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Sexta-feira, Outubro 22, 2021

O fim da economia de baixo custo?

Arnaldo Xarim
Economista

Será que a Covid-19 e a crise de oferta e procura gerada pelos bloqueios resultantes da sua rápida disseminação serão um golpe fatal para a economia de baixo custo que conhecemos actualmente?

Antes de mais, recorde-se que a noção de economia de baixo de custo não constitui uma novidade absoluta; embora então fosse denominada economia “barata”, foi dominante no século XIX e no território dos EUA quando usando a rede postal nacional as vendas por catálogo de produtos dispararam. O “barato”, como então se dizia, significava valor sólido para orçamentos limitados e não qualidade inferior ou má, como asseguravam as classes endinheiradas da época.

Datam da época os debates sobre o impacto de “salários reais versus nominais” no orçamento das famílias trabalhadoras, com os teóricos da “utilidade marginal” a ajustarem o conceito de valor para o menor dos preços que os consumidores estariam dispostos a pagar num mercado competitivo e os primeiros movimentos socialistas a forçarem a discussão sobre os benefícios e responsabilidades da redução dos horários de trabalho – que ficaria conhecido como o “movimento das oito horas” – para todos os trabalhadores.

Parece hoje inegável que a actual economia de baixo custo, baseada na deslocalização da produção e na generalização da práctica de baixos salários para esmagar os custos de produção e assim reduzir o preço dos bens e serviços oferecidos, foi estendida à maioria dos sectores do mercado global e tem sido um motor do crescimento global nas últimas décadas, embora esta manipulação dos custos de produção contribua para a concentração da oferta e se mostre mais orientada para a quantidade de bens e serviços oferecidos, que para a sua qualidade.

Há, porém, quem defenda que o fascínio do baixo custo oferecido pelas economias emergentes – como a da China, da Índia ou da Europa Oriental – para as empresas ocidentais é exagerado uma vez que seja tida em consideração a escassa produtividade dos seus trabalhadores. Isto talvez possa ter sido verdade no início do processo de deslocalização, quando o efeito dos baixos custos salariais era compensado por uma menor produtividade (dados de 2002 asseguravam que se os custos salariais no México representavam 11% do nível médio na vizinha economia norte-americana, também a produtividade era 10 vezes inferior, mas na época também se assegurava que mesmo contabilizando uma menor produtividade, os custos unitários do trabalho na Índia e na China eram em média 80% mais baixos do que nos EUA) ou quando até membros da UE, mais recentes e mais pobres, como a República Checa, a Hungria e a Polónia, terão visto a sua vantagem comparativa diminuir à medida que os salários aumentaram mais rapidamente do que a produtividade dos seus trabalhadores (no início do século os trabalhadores da indústria, na Polónia, ganhavam cerca de 13% do salário médio dos EUA, mas seus custos unitários de trabalho eram muito mais altos), mas uma geração depois a transferência de tecnologia e uma forte aposta na formação alteraram esta relação e não foi seguramente em benefício do factor trabalho, porque se o tivesse sido rapidamente os capitais ocidentais tinham refeito rumo a outras paragens.

A Covid-19 desempenha um papel na aceleração de várias tendências que principalmente na velha Europa vão contra este modelo, dando lugar a um crescente desejo de uma maior soberania económica (relocalização que implica um óbvio aumento nos custos de produção) e a uma maior preocupação com um consumo mais amigo do ambiente e socialmente responsável, mesmo se o anunciado respeito pelo meio ambiente e pelos trabalhadores não passe, afinal, de um argumento de marketing e uma justificação para um aumento de preços e lucros, ou para o aumento das desigualdades, alcançado mediante o favorecimento dos mercados de ponta ou através de uma redução do poder de compra das classes-alvo da economia barata. A par com esta tendência aponta-se como desenvolvimento a intenção de investimento na robotização e digitalização das economias, tendência que podendo determinar um novo factor diferenciador vai contribuir quer para um aumento da remuneração do factor capital quer para uma menor criação de emprego nas economias mais desenvolvidas, logo para o agravamento da enorme assimetria na distribuição do rendimento que hoje conhecemos.

A substituição do modelo da economia de baixo custo – produção em massa baseada em factores de produção (energia e mão-de-obra) baratos – não tem obrigatoriamente de continuar a traduzir-se no acumular de ganhos dos que muito lucram com ela e ainda menos de reproduzir os seus modelos de organização competitiva do trabalho, em detrimento de modelos mais cooperativos e conviviais, e de predação social.

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