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Terça-feira, Outubro 26, 2021

O Mundo tenta apagar os Genocídios e os Ditadores

Nelson Oliveira
Psicólogo clínico, Mestre em Gestão Autárquica e membro de várias instituições desportivas e humanitárias

Assistimos nas últimas semanas a uma nova tentativa de suavização da História mediante a celebração do Centenário da Revolução de Outubro e da ascensão de Lenin ao poder.

Esta é apenas uma das várias tentativas de menorização de genocídios ou sacralização de ditadores que temos vindo a assistir paulatinamente ao longo dos tempos, precisamente quando temos cada vez mais informação e de forma muito acessível.

O Negacionismo do Holocausto

Vítimas do Holocausto Nazi

“Fotografem, façam filmes, reúnam testemunhos. A certa altura da História um idiota vai erguer-se e dizer que isto nunca aconteceu” – General Dwight D. Eisenhower (1945), após libertar um campo de concentração Nazi.

O “Negacionismo do Holocausto” é talvez a face mais visível e absurda de uma tentativa recorrente de hoje em dia se menosprezar, mascarar ou diminuir propositadamente as implicações, os crimes e o horror praticado por diversos tipos de pessoas ao longo da História Mundial.

Talvez já conhecendo este comportamento, o General Americano Dwight D. Eisenhower, após libertar um campo de concentração nazi solicitou que os países aliados enviassem uma série de jornalistas e fotógrafos para noticiarem todas aquelas atrocidades nazis e reunissem provas documentais, porque algum dia, alguém iria contestar e afirmar que aquelas barbaridades nunca existiram – Mahmoud Ahmadinejad, ex-presidente do Irão foi um dos vários líderes mundiais que recentemente negaram a existência do Holocausto. O historiador britânico David Irving e o campeão mundial de Xadrez Bobby Fisher são outras individualidades que postulam o negacionismo ou revisionismo do Holocausto.

A Santificação de Salazar

Christine Garnier, jornalista francesa e amante de Salazar

Em Portugal e de uma forma cada vez mais acentuada, há quem tente, nomeadamente através das verdades inquestionáveis das redes sociais, apagar a brutalidade do Salazarismo e quase que endeusar o ditador – sintoma bem expresso no programa da RTP (2007) quando este foi eleito o “maior Português de sempre” à frente de nomes como Aristides de Sousa Mendes.

Imagens com frases inventadas ou descontextualizadas a promoverem um homem “íntegro, impoluto, mestre nas finanças e pessoa séria” são recorrentes e difíceis de contrariar face à voracidade e discurso inflamado das redes sociais, que mesmo desconhecendo a História, apenas importa destratar o presente e vangloriar o passado, seja ele qual for.

Dizer que Salazar “pagava as suas próprias contas”, não só é falso porque foi dos poucos chefes de Estado que viveu efetivamente no Palácio de S. Bento e legitimamente, diga-se, às “custas do Estado”; mas sim, uma tentativa de alguns fascistas que ainda por cá andam de alterarem uma história bem conhecida e escrita no livro publicado por Franco Nogueira (ex-Ministro de Salazar). Nesse livro e recordado recentemente pelo jornal online Observador, explica-se a verdadeira história que levou à crença que o ditador pagava as “suas contas”.

Salazar tinha uma amante francesa – Christine Garnier, que sempre que vinha a Portugal encontrar-se com o Presidente do Conselho, Salazar pagava todas as suas despesas através da família Espírito Santo, para que esta relação fosse escondida o máximo possível do círculo mais próximo do poder fascista.

Referirem-se também a um ditador impoluto que não cedia a nada, nem beneficiava os seus amigos fascistas é outra questão sem qualquer correspondência com a realidade e bem patente nos seus arquivos pessoais na Torre do Tombo. António Araújo, “historiador e constitucionalista, consultor político do Presidente da República” Cavaco Silva, estudou os arquivos pessoais de Salazar e afirmou ao Expresso que a “longevidade de Salazar” no poder deveu-se à “administração da cunha” adiantando que, cito, “não houve praticamente nenhum general que, depois de exercer funções políticas, não acabasse num conselho de administração de uma empresa. Nisso, Salazar era habilíssimo. Fiz um levantamento da correspondência de todos os professores de Direito, de Lisboa e Coimbra, com Salazar, a partir da documentação existente no Arquivo Oliveira Salazar. Como sabe, Salazar guardava tudo. Basta ir à Torre do Tombo e consultar o Arquivo Salazar para o perceber…” (António Araújo, 2012)

Estas são apenas duas das muitas deturpações sobre o período do Estado Novo que alguns teimam em prestar o seu saudosismo e apagar uma história de pobreza, guerra, analfabetismo, miséria, censura e delito de opinião por uma história de verticalidade e exigência baseada em mentiras misturadas com algumas verdades.

