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Sábado, Julho 13, 2024

O parque de merendas da 2ª Circular é lindo!

João Vasco AlmeidaA Câmara Municipal de Lisboa vai construir um parque de merendas numa das mais congestionadas vias rápidas da cidade, a 2ª Circular. É bonito. É bom. É bem pensado. As raízes das oliveiras salazares, dos pinheiros de azevedo, dos carlos carvalhos, com o tempo, vão invadir as faixas de rodagem, ondulando a marcha e criando aquelas lombas contra a velocidade. É inteligente. As águas que correm do norte da cidade, tirando nos viadutos, ficam logo ali retidas, sem empatar o “pipeline” de Alcântara ou o jardim do Campo Grande.

depois21862698cCom o tempo as flores invadem a via, os pássaros enfiam-se nos motores dos aviões, como dizem os pilotos, e teremos aterragens excitantes na Portela. Com o tempo as famílias vão ocupar as faldas da via rápida, com cestinhos de chouriça e pão-de-ló. O arvoredo entrará pela cidade,  os estames e os carpelos voarão até à Avenida da República e dali farão um bosque, com vista para a mata da Liberdade ou os jardins suspensos da Graça ou ainda o choupal da Mouraria.

Durante setenta anos os planeadores retiraram o campo da cidade. Ao contrário dos britânicos, dos holandeses, dos alemães do norte, os políticos e projectistas portugueses deslumbraram-se pelas fotografias de Nova Iorque. Prédios atrás de prédios, o mais alto e barato que conseguiram. A natureza foi expulsa das terras que tinham espaço quase infinito para cada casa, cada bairro, cada prédio ter um logradouro, um quintal. A população agradeceu: com a ganância de ocupar cada metro quadrado e assassinar o campo que cá estava antes, os T2 ficavam baratos e perto do emprego que ainda havia.

Tirando Teotónio Pereira e uns loucos, que fizeram bairros como os Olivais, cheios de parques, árvores e alamedas, respeitando a Carta de Atenas, tudo o que era raiz morreu sepultada nos cimentos firmes da máquina imobiliária.

A correcção, com as hortas urbanas regadas com água da companhia e as segundas circulares do mundo cheias de árvores, sempre nas margens, perpetuam apenas esta visão afunilada da cidade: depois de expulsar a natureza da urbe, à força, querem fazer reféns as sobreirinhas,  laranjeiras e chorões.

Talvez possam cair bolotas nos tejadilhos e pinhas nos pescoços.

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