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Terça-feira, Novembro 30, 2021

O massacre do Memorial Day nas pequenas empresas de aço em Chicago, 1937

Sul de Chicago, Dia Memorial de 1937: Mollie West estava lá com um grupo de veteranos do ensino médio. Curtis Strong simplesmente estava lá. Aaron Cohen estava lá por causa das responsabilidades atribuídas a ele pelo Partido Comunista. “Lá” era o campo em frente à fábrica Republic Steel, no Sul de Chicago, lugar do Massacre do Dia Memorial de 30 de maio de 1937.

Por Fred Gaboury (Peolple´s World)

Era o primeiro dia quente da primavera. Centenas de metalúrgicos, em greve contra pequenas empresas de aço (Little Steel, no termo em inglês), e apoiados por centenas de apoiadores, alguns vestidos com suas melhores roupas de domingo, vieram para afirmar o direito do Comitê Organizador dos Metalúrgicos (SWOC, na sigla em inglês) de estabelecer uma linha de piquete no portão da fábrica Republic Steel.

A linha nunca foi estabelecida. Antes do fim do dia, eles seriam atacados por um exército de policiais de Chicago empunhando armas e cassetetes. Dez homens seriam mortos ou mortalmente feridos, incontáveis outros severamente espancados e muitos temporariamente cegados por gás lacrimogêneo.

Mollie estava andando perto da frente do grupo quando os melhores de Chicago abriram fogo com gás lacrimogêneo e pistolas. “Eu comecei a correr e caí. Vários outros tropeçaram em cima de mim. Não foi muito confortável,” Mollie disse, em uma entrevista por telefone de Chicago. “Mas isso pode ter salvo a minha vida. E certamente me livrou de ser espancada com aqueles cassetetes que os policiais estavam usando.”

No momento em que Mollie levantou para respirar, o pior havia passado. “O que eu vi foi inacreditável,” ela disse. “O lugar parecia um campo de batalha.” E ela viu – ou sentiu – algo mais: “Eu olhei em volta e vi um policial segurando sua arma contra minhas costas. ‘Saia do campo’, ele ordenou, ‘ou eu vou atirar em você’”.

Várias pessoas vieram socorre-la e a carregaram para o primeiro posto de socorro em Sam’s Place, o bebedouro que o SWOC alugou como sede durante a greve contra as siderúrgicas de segundo nível do País.

Vários médicos haviam respondido ao chamado por apoio público. “Eles nunca imaginaram que precisariam transformá-lo em um hospital de campo,” Mollie disse. “Mas eles o fizeram – assim como em M*A*S*H.”

Curtis não tinha planejado fazer nada naquele dia. Ele estava trabalhando na Gary Works da U.S. Steel e era um ativo membro do SWOC do que é agora o Local 1014 do Sindicato dos Metalúrgicos. “Eu pensei, porque eu devo ir? Logo depois que a General Motors capitulou perante o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria do Automóvel, a U.S. Steel assinou um contrato com o SWOC.”

Mas sempre alguém que busca aventura, Curtis decidiu ir. “Eu pensei – que diabos, porque não?” Ele disse, enquanto chegava em sua casa em Gary. “O que começou como uma brincadeira se tornou uma das experiências mais condenáveis da minha vida.”

Curtis pensou que os primeiros tiros fossem para assustar as pessoas. “Eu apenas sabia que ninguém, nem mesmo a notoriamente anti-sindical polícia de Chicago, abriria fogo em manifestantes pacíficos que estavam exigindo o direito de colocar uma linha de piquete na fábrica Republic.”

Mas logo ele descobriu o quão enganado estava. “Um cara a cerca de dois metros de mim foi atingido e eu comecei a correr – e muito rápido. Eu tinha estabelecido recordes estaduais quando estava no ensino médio.”

Aaron Cohen tinha sido um mineiro de carvão no Sul de Illinois e um líder no movimento de reforma do Trabalhadores de Minas Unidos da América (UMWA, na sigla em inglês). Assim sendo, ele ganhou a ira de um Van A. Bittner, diretor distrital do UMWA, cujos capangas uma vez bateram em Aaron dentro de uma polegada de sua vida.

Mas o calor da luta de classes pode derreter velhos relacionamentos e forjar novos – e tal era o caso com Aaron Cohen e Van A. Bittner. Na época em que o SWOC lançava seu movimento para organizar a indústria do aço, Bittner estava comandando o show em Illinois e Cohen, então com 28 anos, era um membro da liderança do Partido Comunista em Chicago.

Logo após abrir a loja, Bittner convidou Aaron e Bill Gebert, chefe do PC de Ilinois, para uma reunião onde ele pediu a Aaron para encontrar organizadores do SWOC entre os vários grupos de nacionalidades e para ajudar a obter cobertura favorável da campanha na imprensa de língua estrangeira.

“Chicago Memorial Day Incident”, em 30 de maio de 1937 (Domínio Público)

“Foi um pouco gelado no começo,” relembra Aaron, “Bittner não sabia bem como lidar comigo. Mas eu fiz o primeiro movimento. Eu estendi minha mão e disse algo como, ‘Nós estamos nessa juntos, Van,’ e foi isso.

