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João de Sousa

Terça-feira, Junho 22, 2021

O combate sistêmico ao racismo

O combate ao racismo no Brasil tem sentido estrutural. A violência que atinge principalmente a juventude negra, como ocorreu recentemente em Jacarezinho (Rio de janeiro), no caso das mortes em Salvador decorrente das prisões no supermercado Atakarejo e numa loja Carrefour no Rio Grande Sul, traduz uma grave situação de exclusão social.

O movimento antirracista tem jogado um papel destacado nas conquistas obtidas historicamente e no combate aos retrocessos. Houve avanços com a Lei de Cotas nas universidades, que completa dez anos em 2022 e que precisa ser prorrogada. Segundo José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, em quase dez anos as cotas aumentaram a presença de estudantes negros nas universidades de 3% para 17%. Mas é inegável que o momento é de retrocesso brutal.

A luta antirracista é atual e necessária para corrigir as graves distorções que ainda persistem no Brasil. Mas é preciso entendê-la no âmbito histórico e social. Como dizem os militantes da luta antirracista, além dos historiadores e antropólogos, as antigas raízes escravistas continuam crescendo e, por isso mesmo, o combate deve ser sistêmico.

As razões para essa constatação estão no fato de que no Brasil o modo de produção baseado no escravismo foi oficialmente abolido, o sistema político passou de monarquia a república, o país trocou o campo pela cidade e a lavoura pela fábrica, mas a opressão de classe continua forte.

O Brasil tem a particularidade de ser um país em que as oligarquias escravistas seguiram como personagens política e econômica, mesmo com o surgimento da indústria e do comércio. São classes dominantes que continuam exercendo a apropriação de modo cruelmente desigual, uma anomalia no Estado Democrático de Direito. Exercem poderes autoritários de um sistema que manteve a escravidão até às portas do século XX.

Esse perverso padrão de distribuição de renda, tutelado pelo poder político oligárquico e herdeiro das tradições escravistas, manifesta-se, basicamente, por três mecanismos: a transferência de renda do setor público para o setor privado, a transferência de renda dos salários para lucros e juros e a transferência de renda de dentro para fora do país. Às custas de uma imensa exclusão social, são classes dominantes que sempre viveram sob a proteção do Estado, de modo fisiológico e clientelista.

Com raras exceções, o Estado sempre foi dominado de forma autoritária por essas forças para garantir a sobrevivência da estrutura oligárquica. Enfrentar essa ordem é um desafio que legou muitos mártires da causa do povo, e que continua na ordem do dia. Apesar de muitos avanços, é preciso constatar que os retrocessos recentes, com a ascensão da extrema direita ao poder por meio do bolsonarismo, são de dimensões ainda incalculáveis.


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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