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João de Sousa

Terça-feira, Outubro 26, 2021

O preço de um derrame ocular

A palavra aos Especialistas

A senhora tem 85 anos. Sentiu uma dor muito grande e tem uma pasta de sangue num olho.

Do atendimento telefónico Saúde 24 encaminham para o Hospital Garcia de Orta. Chega às 11h da noite, mas à noite não há médicos da especialidade, pois a racionalização determina que estes só se encontrem no hospital das 8:00 às 20:00. Comparado com outras vezes que lá passei, ontem estava quase vazio. Meia hora até chegar à triagem. Pulseira amarela. Chamada às 03:00. Tensão alta, pedido de análise sanguínea, que faz às 04:00.

Não se consegue dormir naquele espaço. A senhora não pode mais dos ossos da coluna, da anca, da perna, tanto o desconforto.

Há pessoas que gemem. Por vezes um grito vem lá do fundo. Há uma mulher numa cadeira de rodas que já é conhecida porque sofre de convulsões recorrentes. Depois de horas na sala de espera a cravar dinheiro para comer coisas nas máquinas, já lá dentro, pede para lhe mudarem as calças. Pede uma fralda. Pede para ir à casa de banho. Passam-se eternidades e os enfermeiros e auxiliares têm outras prioridades. A mulher chora, só quer que lhe mudem a roupa mijada.

Há uma outra que não pode com dores. Os pés são diabéticos e assustam: inchaço, tumefacções, manchas brancas, unhas como garras enormes… e anda descalça.

francisco-onetoChega um rapaz novo também descalço. Vomita, cai e acaba por ficar estendido ao comprido nuns bancos até que mais tarde o tentam acordar, sem sucesso. Parece morto, não reage, mas lá se levanta trôpego e mandam-no embora assim mesmo.

E há outros, cujas histórias também devem ser de dor.

A senhora não dorme. Já todos aqueles doentes se foram embora, porque é já dia, segundo o relógio. Mudam as equipas, com os ‘briefings’ de passagem de testemunho e a senhora, sem dormir nem comer e o olho numa pasta de sangue, ali está, ainda. Às 8:00 da manhã abre a oftalmologia nas consultas externas, mas constata-se que a médica que a viu se esqueceu de fazer essa menção no relatório. Agora é preciso esperar por outra médica, para que encaminhe para os serviços teclando mais uma linha no relatório visível no ecrã. Recomeça a explicação do sucedido e lá vai, por fim, num labirinto de corredores para a oftalmologia. Por toda a parte onde se passa há salas de espera, cheias, à pinha, sempre.

Em oftalmologia, a bicha para o guichet estende-se para fora da sala, pelo corredor. Todas aquelas pessoas são maioritariamente velhos. Pobres. Tristes. Vítimas de um estado ao serviço dos predadores a quem entregam depois o voto.

E a senhora espera. Pouco, desta vez. É vista pelo especialista que confirma não ser nada de grave. Passa uma receita e já está. Em todas as fases há sempre computadores e médicos que mal olham para os doentes, pois têm que teclar tudo no processo.

Os enfermeiros inteiram-se da situação não pelo contacto e a interrogação directa dos doentes mas pelo computador na parede. Modernizou-se, a medicina. Por tudo isto a senhora pagou 20 euros de taxa e 5 euros de análises sanguíneas. Saiu do hospital às 11:00 da manhã, doze horas depois de ter dado entrada.

derrame ocularTem 85 anos, a senhora, e passou a noite sem dormir, está aflita da anca, do joelho, das costas, coxeia, anda a custo, apoiada na bengala.

Felizmente que o filho a acompanhou. O filho que já lá passou nas urgências algumas vezes e que nem consegue sentir revolta nem desespero com tudo aquilo.

Todos cantam loas ao “nosso” SNS e muitos louvam ainda o criminoso que ocupou a pasta da saúde como se estivesse a gerir repartições de finanças, cortando nos transplantes, nos medicamentos para as doenças crónicas, no número de médicos, enfermeiros, funcionários, pagando cada vez menos a todos, racionalizando, para tornar tudo mais eficiente. Custo-benefício. Tudo tem um preço para o erário público, como aqueles médicos que são pagos à hora para fazer urgências e que se vão arrastando com calma olímpica por aquele lugar, como o ruivo que já lá encontrei duas vezes e que aparenta viver numa realidade paralela, ao retardador, tendo a arte de conseguir parar para conversar com todo o pessoal médico e de enfermagem em todos os gabinetes e em cada dois metros do seu percurso. Mas está a trabalhar, certamente não tem culpa da espera dos doentes que o vêem passar e anseiam sair dali.

Os enfermeiros e auxiliares, esses, não têm mãos a medir e são a face visível do esforço para manter a máquina a funcionar. Não param, porque os doentes são o serviço. A máquina processa-os e produz resultados para dar andamento ao serviço… E já não é possível a revolta nem o desespero. Apenas a convicção profunda do abandono. De estarmos entregues aos caprichos do destino.

A senhora não tem transporte, é preciso ir de táxi para casa. Na rádio do carro de praça há destaque para uma sondagem da Universidade Católica que diz que Marcelo ganhará à primeira, com mais de 60% dos votos. E ontem havia sondagens que continuavam a insistir que a vitória pertenceria a Passos e Portas se as eleições fossem hoje outra vez. E dizem também que esses mesmos políticos e os seus partidos apresentaram um projecto para criminalizar o abandono de idosos. Seria bom se servisse para criminalizá-los a eles e ao ministro Mota Soares, que outra coisa não fizeram ao longo dos últimos 4 anos do que contribuir para o abandono e para os maus-tratos institucionais aos idosos.

A senhora tem 85 anos e já está em casa, bem, apesar de ter visto por lá idosos sós, perdidos, à espera. Um derrame ocular custou 12 horas de vida à senhora. E outras doze ao filho…

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