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Segunda-feira, Julho 15, 2024

“O Corno” – a ‘Concha de Ouro’ para um filme muito galego e muito português, realizado pela ‘donostiarra’ Jaione Camborda

José M. Bastos
José M. Bastos
Crítico de cinema

Jaione Camborda é uma cineasta de 40 anos, nascida em San Sebastián / Donostia, filha de pai basco e mãe catalã, e que reside na Galiza.

Depois da curta-metragem “Rapa das Bestas” (2017) e da longa “Arima” (2019), realizou este ano “O Corno” e viu o seu filme ser seleccionado para a secção oficial do festival da sua cidade natal.

“O Corno” é um filme de mulheres, sobre a vida das mulheres, o seu trabalho, os seus problemas e os seus dramas. A acção de corre na Ilha de Arousa, na província de Pontevedra, no início dos anos 70 do século passado, os últimos anos do franquismo. O espectador pode seguir a actividade de uma mulher, o seu labor como mariscadora ou trabalhando no campo, mas também na ajuda a outras mulheres nos seus partos ou nos seus abortos. A trama, desenvolvida com uma fluência narrativa assinalável, leva María, assim se chama a personagem interpretada pela excelente Janet Novás (bailarina e criadora galega), a ter que fugir clandestinamente para Portugal através das rotas do contrabando. Algumas das cenas passam-se em águas e terras de Caminha e de Vila Nova de Cerveira e aqui chegados é tempo de falar na participação portuguesa na produção, assegurada por Bando à Parte /Rodrigo Areias que, a partir de Guimarães tem vindo a desenvolver um dos principais focos de produção cinematográfica em Portugal. A fotografia, excelente, é de Rui Poças (dei por mim a pensar no Affonso Beato em ‘Cinco Dias, Cinco Noites) e como intérpretes encontramos vários portugueses (Nuno Sá, Filomena Gigante, …).

A produtora ‘Bando à Parte’ fica assim associada a uma Concha de Ouro de San Sebastián, a quarta consecutiva conquistada por uma mulher e a primeira por uma cineasta espanhola.

E Jaione Camborda só não não é a primeira pessoa ‘donostiarra’ a ganhar a Concha de Ouro porque, há precisamente 50 anos, Víctor Erice conseguiu-o com “O Espírito da Colmeia”. O mesmo Víctor Erice que agora nos deslumbrou com “Cerrar los Ojos” exibido no âmbito do Prémio Donostia que lhe foi atribuído nesta edição do Zinemaldia.

Entretando aqui fica o registo dos restantes prémios da secção oficial atribuídos por um júri formado pela cineasta Claire Denis, pela actriz Fan Bingbing, a produtora Cristina Gallego, a fotógrafa Brigitte Lacombe, o produtor Robert Lantos, a actriz Vicky Luengo e o realizador Christian Petzold:

  • Concha de Prata para a melhor realização a Tzu-Hui Peng e Ping-Wen Wang por ”Chun xing” / A Journey in Spring (Taiwán);
  • Prémio para o melhor guião para María Alché e Benjamín Naishtat por “Puan” (Argentina-Itália-Alemanha-França-Brasil), longa-metragem dirigida por ambos;
  • Concha de Prata para a melhor interpretação, ex aequo, para Marcelo Subiotto em “Puan”e Tatsuya Fuji em “Great Absence” de Kei Chika-ura (Japão);
  • Concha de Prata para a melhor interpretação secundária para Hovik Keuchkerian pelo seu personagem em “Un amor”, de Isabel Coixet (Espanha).

Dirigida por Isabella Eklöf, ”Kalak” (Dinamarca-Suécia-Noruega-Finlândia-Gronelândia-Países Baixos) obteve o Prémio para a melhor fotografia (Nadim Carlsen) como o Prémio Especial do Júri.

 

Outros prémios oficiais

Nos outros títulos do palmarés, várias presenças de autores argentinos e indianos, filmes que competiram e foram premiados em Veneza e Cannes e uma co-produção com participação portuguesa.

Eis a lista dos prémios:

  • Prémio ‘Novos Directores’:Bahadur The Brave”, da realizadora indiana Diwa Shah;
  • Prémio ‘Horizontes’:El castillo”, primeira longa-metragem do argentino Martín Benchimol;
  • Prémio ‘Zabaltegi/Tabakalera’:El auge del humano 3”, do argentino Eduarado Williams. Esta é uma co-produção Argentina-Portugal-Países Baixos-Taiwán-Brasil-Hong Kong-Perú. O filme esteve na competição de Locarno e a parte portuguesa da produção é da Oublaum Flmes.
  • Menção Especial da secção ‘Zabaltegi/Tabakalera’: “El juicio”, de Ulises de la Orden, outro realizador argentino.
  • Prémio ‘Nest’:Amma ki katha”, de Nehal Vyas (Índia),
  • Menção especial ‘Nest’:Entre les autres” de Marie Falys (Bélgica);
  • Prémio do Público – Cidade de Donostia / San Sebastián: “La sociedad de la nieve” de J.A. Bayona (Espanha), filme que encerrou o recente Festival de Veneza;
  • Prémio do Público para um filme europeu: “Io, Capitano” de Matteo Garrone (Itália), Leão de Prata da Mostra de Veneza para o melhor director e prémio Marcello Mastroianni para o jovem actor Seydou Sarr;
  • Prémio Irizar para o cinema basco:El sueño de la sultana”, estreia na longa-metragem da realizadora de animação Isabel Herguera;
  • Prémio da Juventude: “La Estrella Azul” de Javier Macipe (Espanha-Argentina);
  • Prémio FIPRESCI: Fingernails” (Isto vai doer), filme norte-ameriacano do grego Christos Nikou que competiu na secção oficial.
  • Prémio da secção ‘Culinary Zinema”:La passion de Dodin Bouffant”, filme francês do vietnamita Tran Anh Hung, autor do inesquecível “O Odor da Papaia Verde” (1992). Neste seu novo trabalho, que participou na secção oficial do Festival de Cannes, o grande destaque vai para a interpretação de Juliette Binoche (Prémio Donostia em 2022) que mais uma vez esteve em San Sebastián. Uma presença que se vai tornando habitual.

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