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Quarta-feira, Julho 6, 2022

O confinamento nunca existiu?

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

O senhor Presidente da República – e chefe supremo das forças armadas – não nos informou ainda se o estado de guerra contra um vírus que decretou em Março de 2020 permanece ou não, e nem por estarmos confrontados com uma guerra real do outro lado do Continente podemos dar menos importância à anterior por uma razão essencial: porque ambas se travam essencialmente no mesmo plano da informação e da desinformação e que a derrota na primeira não deixará de ter consequências na segunda.

Depois de mais de dois anos de guerra, o covidismo continua sem esclarecer questões elementares como (1) porquê, como e onde começou a pandemia e (2) qual o balanço a fazer de um ano de vacinação que foi provisoriamente autorizado pelas autoridades sanitárias; mas também aquela que primeiro suscitei: (3) se a cópia do modelo chinês de ‘utilização intransigente e rigorosa de medidas não farmacêuticas’ era sanitária e politicamente justificável.

Quando da recente divulgação na imprensa ocidental da resistência que mesmo nas principais cidades da China o confinamento começa a encontrar, comentei nas redes sociais que era tempo de nos questionarmos sobre a forma como o Ocidente aplicou acriticamente a receita chinesa. Constatei com espanto um coro indignado de reacções a que se ousasse colocar a questão, umas a negar que o Ocidente tivesse copiado o modelo chinês, sem oferecer qualquer facto para sustentar o que diziam, outras a entrar no registo da incivilidade, sem tocar na questão em debate.

Ou seja, não estamos sequer no estado de poder discutir racionalmente do acerto da cópia do modelo chinês, mas tão só da negação de que foi isso que foi feito. Sem sequer nos entendermos sobre uma matéria que deveria ser consensual é difícil ou impossível discutir racionalmente o que quer que seja.

Para se poder falar racionalmente da questão, convém por isso começar por relembrar que as primeiras notícias sobre a pandemia datam de 31 Dezembro de 2019, quando as autoridades de Taiwan alertaram a Organização Mundial de Saúde e as autoridades da China para a existência de uma epidemia de um novo vírus em Wuhan, na China e bloquearam os voos procedentes desta cidade para evitar a importação do germe.

Sabe-se hoje que a pandemia já tinha chegado à Europa pelo menos em novembro de 2019 e que as autoridades chinesas censuraram as notícias e sancionaram os médicos que lançaram os alertas, tendo as autoridades taiwanesas percebido o que se passava através das redes sociais.

A 17 de janeiro de 2020, o Centro Europeu para a Prevenção e Controlo da Doença (ECDC) dava ainda crédito à informação difundida pelas autoridades chinesas de que não havia provas de que se tratasse de um vírus transmissível entre humanos, tomando como boa a tese de que a origem da doença estaria num mercado de Wuhan onde se vendiam animais exóticos. Só a 22 de janeiro de 2020 a ECDC acabou por reconhecer que se tratava de uma doença transmissível entre humanos, seguindo assim a informação disponibilizada pelas autoridades chinesas através da Organização Mundial de Saúde (OMS). A pandemia seria só declarada pela OMS a 11 de março de 2020.

Nem então nem até hoje a OMS deu qualquer explicação aceitável sobre as razões pelas quais ignorou os alertas recebidos, seguiu acriticamente toda a informação vinda das autoridades chinesas, e nunca tomou qualquer ação para prevenir as consequências da censura e desinformação na prevenção da pandemia.

Deste período inicial de negação da pandemia, sem nunca dar resposta às questões colocadas por esse negacionismo, saltou-se para a felicitação das autoridades chinesas pelo sucesso alcançado na luta contra a epidemia (que supostamente não existia, pouco mais de um mês antes) em relatório publicado conjuntamente pela OMS e pelas autoridades chinesas a 24 de fevereiro de 2020.

O relatório diz-nos que a 20 de janeiro de 2022 já estavam identificados na China mais de 75000 casos de Covid, mas não explica como um reconhecimento de um número tão grande de casos era compatível com a negação internacional da existência de uma epidemia altamente contagiosa.