Aaron, que agora vive na área da Baía de São Francisco, descreveu o evento do Dia Memorial como – ao menos no começo – um “tipo de caso alegre. Havia um espírito de feriado. Os rapazes estavam passeando com suas namoradas. Alguns trouxeram suas famílias e almoços de piquenique. Havia um jogo de baseball e coisas para as crianças fazerem.”

A greve começou às 23h, no dia 26 de maio, e a polícia havia impedido o sindicato de estabelecer uma linha de piquete na fábrica Republic. “Então nós decidimos que todo o grupo desceria e faria uma linha de piquete de massa. Afinal, o prefeito Kelly disse que o SWOC tinha o direito de fazer piquete,” disse Aaron.

Aaron, também, não podia acreditar no que estava acontecendo. “Mas quando Alfred Causey, que estava em pé a menos que um braço de distância de mim, caiu com quatro balas em suas costas, eu comecei a acreditar.” A voz de Aaron endureceu quando ele adicionou: “Lá estava Causey caído morto – e eles ainda estavam batendo nele.”

Quando o grupo – “pelo menos 1.000 fortes”, de acordo com George Patterson, que liderou a manifestação – chegou perto da propriedade da Republic, eles foram encontrados pela polícia alinhada por cerca de 400 metros “protegendo” o moinho.

“De uma vez, nós tínhamos tantos piquetes como havia polícia,” disse Patterson em sua história oral do massacre. Eu fui até o comandante da polícia, Kilroy, que estava lendo um documento. ‘Eu peço para vocês, em nome do povo do Estado de Illinois, dispersarem,’ ele leu e jogou o papel para o lado com um floreio.”

Não havia comando verbal, lembrou Patterson. “Quando Kilroy baixou o papel, o mundo desabou. Balas estavam voando, gás estava voando, e então a balada.”

Quando Patterson parou de correr, ele olhou para a carnificina – para o jovem garoto mancando, sangrando de um ferimento de bala em seu pé, para homens e mulheres deitados no chão, alguns mortos, outros mortalmente feridos.

Patterson disse que ele “aprendeu sobre a morte” na pradaria antes da fábrica Republic. “Não leva muito para saber quando um homem cai de cara no chão que ele foi morto, ele está morto, ele não se mexe mais.

A polícia podia ter sido capaz de cobrir o massacre se não fosse por Orlando Lippert, um cameraman de notícias para a divisão da Paramount Newsreel e sua câmera.

Dentro de segundos – “menos que sete”, Lippert contou para um comitê investigativo do Senado – depois que a agressão começou, ele teve sua câmera funcionando, eventualmente filmando várias revistas de filme, que ele enviou para Nova York.

Os executivos da Paramount retiveram o filme, rotulando-o como “negativos restritivos. Clipes e impressão desse material absolutamente proibidos”.

Contudo, o filme foi citado pelo Subcomitê do Senado de Educação e Trabalho, do Senador Robert La Follette, e mostrado em uma reunião a portas fechadas que incluiu o comandante Kilroy, Patterson e vários repórteres, alguns dos quais escreveram histórias sobre os eventos retratados no filme.

Tom Girdler era o cão líder da equipe de trenó do empregador, que não apenas provocou a greve, mas fez planos de afoga-la em sangue em uma guerra sagrada para evitar “os comunistas” de dominar. E eles falavam sério.

As audiências de La Follette, que começaram em 2 de julho, fizeram mais do que expor os eventos do Dia Memorial. Os investigadores do comitê descobriram que a Republic era a maior compradora de gás lacrimogêneo e nauseante do País. O arsenal privado da Republic tinha um estoque com 552 revólveres, 64 rifles, 245 espingardas e 83.000 cartuchos de munições. As outras empresas tinham esconderijos de armas similares.

Em sua autobiografia, Len De Caux, primeiro editor da CIO News, descreveu a greve das pequenas empresas de aço como uma “guerra de classes assassina”. Em adição ao massacre do Dia Memorial em Chicago:

  • Grevistas foram atingidos com gás, espancados e fuzilados em Youngstown, Massillon e Cleveland, trazendo o total de mortos para 18.
  • Governadores, prefeitos, xerifes e a polícia foram subornados contra o SWOC e o CIO, às vezes com dinheiro vivo.
  • A fórmula do Vale do Mohawk, com seus “comitês de cidadãos”, movimentos de volta ao trabalho e outras técnicas de quebra de greve foram aplicadas com vigor.
  • “Amigos do trabalho” em cargos públicos traíram o SWOC, como testemunhado pela observação de Franklin D. Roosevelt sobre a “maldição em ambos os seus cavalos” em uma coletiva de imprensa.

Embora a greve das pequenas empresas de aço terminou com apenas a Inland assinando um acordo, ela ganhou um lugar nos anais das grandes batalhas da classe trabalhadora da América.

Em 1937 – assim como estiveram na Grande Greve de 1919 – os metalúrgicos estavam na vanguarda da luta de classes.


Por Fred Gaboury (Peolple´s World) | Texto em português do Brasil, com tradução de Luciana Cristina Ruy

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado

Uma versão anterior desse artigo apareceu na People’s Weekly World, em 31 de maio de 1997.

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