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João de Sousa

Quinta-feira, Abril 18, 2024

O elefante no estúdio

Pedro Pereira Neto
Pedro Pereira Neto
Académico. Ensina comunicação e jornalismo.

Pedro Pereira NetoUma das dimensões simultaneamente mais interessantes e mais polémicas da actividade jornalística regular envolve a natureza do comentário especializado, instrumento de credibilização indirecta do trabalho jornalístico. Neste plano há duas realidades distintas no formato, mas que devem ser equacionadas no mesmo plano, em virtude de ambicionarem exactamente o mesmo efeito: o reforço da autoridade do argumento por ele apresentado.

A primeira realidade diz respeito ao especialista convidado a pronunciar-se sobre um determinado tema cuja presença na agenda mediática recomenda a natureza de excepcionalidade desse convite. Neste plano a regra é, cada vez mais, a opção pela chamada ‘prata da casa’, ou seja, por aquela ou aquele colega com trabalho de cobertura jornalística regular na área em que o tema se enquadra. Acontece, porém, que esta solução, defensável que possa ser no âmbito da gestão de recursos, quer humanos, quer financeiros, quer ainda de tempo, não o é necessariamente no âmbito do conhecimento aprofundado, cientificamente sustentado, e feito de escrutínio regular por pares qualificados: o conhecimento da/o primeira/o não é, com demasiada frequência, comparável ao daquelas e daqueles que fazem da investigação científica escrutinada a sua profissão. Existe, objectivamente, uma diferença entre cobrir uma área e fazer investigação científica sobre ela, sob pena de, por comparação, fazermos equivaler à regularidade de degustação de um prato a expertise de um chef.

A segunda realidade envolve a chamada frequente dos chamados comentadores, em relação aos quais se lança o habitual anátema de serem especialistas por… hábito. Na prática, significa isto que também ao nível do comentário residente a escolha recai frequentemente na conveniência da familiaridade, e não necessariamente na sustentabilidade do mérito. Em grande medida, o próprio estatuto com o qual tais comentadores são apresentados e a utilidade da sua opinião considerada é o do… comentário habitual das (introduzir aqui especificidade)-feiras.

À luz destas práticas, o que impressiona é a frequência deprimente com que as próprias redacções, estúdios e profissionais da classe reclamam para si um privilégio para exercício não-escrutinável dessas escolhas que regularmente criticam noutras e noutros. A chamada liberdade editorial, cuja defesa deve ser feita, não pode tornar-se um escudo de legitimidade duvidosa quando se furta aos mesmos mecanismos de validação que exige a terceiros. Mais: no momento em que, como nunca antes, é a formação académica a constituir-se como pilar da legitimidade profissional da classe, faz muito pouco sentido esta imunidade – e em alguns casos mesmo aversão – ao recurso àquelas e àqueles que, na mesma academia onde a formação jornalística considerada necessária é adquirida, deixam de ser válidos na sua qualidade de especialistas para avaliação aprofundada e sustentada dos temas do dia. Não é, pois, possível fazer a defesa da Academia para umas coisas e não para outras.

Importa, por isto, oferecer ao comentário a natureza especializada onde ela, no seu sentido mais avalizado, pode ser encontrada: nas universidades e nos politécnicos portugueses, entre cujas paredes desenvolvem trabalho meritório e de nível internacional demasiadas pessoas cujas vozes nunca têm oportunidade de chegar ao grande público. Importa, também, que o cumprimento do esclarecimento cívico ao qual os media se prestam e ao qual ambicionam seja feito com recurso às/aos melhores de entre nós, e não apenas aos que se encontram mais próximos, quer geográfica, quer profissionalmente.

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