De forma igualmente surpreendente, neste período de aproximadamente um mês, que mediou entre o reconhecimento da transmissibilidade humana de um novo vírus e esta publicação, concluiu-se que:

  1. Em face de um vírus anteriormente desconhecido, a China lançou talvez o mais ambicioso, ágil e agressivo esforço de contenção de doenças na história. (…)
  2. A abordagem arrojada da China para conter a rápida propagação deste novo agente patogénico respiratório mudou o curso de uma epidemia mortal em rápido desenvolvimento. (…)
  3. A China já está, e com razão, a trabalhar para reforçar a sua economia, reabrir as suas escolas e voltar a uma aparência mais normal da sua sociedade, mesmo que esteja ainda a trabalhar para conter as restantes cadeias de transmissão do COVID-19. De forma adequada, está a ser adotada uma abordagem informada e faseada, baseada na ciência, com um claro reconhecimento e preparação para a necessidade de reagir imediatamente a quaisquer novos casos ou focos de COVID-1, enquanto os elementos-chave da estratégia de contenção são levantados.’

Ou seja, a 24 de fevereiro de 2020, a ‘estratégia de contenção’ (a expressão confinamento nunca é utilizada, na lógica da linguagem política ou socialmente correcta) é já apresentada em tons hiperbólicos como um sucesso histórico de tal forma estrondoso que se assiste já ao regresso à normalidade.

Este ‘milagre’, apresentado no estilo de hagiografia maoísta, vai ser martelado até à exaustão como forma de pressão para a ‘utilização intransigente e rigorosa de medidas não farmacêuticas’ e é o modelo para o modelo de confinamento que foi copiado no mundo inteiro.

Nenhuma das cópias é igual ao original porque em lado nenhum do mundo democrático existe um regime totalitário capaz de aplicar o modelo em conformidade com o original, mas é no exemplo chinês proposto pela OMS em parceria com a China que os modelos de confinamento e profundas restrições políticas se vão impor.

Para além do milagre do confinamento, o modelo apontava também inquestionavelmente para a necessidade de outro milagre: o das vacinas! Ainda de acordo com o mesmo relatório conjunto da OMS e das autoridades chinesas:

‘Dado os danos que podem ser causados pela transmissão incontrolada no interior das comunidades deste vírus, tal abordagem é justificada para salvar vidas e para ganhar as semanas e meses necessários para o teste da terapêutica e do desenvolvimento da vacina.’ (p.16, op. cit.)

A utilização de meios excepcionais, de que apenas implicitamente se reconhecem custos, e que supostamente teria conduzido ao sucesso chinês, seria apenas para vigorar num hiato ‘de semanas ou meses’ até que a vacina viesse definitivamente ultrapassar o problema.

A fé deste relatório nas vacinas ‘em semanas ou meses’ é tão surpreendente quanto o é a fé nos resultados do brutal confinamento chinês, e esse é uma parte não menos importante da história que deixaremos para uma próxima oportunidade.

Em ambos os casos, temos a lógica da histeria colectiva que justifica primeiro a ausência de reflexão e de debate, e depois, porque se trata de ‘salvar vidas’, a censura e a desinformação quando não a falsificação descarada.

Como os verdadeiros especialistas (a palavra tomou hoje um sentido quase pejorativo, tal o abuso que dela foi feita, mas apesar disso, os especialistas existem) previram desde o primeiro momento, as soluções salvíficas e milagrosas que nos foram prometidas revelaram-se um embuste.

A forma segura de perder uma guerra como esta é a de agir na histeria permanente, saltar etapas, apagar responsabilidades, impor a censura e o assassínio de carácter a quem tenha opiniões divergentes, aceitar conflitos de interesses e esquecer a globalidade das questões em jogo. Para terminar, apagar a derrota, apagando os palcos de batalha em que a guerra foi travada. Em síntese, é fazer o que fizemos nos dois anos passados, e pelos vistos, continuaremos a fazer, a avaliar pela negação do confinamento como modelo importado da China e aplicado entre nós.

Sem prejuízo de entender as razões que nos levaram a enfrentar mais um vírus altamente contagioso, de enorme capacidade evolutiva e de enorme perigo para a saúde pública, a única forma de fazer face a esse acontecimento é o conhecimento, a experiência, o livre debate assente na transparência dos motivos e interesses, no respeito pelo próximo, recusar a manipulação, a desinformação e o conspirativismo maniqueísta.

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