Diário
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João de Sousa

Sábado, Janeiro 22, 2022

O apelo de Samarcanda

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Palco e resultado de múltiplas disputas imperiais ao longo dos tempos, o Afeganistão chegou ao nosso século como um Estado Islâmico, dominado por um grupo criado no Paquistão, os talibã, que, entre outras coisas, abrigou o comando da Al Qaeda responsável pelo 11 de Setembro.

A comunidade internacional, e nomeadamente as suas principais potências, nunca entenderam a necessidade de encarar o Jihadismo moderno como uma ideologia com ambições planetárias contrárias aos seus mais elementares interesses.

O 11 de Setembro levou a que a NATO accionasse pela primeira vez o seu artigo 5.° (assistência militar a um aliado sob ataque) e a afastar os talibã de Cabul, mas foi incapaz de levar ao entendimento da dimensão dos erros que o Ocidente tinha cometido no passado e em consequência, alterar a sua estratégia.

Em frontal oposição ao relatório nacional do 11 de Setembro, que tinha determinado que o Iraque nada tinha a ver com o 11 de Setembro e desaconselhando frontalmente qualquer operação militar contra esse país, os EUA invadiram o Iraque e apoiaram antes os dois principais países que abrigaram a Al Qaeda e o jihadismo afegão (o Irão e o Paquistão), em vez de os responsabilizarem pelos seus actos.

Este desastre estratégico nunca seria possível de compensar pela pura força das armas no dificílimo terreno afegão e foi acompanhado no essencial por todo o Ocidente, e em primeiro lugar pela Alemanha, que procurou através do Afeganistão recuperar um lugar cimeiro na diplomacia internacional sem nunca ter uma visão à altura das suas ambições.

O Ocidente, julgou mais fácil utilizar os grupos armados – jihadistas na sua maior parte – que tinham rivalizado com os talibã como ossatura de um novo Afeganistão em vez de começar pela base, e criou assim um Estado que nunca foi funcional e capaz de se opor ao jihadismo talibã.

Quase duas décadas depois, os afegãos estão naturalmente cansados, não acreditam na capacidade da comunidade internacional e das autoridades para conseguir a normalização e querem tentar a paz sem dar o poder ao fanatismo islâmico, tentativa que de resto fizeram já nos anos noventa com desastrosos resultados.

A Rússia e a China estão mais preocupados em fazer desaparecer a influência ocidental do Afeganistão do que em combater o jihadismo. A China tem desse ponto de vista uma política deveras peculiar. Baseada na brutal erradicação de qualquer símbolo religioso da sua maior comunidade muçulmana, a Uyghur, achando no entanto perfeitamente normal dar o poder a esse mesmo jihadismo do outro lado da fronteira, pressupostamente confiando na inviolabilidade da sua muralha ditatorial.

Os EUA, com Obama, tinham já querido sair do Afeganistão a qualquer preço, e só não o fizeram porque Obama sempre teve o cuidado de não hostilizar os poderes fáticos em presença, preocupação que não é a do seu sucessor, que se guia aqui exclusivamente pelo calendário eleitoral e pouco liga aos poderes fáticos.

Foi assim que se chegou à cimeira de Doha de 7 de Julho. Apadrinhada pelo Emir do Qatar – capital da grande família da Irmandade Muçulmana – com a cooperação da diplomacia alemã, a cimeira ‘intra-afegã’ foi apoiada pela troika dos EUA, da Rússia e da China, e contou com o convidado surpresa do ‘Paquistão’, que sendo o principal fautor da guerra afegã foi promovido uma vez mais a principal instrumento da paz.

Na cimeira, os representantes das autoridades de Cabul tiveram de se auto-deslegitimar apresentando-se apenas como indivíduos e não como governantes e terminou com conclusões diferentes nos pontos essenciais nas diferentes versões linguísticas (eleições, direitos das mulheres, substituição das autoridades por comissões de transição).

Vendida intensamente como um grande sucesso pela máquina de propaganda da Irmandade Muçulmana – para além do seu canal oficioso, Al Jazeera, as redes sociais foram bombardeadas por uma intensa campanha qatari sobre o seu sucesso – o encontro serviu apenas para diluir o que resta da legitimidade das autoridades e adocicar a imagem dos fanáticos jihadistas para ocidental ver.

A confrangedora nulidade da diplomacia alemã não é um caso isolado e apenas se pode compreender pela profunda letargia da opinião pública ocidental que deixou planar a ficção de que estaríamos perto de encontrar uma solução para o Afeganistão, falando mesmo na continuação a breve trecho ‘na Europa’ da reunião de 7 de Julho (não ficaria surpreendido se se voltasse a Bona).

No meio de tudo isto, a diplomacia uzbeque, empenhada num dos inúmeros processos diplomáticos de ‘paz para o Afeganistão’ lembrou a sua disponibilidade para uma cimeira em Samarcanda, tendo a semana passada desencadeado algumas iniciativas diplomáticas, que passaram por Bruxelas e envolveram a diplomacia afegã.

Pela minha parte, sendo responsável pelo grupo de reflexão que mais actuante se tem mostrado no debate do cenário afegão, (SADF, Fórum democrático da Ásia do Sul) tenho exercido a minha escassa margem de manobra para manter o Uzbequistão em particular e a Ásia Central em geral no centro do diálogo afegão.

As razões são várias, mas há uma mais importante do que qualquer outra: ninguém melhor que o Uzbequistão compreendeu os efeitos em cadeia que um renovado Emirato afegão poderá ter sobre as frágeis construções políticas da região.

Por enquanto, contudo, não vejo condições para que a iniciativa diplomática centrada em Samarcanda possa vir a resultar.


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