pela máquina de desinformação que gere o nosso mundo, dado que a entrevista não deixou rasto visível.

  1. Do investidor canarino ao investidor dos fundos públicos portugueses

Conduzia eu este Verão pela costa ocidental da ilha de La Palma rumo a Sul, por onde escorrem agora rios de lava, quando dei boleia a um jovem com uma prancha de ‘body board’. Começada a conversa o jovem apresentou-se como húngaro, habitando há seis meses na ilha sem residência fixa, explicando como o clima clemente lhe permitia dormir ao relento.

E quanto a actividade, explicou-me então que era investidor em cripto-moedas, começando imediatamente com o mesmo sermão publicitário com que somos constantemente bombardeados pela máquina das empresas tecnológicas quer nas redes sociais quer nas redes de informação, e que reaparece com pouco ou nenhum sentido crítico na imprensa institucional (que noutras épocas foi mesmo conhecida como quarto poder).

E achei na verdade extraordinário que a mesma cassete – que escuto em quase todo o lado de gente mais ou menos próxima entre família ou amigos e de todas as latitudes e longitudes – tivesse conseguido uma tal aceitação universal quando repousa em vigarices grosseiras e quer fazer passar por dinheiro o que não tem qualquer valor intrínseco.

Mesmo assim, confesso que não estava preparado para ver com grandes parangonas na nossa ‘tecnológica’ nacional (a SAPO) uma entrevista com o ‘Secretário de Estado para a Transição Digital’ com o título: ‘Governo quer apostar no mercado das criptomoedas e sem “regulação conservadora”, anuncia Aragão de Azevedo’.

A entrevista é o habitual cocktail de jargão pseudo-tecnológico com palavras inglesas despropositadamente inseridas numa arquitectura de mau português onde nada se diz e tudo se sugere.

Que haja um membro do Governo português – para não deixar dúvidas, ele fala em nome do Governo – que anuncie que vai caucionar a colocação de um montante ainda não determinado de fundos públicos e nomeadamente do ‘Banco de Fomento’ em projectos que não têm qualquer espécie de credibilidade e que são aparentados ao envolvimento de fundos públicos em ‘cripto moedas’ é escandaloso.

Que ninguém, tanto quanto eu tenha visto, do Ministério das Finanças ao Banco de Portugal, passando pelo Ministério Público, para não falar desse ‘quarto poder’, que tenha actuado perante o que é o anúncio de desvio de fundos públicos para actividades incompatíveis com o interesse público e que por tabela é mais um incentivo para que a população portuguesa sustente essa actividade que o Banco Central Europeu classificou de suspeita, é a prova de que nada se aprendeu em Portugal sobre a necessidade de gerir honesta e eficazmente o dinheiro de que os cidadãos portugueses confiaram aos seus eleitos a gestão.

  1. Negócios da China

O Partido Comunista da China, na última década, com a liderança neo-maoista de Xi, tem-se multiplicado em agressões e violações aos direitos humanos, desenvolvendo um genocídio das populações autóctones do Turquestão Oriental e invadindo os mares e as fronteiras de países fronteiriços, ameaçando agora a ilha Formosa de invasão, como consequência do abandono americano das posições que tinha no Afeganistão, país fronteiriço da China.

Posto isto, algumas das medidas tomadas pela liderança chinesa parecem-me de um elementar bom senso e só é surpreendente que não tenham sido tomadas medidas equivalentes no Ocidente.

Entre estas, estou a pensar sobre a forte limitação do poder das grandes empresas tecnológicas chinesas e, claro, em primeiro lugar, a projecção dessas empresas como entidades criadoras de moeda, bem como a proibição da moeda desprovida de qualquer valor intrínseco apelidada de cripto-moeda.

Mesmo noutros campos, como o da limitação da lógica inflacionária dos gigantes imobiliários chineses – e aqui, convém ter presente que, de acordo com uma estimativa feita no princípio deste ano, o mercado chinês de construção imobiliária é cinco vezes maior do que o mercado norte-americano e europeu combinados – duvido que o Ocidente tenha lições a dar, e creio que as declarações do secretário Blinken são despropositadas.

Não creio que haja soluções mágicas e indolores para limitar os efeitos do capitalismo, mas a diplomacia de um país que há pouco mais de uma década levou o mundo a uma catástrofe financeira a partir da sua incapacidade para regular o seu mercado imobiliário deveria naturalmente ter algum cuidado em dar lições a terceiros nesta matéria.

O que as declarações de Blinken confirmam é que a administração americana está mais preocupada com os riscos corridos por quem investiu na China do que com os direitos humanos dos seus cidadãos ou dos cidadãos do resto do mundo.

Tudo isto é importante para chegarmos ao ponto que é crucial neste debate monetário global: é para mim claro que a proibição chinesa das cripto-moedas é acertada, mas não é garantia de que possamos fazer confiança ao modelo monetário preconizado pelas autoridades chinesas para o aplicarmos entre nós, como se pode depreender de algumas declarações públicas de Christine Lagarde.

Qualquer pretendente ao controlo mafioso de um território tem como primeira preocupação a de eliminar a concorrência, ou seja, o chefe de uma quadrilha que quer controlar o tráfico de droga numa cidade começa por submeter ou eliminar os traficantes de droga na cidade que não fazem parte da sua rede. Isto não faz naturalmente do chefe da mafia um bom cidadão.

O problema da aplicação do modelo chinês entre nós tão pouco é a eliminação da banca tradicional, banca que eu penso que deixou de ter sentido. A questão é que esse modelo, eliminando a moeda física, implica que todo o nosso dinheiro passará a estar na mão de uma autoridade central e que toda a decisão de despesa passará a ser passível de ser aprovada ou não por essa mesma autoridade que ocupa plenamente o papel de Grande Irmão!

Enquanto os nossos dirigentes se preocupam em assegurar a boa fortuna de quem resolveu investir nas companhias chinesas, menosprezando a defesa dos direitos humanos e a defesa contra a agressão externa, seria bom que se preocupassem antes em seguir os exemplos de gestão que decorrem do bom senso e prevenissem os sistemas que propiciam a eclosão do ‘Admirável Mundo Novo’ retratado por Aldous Huxley e que é algo de bem diferente do que nos é dado por Christine Lagarde.

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