A Revolução de Outubro e as “maravilhas” da URSS

Construção de uma linha de comboio na região do Ártico, executada por presos políticos soviéticos

No meio destas amnésias seletivas que são mais ou menos recorrentes, nas últimas duas semanas surgiu outra deturpação e meia-verdade que também merece destaque.

Assinalou-se o centenário da Revolução de Outubro que, a par dos eventos de Fevereiro de 1917 culminaram com o derrube dos Czares e trouxe uma nova visão política e social, não só para aquele território, como para o Mundo.

Não há dúvida que a revolução liderada por Lenin trouxe muitas mudanças positivas em alternativa a um decrépito poder Czarista. Como recorda Pedro Tadeu (DN) “foi instituído o voto universal, assistência médica e educação gratuitas, legalização do divórcio”, entre outras questões fraturantes e que foram pioneiras.

Houve, sem dúvida, uma tentativa de criar uma sociedade baseada na igualdade entre cidadãos e nos primeiros anos sentiu-se alguma evolução económica, não deixando de ser verdade que era quase impossível um país que tinha batido no fundo não sentir melhorias mínimas. Mas da teoria ou das intenções à realidade, a distância é muita…

Com tantos documentários nas televisões a demonstrarem o que efetivamente foi a URSS, lamento que algumas pessoas com elevadas responsabilidades políticas, nomeadamente no PCP, mas também no BE e uma ou outra pessoa no PS, tenham elogiado esta revolução e principalmente aquilo que ela significou no futuro, sem que tenham tido em conta as atrocidades que provocaram, as mortes e o genocídio de milhares e milhares de pessoas ao longo dos anos subsequentes, mais particularmente nas mãos de Stalin.

Apagar a história ou dourá-la, tornando-a parcial, é péssimo. Não só porque induz em erro quem a desconhece, como omite práticas que deveriam em 2017 merecer um elevado repúdio, venham elas de onde vierem.

José Milhazes, antigo militante do PCP, Jornalista e ex-correspondente da RTP em Moscovo, viveu décadas na Rússia e respondeu a Jerónimo de Sousa num artigo de opinião – “O PCP e a Revolução de Outubro: hoje não é o dia das mentiras”, referindo-se a algumas evidências que o PCP teima em não reconhecer como malefícios desta revolução e que em muitos casos, jamais se compadecem com o verdadeiro Comunismo de Marx.

A “abolição da propriedade privada” teorizada por Marx e Engels foi levada de forma literal, retirando o direito de opinião e liberdade individual a cada cidadão que tentava fugir em massa para o ocidente, tal como atualmente os Norte Coreanos tentam fugir para a Coreia do Sul.

O próprio José Milhazes identifica este sentimento com a anedota soviética. “O que é um trio soviético? É o que resta de uma orquestra do Teatro Bolshoi depois de uma digressão pelo Ocidente”.

Cerca de 60 milhões de pessoas foram mortas pelos Bolcheviques. Foram criados os Gulags – campos de trabalhos forçados para criminosos e presos políticos onde até há registos de práticas de canibalismo. O Stalinismo ajudou a enfrentar o Nazismo e a libertar a Europa, mas de seguida capturou parte dela. Estas são apenas algumas linhas das quais ninguém se poderá orgulhar, muito menos idolatrar um acontecimento como se fosse “a mãe de todas as revoluções”.

Não há bons nem maus ditadores. Quem mata propositadamente milhares de pessoas, quem promove guerras, fome, miséria e censura o livre pensamento, não merece ser recordado por boas razões, muito menos merece que na era da informação o povo ignore as evidências históricas e embarque em interpretações douradas de uma dura e cruel realidade histórica que jamais devemos permitir que se repita.

In: TVS

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